O vento de novembro arrastava folhas secas pela calçada quando Holger Friedrich Lomann parou em frente à vitrine de uma joalheria, observando o próprio reflexo. Cinquenta e dois anos, cabelos grisalhos nas têmporas, um casaco caro e um relógio que valia mais do que muita gente ganhava em um ano. Ele tinha conseguido tudo o que o menino descalço do antigo bairro operário um dia sonhou. Tudo.

E, ainda assim, nada. O telefone vibrou no bolso. Era o motorista, com a voz seca de sempre: o carro estava à espera. Holger já se virara para seguir quando ouviu uma voz fina e trêmula atrás dele.
— Por favor, talvez o senhor queira comprar. Ele se voltou. Uma menina magra, de uns oito ou nove anos, com uma jaqueta surrada grande demais para o corpo e tranças de onde escapavam fios rebeldes. Na mão estendida, algo brilhava.
— Minha avó está morrendo — disse ela, com lágrimas na voz. — Ninguém para. Todos passam direto. Os transeuntes realmente faziam um desvio largo ao redor da menina.
Alguns torciam o nariz, outros desviavam o olhar. Holger não parou por piedade — havia muito tempo que ele não sabia o que era isso. Mas havia algo nos olhos da criança que lhe doía de um jeito familiar e inesperado. — O que você está vendendo?
— perguntou, aproximando-se. A menina abriu a palma da mão. Sobre ela, uma broche antiga, de prata escura e esmalte desbotado: um miosótis azul, com uma gota de orvalho feita de um pequeno diamante. Holger congelou.
Ele reconheceria aquela broche entre milhares, mesmo depois de trinta e cinco anos. A última vez que a vira fora no vestido da mãe, no dia em que ele chegara para se despedir, quando ela estava no caixão, com aquele mesmo miosótis azul sobre o peito — a única joia que o pai lhe deixara. A broche havia sido enterrada com a mãe. Holger ergueu os olhos para a menina e sentiu as pernas fraquejarem.
Aqueles olhos cinza com um anel esverdeado, levemente puxados, o contorno das sobrancelhas, o queixo firme. Ele via a si mesmo na infância. Via a mãe. Via uma marca de família impossível de fingir.
— Como você se chama? — a voz saiu quase um sopro. — Marit. — E sua avó?
— Compra ou não? — a menina franziu o cenho, impaciente. — Não tenho tempo. Minha avó está muito mal.
— De onde você tirou essa broche? — Da minha avó. Ela disse para eu vender. Disse que é a única coisa que nos restou.
— Marit soluçou. — Precisamos de dinheiro para os remédios, e sem dinheiro os médicos não vêm. A vizinha diz que minha avó talvez não passe da manhã. Holger pegou a carteira.
As mãos tremiam. — Quanto você quer por ela? — Cem… — a menina hesitou. — Não, mil euros.
A vizinha disse que é antiga e cara. Holger tirou tudo o que tinha — várias notas grandes. — Toma. E me diz onde sua avó mora.
Marit olhou o dinheiro com desconfiança, depois para ele. — Por que o senhor quer saber? — Quero ajudar. — Todo mundo diz isso — a amargura na voz da criança não combinava com a idade.
— E ninguém ajuda ninguém. — Eu não sou como os outros. Algo no tom dele convenceu a menina. Ela escondeu o dinheiro sob a jaqueta e assentiu.
— Venha. Mas rápido. Atravessaram pátios internos, passaram por prédios decadentes de cinco andares, balanços enferrujados e bancos tortos. Um bairro que as pessoas chamavam, com vergonha, de área problemática.
Holger jurara há muitos anos nunca mais voltar a um lugar assim. E ali estava ele de novo. — A avó está doente há muito tempo? — perguntou.
— Muito. Ela trabalhava, mas… — Marit fez um gesto vago. — O coração é fraco e a cabeça às vezes confunde as coisas. Ontem ela me chamou de um nome estranho.
Margarete. Holger quase tropeçou. Margarete. Assim se chamava a mãe dele.
— Minha mãe morreu faz tempo — continuou a menina. — Não me lembro dela. E pai, nunca tive. — Como vocês se viram, sozinhas?
— A avó recebe pensão e às vezes costurava. Agora as mãos não obedecem mais. Pararam diante de uma entrada com vidros quebrados. Marit abriu a porta.
— Quinto andar. O elevador não funciona. Cheirava a umidade e velhice. Os degraus rangiam.
No terceiro andar, uma lâmpada solitária queimava. Diante da porta 47, Marit parou e tirou uma chave pendurada numa corda sob a jaqueta. — Espere. Vou ver como ela está.
Ela entrou. Holger ficou no corredor, apertando a broche na mão. O coração batia tão forte que parecia ter corrido uma maratona. Era impossível.
A mãe estava morta. Ele mesmo a vira no caixão. Ele mesmo jogara terra sobre a tampa. — Pode entrar — disse Marit, reaparecendo na porta.
— A avó está dormindo. Mas, por favor, fale baixo. A casa era minúscula: um cômodo, uma cozinha, um banheiro pequeno. A pobreza não era escondida — não havia onde escondê-la.
Mas tudo estava limpo e arrumado. No parapeito, um gerânio num vaso. Na parede, uma foto antiga emoldurada. Holger se aproximou e paralisou.
Da foto, uma jovem com um sorriso triste olhava para ele. Ao lado dela, ele mesmo, com cerca de dezessete anos, cabelo rebelde e olhar desafiador. Era a única foto em que aparecia com a mãe. Um vizinho a tirara uma semana antes da morte dela.
— Essa é a avó — disse Marit, seguindo seu olhar. — Bonita, não é? Sobre o menino ao lado, ela nunca fala. Só olha e chora.
Holger mal respirava. — Cadê sua avó? Marit apontou para uma porta. Ele entrou no quarto, que mais parecia um depósito.
Uma cama estreita contra a parede, um soro que não fora prescrito por médico nenhum. O cheiro de remédio e desesperança pesava no ar. Na cama, uma mulher idosa, pequena, consumida, faces encovadas. Cabelos grisalhos espalhados no travesseiro.
Holger deu um passo, depois outro. Não a teria reconhecido na rua — a doença e o tempo haviam feito seu trabalho. Mas quando a mulher abriu os olhos — aqueles mesmos olhos cinza com anel esverdeado —, ele soube. — Mãe — sussurrou.
A mulher piscou. Primeiro incompreensão, depois reconhecimento, e então pavor. — Holger… — os lábios dela se moveram sem som. — Não.
Não, não, não. Vai embora. Você nunca deveria ter me encontrado. Nunca.
Trinta e cinco anos antes, Holger tinha dezessete. Fugira de casa para escapar daquele sufoco. O pai não bebia como as pessoas normais — bebia metodicamente, todos os dias, e ao anoitecer virava um monstro. Batia na mãe.
Batia nele, até ele ficar grande o bastante para se defender. A mãe aguentava tudo. Dizia que era uma doença, que o pai era um bom homem no fundo. Holger odiava aquilo.
Odiou o pai e odiou a própria impotência. A fuga foi a única saída. Então veio o telegrama: “Mãe falecida, volte para casa. ” Ele voltou.
Chegou a tempo do enterro. O caixão estava fechado. — Acidente — explicou o pai, com um sorriso torto. — Caiu da escada e bateu com a cabeça.
Holger não acreditou em nenhum segundo. Mas não havia provas. Os vizinhos calavam. O médico assinou o atestado.
A polícia não investigou. Ele saiu de casa naquela mesma noite, levando os documentos e a única foto com a mãe. Jurou nunca mais voltar. O pai morreu três anos depois, afogado no álcool.
Holger não foi ao enterro. — Como? — a voz dele se quebrou agora, diante da mãe viva. — Por quê?
Eu te vi no caixão. Margarete virou o rosto para a parede. Lágrimas escorriam pelo rosto. — Vai embora, Holger.
Eu te imploro. Esquece tudo. Você nunca deveria saber. — Saber o quê?
Marit apareceu na porta, as mãos juntas sobre o peito. — Avó, você está mal? Por que está chorando? Quem é esse homem?
Margarete olhou para a bisneta com um cansaço imenso. — Sai um pouco, meu sol. Precisamos conversar. Por favor.
Quando a porta se fechou atrás da menina, Margarete voltou a encarar o filho. — Anos — sussurrou. — Anos me escondendo. Pensei que levaria esse segredo para o túmulo.
Mas o destino decidiu diferente. — Que segredo? Margarete fechou os olhos. — Naquele caixão não estava eu.
E o que aconteceu naquela noite… — ela respirou com dificuldade. — Não foi acidente. Silêncio. Lá fora, a tarde escurecia.
Uma porta bateu no prédio. Um cachorro latiu. — Seu pai — começou Margarete, enfim — não era só um bêbado. Era um monstro.
Mas você não sabe nem a metade. No dia em que você fugiu, Hermann me disse: “Agora ninguém mais vai te proteger. Agora você é toda minha. ” Eu pensei que fosse só ameaça.
Mas naquela noite… — a voz tremia. — Ele não veio sozinho. Trouxe um homem, um tal de Georg, com quem trabalhava e bebia. Hermann disse que me perdera no jogo de cartas.
Que eu tinha de pagar as dívidas dele. Holger apertou os punhos até as unhas cravarem na palma. — Eu recusei. Tentei fugir.
Eles… — ela não terminou. Não precisava. — Depois, Hermann me bateu como nunca. Pensei que fosse me matar.
Eu até queria. Mas ele parou. Disse que era só o começo. Que toda semana eu teria de pagar as dívidas dele.
— Por que não me contou? — a voz de Holger saiu grossa. — Por que não me escreveu? — Eu não sabia seu endereço.
Hermann escondia todas as suas cartas. Queimava diante dos meus olhos. E quando tentei ir à polícia… — ela tocou uma cicatriz antiga sobre a sobrancelha. — O delegado era comparsa dele.
Riram de mim. Naquela noite, Hermann quebrou duas das minhas costelas. — Isso durou meses. Eu pensava em suicídio todos os dias.
Até que algo mudou. — O quê? — Brunhild. Uma vizinha do prédio da frente.
Via o que acontecia. Um dia me abordou no poço, com Hermann longe. Disse: “Posso ajudar. Mas você precisa estar pronta para tudo.
”
Margarete olhou para o filho. — Ela tinha um plano. Ela me ajudou a morrer. A história soou como um pesadelo.
Mas Holger sabia que a vida às vezes é mais cruel que qualquer pesadelo. Brunhild tinha uma irmã, sem-teto, alcoólatra, consumida pela tuberculose. Viera secretamente morrer na casa de Brunhild, pois rompera com todos e ninguém no bairro sabia de sua existência. — Ela era parecida comigo — disse Margarete.
— De porte. Não de rosto. Altura, corpo. Quando alguém morre num caixão fechado, quem vai conferir?
A irmã de Brunhild morreu duas semanas depois. Naquela mesma noite, Margarete fingiu a queda. Brunhild lhe deu uma tintura. Bebeu diante de Hermann.
O coração bateu tão devagar que quase não se ouvia. A respiração tão fraca que um espelho não embaçava. O médico bêbado que Hermann chamou constatou a morte. — E o reconhecimento?
— perguntou Holger. — Era um bairro operário. Todo mundo conhecia todo mundo. Hermann disse que era a mulher dele.
Então era. O caixão fechado, ele explicou, era porque eu estava desfigurada pela queda. Ninguém contestou. Ninguém ligava para um bêbado e a mulher que ele oprimia.
Holger lembrou-se do enterro. Do cheiro pesado que atravessava as frestas do caixão. Do rosto do pai — não de luto, mas estranhamente aliviado. — Ele sabia?
— perguntou Holger. — Sabia que não era você? — Não. Hermann estava convencido de que me matara.
Chorou de alegria no velório, porque estava livre de mim. Só tinha medo de que você crescesse e fizesse perguntas. Mas mortos não falam. — E vivos escapam?
Como você fugiu? — Brunhild me tirou naquela mesma noite, depois que todos saíram do cemitério. Tinha cavado um túnel raso até o túmulo, pelo lado da encosta. A terra ali é macia.
Ela me puxou para fora enquanto a tintura ainda fazia efeito. Levou-me num carrinho, coberta de sacos, para casa de uma conhecida na cidade vizinha. Fiquei três semanas me recuperando. Depois, Brunhild arranjou documentos novos.
Não pergunte como. Ela tinha contatos. Assim me tornei Margarete Lomann. Nome novo.
Vida nova. Holger recostou-se. A cabeça girava. — Trinta e cinco anos.
Você viveu. E nunca tentou me encontrar? A dor na voz dele fez Margarete estremecer. — Tentei.
Meu Deus, claro que tentei. Mas Brunhild me fez jurar. Disse: se você aparecer, Hermann fica sabendo. Ele tem contatos em toda parte.
Ele vai te encontrar. E vai matar você, e vai destruir seu filho, porque ele ousou conhecer a verdade. — Meu pai morreu três anos depois do enterro. Eu sei.
Margarete virou o rosto para a parede. — Brunhild me contou. Fui secretamente, à noite, procurar o túmulo dele. Fiquei muito tempo em pé diante dele.
Não chorei. As lágrimas tinham secado havia muito tempo. Depois, procurei você. Mas você tinha sumido.
Os vizinhos disseram que você partiu logo depois do enterro dele. Ninguém sabia para onde. Você não mantivera contato com ninguém. Descobri que você tinha mudado de nome.
No cartório, Schulze virou Lomann. Você pegou o nome da avó materna. Holger assentiu. — Não queria carregar o nome dele.
Queria esquecer que ele existia. — Eu te procurei por cinco anos. Viajei, perguntei. Era como se você tivesse sido engolido pela terra.
Então pensei que você tivesse se escondido de propósito. Construído uma vida nova. Não queria que o passado te alcançasse. Achei melhor não remexer naquilo.
— Melhor? — Holger se levantou de um salto. — Eu passei anos achando que não tinha te salvado. Que era culpa minha, porque fui embora e te deixei com ele.
Pensava que você tinha morrido. Me odiei cada maldito dia. Acordava no meio da noite, encharcado de suor. Ele ofegava.
As paredes do quartinho pareciam esmagá-lo. — Filho… — Margarete estendeu a mão trêmula. — Me dá um minuto. Ele foi até a janela.
Olhou o pátio, os balanços enferrujados, a luz fraca do poste. E então reparou na foto pequena no parapeito, numa moldura barata. A mesma do quarto. Ou quase.
— De onde é isso? — ele pegou o retrato. — Eu levei a nossa única foto. Margarete sorriu fraco.
— Lembra do vizinho, o senhor Müller? Ele fez duas cópias. Uma ele te deu, outra, a mim. Disse: “Para lembrança de nós dois.
” Escondi a minha num buraco no assoalho. Quando fui embora para sempre, levei comigo. É a única coisa que restou daquela vida. Além da broche.
— A broche? — Brunhild a guardou para mim. Tirou-a da morta antes do enterro, substituiu por um vidro barato. Disse: “Isso é seu.
Você vai precisar de algo verdadeiro na sua vida nova. ”
Holger apertou a broche na mão até o metal marcar a pele. — Mãe. A foto na parede.
Marit disse que você olha e chora, que não conta quem é o menino ao seu lado. — Como eu poderia contar? — a voz de Margarete tremia. — Como explicar a uma criança que o bisavô dela é filho de uma mulher que morreu oficialmente antes do nascimento dela?
Que toda a nossa família é construída sobre uma mentira e uma fuga? “Bisavô. ” A palavra pairou no ar. Na cozinha, Marit estava sentada, balançando as pernas, diante de uma xícara de chá frio.
Quando Holger saiu do quarto, ela ergueu os olhos vigilantes. — Vocês conversaram muito — disse. — A avó chorou. Eu ouvi pela porta.
Ele se sentou no banquinho diante dela. — Marit, me conta sobre sua mãe. Como ela se chamava? — Mareike.
— A menina deu de ombros. — Mal me lembro dela. Eu tinha três anos quando ela se foi. — Foi?
— A avó diz que ela dormiu e não acordou. Mas ouvi uma vizinha sussurrar que minha mãe não quis mais viver. — A voz ficou baixa. — É verdade?
Holger não soube o que responder. — Tem foto da sua mãe? — Uma. — Marit pulou do banquinho e sumiu pela casa.
Voltou com um retrato pequeno. — Aqui. Da foto, uma mulher de pouco mais de trinta anos. Cabelos escuros, olhos cansados, um sorriso tímido.
Bonita, mas apagada. Quebrada. No rosto, Holger não reconheceu nada familiar. — Qual era o nome completo dela?
— Mareike Schulze. Por quê? O chão pareceu sumir sob os pés de Holger. — Mareike Schulze — repetiu devagar.
— E quantos anos ela tinha quando morreu? — Trinta e um. A avó disse. Holger fez as contas rapidamente.
Ele tinha cinquenta e dois. Se tivesse tido uma filha aos dezesseis, ela teria trinta e seis hoje. Mareike morreu há cinco anos, aos trinta e um. Nascera há trinta e seis anos.
Quando Holger tinha dezesseis. Ele colocou a foto devagar sobre a mesa. — Mãe! — gritou, embora já soubesse a resposta.
Entrou no quarto. Margarete estava de olhos fechados, mas os abriu assustada. — Quem era Mareike? — exigiu.
— Mareike Schulze, a mãe de Marit. Quem ela era para mim? Margarete empalideceu. Os lábios tremeram.
— Holger… eu queria te contar. Eu quis desde o começo. — Quem era? Uma pausa longa e dolorosa.
O tique-taque de um relógio barato. O ranger do assoalho sob os pés de Marit, que voltara à porta. E então, num sussurro quase inaudível:
— Sua filha. Mareike era sua filha.
O mundo de Holger desabou devagar, como um castelo de cartas ao vento. — Filha? — repetiu, embora tivesse ouvido perfeitamente. — Eu tive uma filha?
Margarete fechou os olhos. Lágrimas escorriam pelas faces encovadas. — Lembra de Hannelore? Hannelore Weber?
Vocês eram amigos antes de você fugir. Hannelore. Claro que ele lembrava. Como esquecer o primeiro amor?
Uma garota delicada, trança loira, sardas no nariz. Encontravam-se em segredo atrás do antigo clube, perto do rio, num pomar de maçãs abandonado. Beijos desajeitados, toques tímidos, a promessa de esperar um pelo outro para sempre. E então ele partira, e Hannelore nunca escreveu.
Nem uma carta. Ele pensara que ela arranjara outro. Que o esquecera. Doía, mas ele aprendera a empurrar a dor para o fundo, como tudo o mais.
— O que houve com Hannelore? — a voz não obedeceu. — Quando você foi embora, ela já estava grávida. Mas não sabia.
Descobriu dois meses depois. Veio chorando até mim, desesperada. Pediu ajuda para te escrever. Eu escrevi três cartas.
Entreguei a Hermann para ele levar ao correio. — A voz de Margarete ficou surda. — Ele queimou todas. E depois descobriu sobre Hannelore.
— O que ele fez? — Foi à casa dos pais dela. Contou horrores. Que a filha deles era uma perdida, que o filho podia ser de qualquer um, que ele faria com que ela não tivesse vida nenhuma se não a tirassem da cidade.
Os pais dela eram gente simples, assustada. Mandaram Hannelore para parentes distantes, em outro estado. Longe da vergonha. — E você não fez nada?
— O que eu podia fazer, Holger? — a voz da mãe rachou. — Hermann me vigiava dia e noite. Me batia por qualquer passo em falso.
Eu era uma prisioneira. E depois… eu tive de morrer. Holger afundou na beira da cama. — Hannelore deu à luz naquela cidade estranha, entre parentes que mal conhecia.
Deu à menina o nome da avó: Mareike. Mas no registro de paternidade, colocou seu nome. Disse: “Ao menos assim o pai estará com ela. ”
— E Hannelore?
Margarete demorou a responder. — Morreu seis meses depois do parto. Uma doença pulmonar. Comum na época, sobretudo entre mães jovens, fracas por má alimentação e falta de cuidado.
— E Mareike? — Foi para um orfanato. Os parentes não quiseram ficar com uma criança estranha. Os avós de Hannelore morreram logo depois, um atrás do outro.
O coração não aguentou. Nunca souberam o que foi feito da filha e da neta. Holger ficou em silêncio. A cabeça parecia vazia, como um sino depois da batida.
Há trinta e seis anos, nascera uma filha dele. Durante trinta e seis anos, ele não soubera da existência dela. Nunca a segurara no colo, nunca vira os primeiros passos, nunca ouvira a primeira palavra. Nunca a proteger.
E agora ela não existia mais. — Como você a encontrou? — perguntou afinal. — Você estava escondida, com nome falso.
Como soube de Mareike? — Anos depois da minha fuga. Eu trabalhava como costureira, vivia isolada. Mas o tempo todo eu te procurava.
E um dia, por acaso, cruzei com o rastro de Hannelore. Estava procurando você nos cartórios, e numa pasta caiu nas minhas mãos o atestado de óbito dela, e os documentos da filha que fora mandada para o orfanato: Mareike Lomann, nascida Schulze. — Margarete olhou para o filho. — Entende?
Eu entendi tudo na hora. — E o que você fez? — Fui ao orfanato. Procurei por ela.
— A voz da mãe se aquecia, apesar das lágrimas. — Ela tinha nove anos. Magra, assustada, olhos enormes. Seus olhos, Holger.
Ela me olhou como se tivesse esperado por mim a vida inteira. — Você a levou para casa? — Não de imediato. Pedir guarda não é fácil quando se vive com documentos falsos.
Mas Brunhild me ajudou de novo. Tinha os contatos. Seis meses depois, trouxe Mareike para morar comigo. Criei-a como se fosse minha neta de verdade.
— Ela sabia? — perguntou Holger. — Sabia quem você era? — Não.
Para ela, eu era apenas uma mulher boa que a tirou do orfanato. “Tia Margret”, depois “vovó Margret”. Eu não podia contar a verdade. Era perigoso demais.
Para ela, para mim, para você. Eu não sabia onde você estava, não sabia que vida você levava. Imagine se você tivesse uma família, filhos, uma posição. Imagine se a aparição de uma mãe dada como morta e de uma filha ilegítima tivesse destruído tudo.
Holger sorriu amargamente. — Eu não tenho nada, mãe. Dinheiro, sim. Apartamentos, carros, um negócio.
Mas não tenho família. Não tenho filhos. Nunca casei. Não consegui.
Depois do que aconteceu, depois da sua suposta morte, algo quebrou dentro de mim. Não consegui amar. Não consegui confiar. Tinha medo de que qualquer pessoa que eu deixasse chegar perto desaparecesse.
Margarete estendeu a mão para ele. — Meu filho…
— Me conta sobre Mareike — interrompeu ele. — Como ela era? Marit estava na porta, encostada no batente.
Ouvira tudo, ou quase tudo. O rosto pálido, os olhos enormes. — Vovó — disse baixinho. — Ele é meu avô?
O pai da minha mãe? Margarete olhou para a bisneta com um cansaço infinito. Depois, voltou os olhos para o filho. — Sim, meu sol — disse afinal.
— Este é seu avô Holger. Meu filho. Marit entrou devagar no quarto. Parou a dois passos de Holger e o examinou como se o visse pela primeira vez — e era mesmo.
— Eu nunca tive avô — disse ela. — Todo mundo dizia que eu não tinha ninguém, só a minha avó. — Agora você tem alguém — respondeu Holger, com a voz rouca. — E o senhor?
— Marit hesitou. — O senhor não vai embora? Não vai sumir, como todo mundo? Algo se contraiu no peito de Holger, doloroso e intenso.
— Não vou embora — disse. — Eu prometo. Ele não sabia se tinha o direito de fazer promessas. Mas, naquele momento, olhando nos olhos cinza da neta, tão parecidos com os dele, sabia apenas uma coisa: não perderia mais ninguém.
Nunca mais. Margarete falou de Mareike até tarde da noite. Holger ouvia, absorvendo cada palavra, tentando montar com os cacos a imagem da filha que nunca conhecera. Mareike fora uma menina calma.
O orfanato ensinara-lhe a não chamar atenção. Era boa aluna, lia muito, adorava desenhar. Com dezesseis, terminou a escola com distinção. Poderia ter ido para a universidade, mas ficou em casa para cuidar de Margarete, que já estava doente.
— Ela era parecida com você — disse a mãe. — No caráter, não na aparência. Teimosa e orgulhosa. Nunca pedia ajuda, mesmo quando estava afundando.
— Por que ela… — Holger não conseguiu terminar. — Por que ela tirou a própria vida? Margarete fechou os olhos. — Eu me culpo até hoje.
Devia ter visto. Ela se apaixonou aos vinte e três anos, pela primeira vez. Ele se chamava Torsten Fahrenholz. Bonito, charmoso, divertido.
Ela floresceu ao lado dele. Casei-os dois anos depois. Três anos mais tarde, nasceu Marit. — Ela pausou.
— Aí descobri quem ele era de verdade. Um jogador. Um golpista. Casou-se com Mareike só porque pensou que ela tivesse dinheiro, uma herança do orfanato.
Quando percebeu que se enganara, começou a bater nela. Igualzinho ao seu pai batia em mim. A história se repetiu, Holger. Um ciclo amaldiçoado.
— E ele? — a voz de Holger tinha uma nota perigosa. — Não sei. Deixou-a quando Marit tinha dois anos.
Um dia saiu de casa e não voltou. Levou todo o dinheiro, deixou Mareike cheia de dívidas. Um ano depois, ela não aguentou. — Margarete balançou a cabeça.
— Eu vou te dizer o nome dele. Torsten Fahrenholz. Mas o que você pretende fazer? — Encontrá-lo.
— Para quê? Vingança não muda nada. Ela não traz Mareike de volta. — Talvez não mude para os mortos.
— Holger olhou para Marit, adormecida enrolada numa poltrona, como um gatinho. — Mas ele vai pagar por tudo. A manhã chegou cinzenta e fria. Holger não dormira nada.
Sentado na cozinha, olhando o pátio vazio, deixou os pensamentos girarem. A mãe estava viva. Ele tivera uma filha. Tinha uma neta.
Trinta e cinco anos de mentiras, dor e solidão. Às sete horas, o telefone tocou. Era o motorista. — Senhor Lomann, onde o senhor está?
Esperaram pelo senhor na reunião ontem, e hoje às nove há o encontro com os fornecedores. — Cancele tudo — interrompeu Holger. — Por uma semana? — Por duas.
Estou ocupado. Desligou e ligou para outro número. — Günter? Sou Holger.
Preciso da sua ajuda. Uma pausa. — Holger. Quanto tempo.
O que você precisa? Günter era um homem do passado dele. Haviam começado juntos, dois lobos famintos. Depois os caminhos se separaram: Holger foi para o negócio legal, Günter ficou nas sombras.
Mas as conexões permaneciam, e Holger sabia que, se alguém podia encontrar quem não queria ser encontrado, era Günter. — Preciso que encontre um homem. Torsten Fahrenholz. Sumiu há seis anos.
Jogador, golpista. Maltratou a própria esposa. — Por que você procura ele? — É pessoal.
Outra pausa. — Pessoal é caro, Holger. E perigoso. — Dinheiro não é problema.
— Espere meu contato. Três ou quatro dias. Se ele estiver vivo e no país, eu o encontro. Às nove, Holger chamou médicos.
Não da clínica pública — uma equipe particular, os melhores especialistas que o dinheiro podia comprar. Chegaram uma hora depois: um cardiologista, um clínico, uma enfermeira com uma mala de equipamentos. Margarete resistiu. — Não é preciso, Holger.
Para que gastar dinheiro comigo? Já vivi minha vida. — Não diga besteira — cortou ele. — Fique deitada e deixe-os trabalhar.
Marit ficou num canto, os joelhos junto ao peito, observando os médicos com uma mistura de desconfiança e esperança. O exame durou quase duas horas. Depois, o cardiologista chamou Holger à cozinha. — A situação é grave — disse sem rodeios.
— Insuficiência cardíaca severa, desnutrição, anemia e um princípio de pneumonia. É um milagre ela estar de pé. — O que podemos fazer? — Hospital, imediatamente.
Ela precisa de cirurgia. Três pontes, talvez. Sem isso… — ele abriu os braços. — Um mês, talvez dois.
— Organize. A melhor clínica, os melhores cirurgiões. Dinheiro não importa. O médico assentiu.
— Farei algumas ligações. Mas há um problema. — Qual? — Os documentos.
A senhora tem um documento em nome de Margarete Lomann, mas certos sinais — exames antigos, tipo sanguíneo, particularidades anatômicas — indicam que não são os primeiros documentos dela. Holger ficou imóvel. — E daí? — Para uma cirurgia desse porte, precisamos do histórico completo.
Alergias, doenças pregressas, fatores hereditários. Documentação incompleta é risco. — Eu cuido disso — disse Holger. — Só encontre o hospital.
Margarete foi transferida naquele mesmo dia. Holger seguiu de carro, com Marit ao lado. A menina ficou em silêncio durante todo o trajeto, segurando a mão dele com tanta força que parecia temer que ele se dissolvesse no ar. Na clínica — paredes brancas, cheiro de desinfetante, enfermeiras educadas —, Margarete ganhou um quarto individual.
Soro, monitores, o bip regular dos aparelhos. — Você não vai embora mesmo? — perguntou Marit, sentada no corredor, esperando os primeiros resultados. — De verdade?
— De verdade. — E a vovó vai ficar boa? Holger olhou para a neta. Oito anos.
Já perderá a mãe. Não podia perder mais ninguém. — Os médicos vão fazer todo o possível — disse. — E eu também.
Marit ficou quieta por um instante. — Mamãe também dizia que tudo ia ficar bem. E depois…
— Não sou sua mãe — disse Holger, com suavidade. — Não vou prometer o que não posso cumprir.
Mas estarei aqui, aconteça o que acontecer. A menina encostou-se nele. Pequena, quente, viva. Seu sangue.
Sua família. A ligação de Günter veio no terceiro dia. — Encontrei seu Fahrenholz — disse sem cumprimento. — Mas não vai gostar.
— Fala. — Ele mudou de nome. Agora é Torsten Fahrenkamp. Vive bem.
Apartamento no centro, carro caro, negócio próprio — uma empresa de consultoria financeira. Isso mesmo: ele consulta gente sobre dinheiro. — A ironia na voz de Günter era sombria. — E tem uma família nova.
Esposa, dois filhos. Um menino de três anos, uma menina de um. Holger apertou o telefone até o plástico estalar. — Casou há três anos.
A esposa é filha de um funcionário influente da prefeitura. Desta vez, ele não se deu mal. Ou seja: Torsten abandonara Mareike, levara-a ao suicídio, transformara Marit em órfã, e dois anos depois já estava casado de novo. Família feliz.
Filhos. Uma vida nova, como se Mareike nunca tivesse existido. — E tem mais — continuou Günter. — Cavei fundo.
Seu Fahrenkamp não é só um jogador. É um golpista profissional de casamentos. Mareike não foi a primeira. Antes dela, houve outras duas mulheres.
Uma, ele arruinou e abandonou, ficou sem nada. A segunda também se matou. Há dez anos. Holger viu tudo escurecer.
— Ele é um assassino. — Formalmente, não. Nunca matou ninguém com as próprias mãos. Mas as levou à morte.
E ele é bom em apagar rastros. Limpo como vidro. Nenhum processo, nenhuma condenação. — Obrigado, Günter.
— O que você vai fazer? — Ainda não sei. Mas vou fazer alguma coisa. Antes de ir até Torsten, Holger visitou a mãe no hospital.
Margarete já estava melhor depois de três dias de terapia intensiva. Um pouco de cor voltara às faces, os olhos estavam mais claros. — Mãe, eu o encontrei. — Torsten?
— O sorriso sumiu do rosto dela. — Para quê, Holger? Você sabe o que vai fazer. Vingança.
— Ele levou duas mulheres à morte. Mareike não foi a primeira. E agora vive em grande estilo, com família nova, filhos, como se nada tivesse acontecido. Como se Mareike não existisse.
— E o que você pretende? Matá-lo? — Não sei. — Se você o matar, vai para a prisão.
E o que será de Marit? Ela acabou de te encontrar. Quer abandoná-la de novo? Holger estremeceu.
Não tinha pensado nisso. Não tinha pensado em nada, exceto na névoa vermelha de fúria diante dos olhos. — Há outro caminho — disse Margarete, de repente. — Qual?
— Destruir a vida dele. Como ele destruiu a de Mareike. Não com as mãos, mas com a cabeça. Você é meu filho inteligente.
Conquistou tanta coisa. Não vai descobrir como aniquilar um golpista miserável? Holger olhou para a mãe. Nos olhos cinza com anel esverdeado ardia um fogo estranho.
Não era medo. Não era súplica. Era ódio frio, calculado. — Você também o odeia, não é?
— Odeio mais do que odiei seu pai. Hermann era um monstro, mas era um doente. Este aqui — ela cerrou os punhos — sabia exatamente o que fazia. Calculou cada passo.
Viu Mareike se apagar e não ligou. Tirou de mim minha neta, Holger. A única pessoa pela qual eu vivi todos esses anos. — Mas você disse que vingança não muda nada.
— Vingança, não. — Margarete olhou firme para ele. — Justiça, sim. O plano amadureceu numa única noite.
Holger ficou no quarto do hotel, pensando. Matar Torsten seria simples. Günter certamente arranjaria pessoas que resolvem problemas por dinheiro. Mas a mãe tinha razão: a prisão significaria o fim.
Marit ficaria sozinha outra vez. Não. Torsten pagaria de outra forma. Perderia tudo: dinheiro, família, reputação.
Sentiria cada segundo da queda. Saberia como é quando a vida desmorona e nada mais pode ser feito. Na manhã seguinte, Holger ligou para o advogado. — Dr.
Westermann, preciso de informações. Empresa de consultoria Fahrenkamp & Associados. Tudo o que conseguir sobre o proprietário. Relatórios financeiros, clientes, processos.
— Entendido. Terá isto hoje à noite. A segunda ligação foi para Günter. — Preciso de um dossiê sobre a esposa de Torsten.
Pais, conexões, pontos fracos. E informações sobre as duas mulheres que ele arruinou antes de Mareike. Nomes, endereços, contatos com parentes. — É um trabalho grande, Holger.
— Eu pago. Uma pausa. — O que você pretende? — Justiça.
À noite, uma pasta grossa como três dedos estava sobre a mesa. A empresa Fahrenkamp & Associados era uma fachada. Um escritório bonito, promessas grandiosas, poucos clientes, um abismo enorme na contabilidade. Torsten vivia acima das posses.
Apartamento caro, carro importado, viagens de luxo. O dinheiro entrava em rios — mas não do negócio. — De onde ele tira os recursos? — perguntou Holger ao advogado.
— O sogro, Wolfgang von Bernsdorf, funcionário graduado da administração, sustenta o genro e a filha. Mas não por amor. É para evitar escândalo. — Escândalo?
— Dizem que a filha engravidou antes do casamento. Von Bernsdorf é um homem da velha guarda. Para ele, aquilo seria uma vergonha. Por isso apressou o casamento, comprou o apartamento do casal e finge que está tudo bem.
Holger sorriu sem alegria. Então era a mesma cartada de sempre. Torsten seduzira uma moça, engravidara-a e comprara a própria entrada no dinheiro. Só que desta vez escolhera uma vítima com um pai influente.
Um trunfo de dois gumes. O dossiê de Günter chegou dois dias depois. A primeira vítima de Torsten chamava-se Ute. Casara-se com ele havia dez anos.
Dois depois, estava divorciada, sem casa, sem dinheiro, com a saúde destruída. Hoje, morava com a irmã e trabalhava como faxineira numa escola. A segunda chamava-se Frauke. Vinte e três anos, artista, sonhava com o grande amor.
Torsten lhe dera esse sonho e depois tomara tudo: economias, joias, até os quadros. Quando percebeu, era tarde. Há quinze anos, atirou-se da sacada do nono andar. Deixou os pais, velhos que quase morreram de tristeza.
Nunca souberam a verdade. Pensavam que a filha enlouquecera por amor. Holger olhava as fotos. Ute, uma mulher cansada, olhos apagados.
Frauke, uma garota sorridente diante das próprias telas. Três mulheres. Três vidas destruídas. Um único homem ainda andando pela terra como se nada fosse.
O encontro com a esposa de Torsten foi combinado por acaso. Günter descobrira que Svenja von Bernsdorf levava os filhos a um centro de estimulação toda terça-feira. Nas duas horas livres, ficava num café em frente. Holger chegou meia hora antes, pediu um café e esperou.
Ela apareceu pontualmente às onze. Uma mulher jovem, de cerca de vinte e sete anos, bem-cuidada, roupas elegantes. Mas sob a maquiagem cara, Holger notou sombras sob os olhos e uma ruga de tensão em volta da boca. Sentou-se na mesa ao lado, pediu chá e pegou o telefone.
De repente, congelou ao olhar a tela. O rosto se contorceu de dor. Holger ouviu-a sussurrar: “De novo, não. ” Então guardou o telefone às pressas, as mãos trêmulas.
Holger esperou cinco minutos. Então deixou o guardanapo cair perto da mesa dela. Ajoelhou-se, apanhou-o e sorriu com ar de desculpas. — Perdoe-me pela intromissão.
Svenja sobressaltou-se. Ergueu os olhos, tentou retribuir o sorriso, mas saiu forçado. — Sem problema. Ele voltou ao lugar.
Dez minutos se passaram. Svenja ficou imóvel, olhando para o vazio. O chá esfriou intocado. Por fim, levantou-se, atirou dinheiro sobre a mesa e quase correu para fora.
Holger a observou partir. Conhecia aquele olhar. Vira-o nos olhos da mãe quando era criança. Vira-o no espelho quando pensava em Mareike.
Era o olhar de alguém que vive no inferno. — Ele também bate nela — contou à mãe naquela mesma noite. Margarete estava no quarto do hospital, amparada por travesseiros. Os médicos preparavam a cirurgia para dali a três dias.
— Como sabe? — A vi. Parece um animal acuado. E a mensagem no telefone devia ser dele.
— Pobre coitada — disse Margarete baixinho. — Mais uma vítima. — Ela pode ser uma aliada. — Como assim?
— Se eu contar a verdade ao pai dela, ele não vai acreditar. Vai pensar que é calúnia, complô de inimigos. Mas se a própria filha confirmar…
— Você quer usá-la? — Quero ajudá-la.
E a mim mesmo. E à memória de Mareike. Margarete olhou o filho por muito tempo. — Você mudou, Holger.
Ficou mais duro. — A vida me ensinou. — Só não se perca nessa vingança. Mareike não gostaria que você se tornasse como ele.
— Não vou me tornar. — Holger beijou a testa da mãe. — Vou apenas fazer justiça. No dia seguinte, ele estava de novo no café, sentado como por acaso ao lado de Svenja.
Desta vez, ela veio com um hematoma sob o olho, mal coberto por corretivo. — Perdoe-me — disse Holger, aproximando-se da mesa dela. — Nós nos vimos ontem. Não pude deixar de notar.
Está tudo bem com você? Svenja ergueu o queixo. Nos olhos dela, primeiro o medo. Depois outra coisa: desespero e uma faísca mínima de esperança.
— Não — sussurrou. — Nada está bem. Há muito tempo. Conversaram por três horas.
Svenja falou primeiro com cautela, depois cada vez mais depressa, como se uma represa tivesse rompido. As palavras jorravam com as lágrimas. A história era dolorosamente familiar. Cortejo bonito, flores, presentes, promessas.
Depois a gravidez, o casamento apressado, e a lenta transformação do príncipe em monstro. — No começo, ele só gritava — contou ela, amassando um guardanapo. — Pensei que fossem os nervos, o estresse, o negócio que não andava. Depois começou a me empurrar.
Então vieram os tapas, primeiro onde não aparecia. Agora ele nem se importa mais. — Por que você não foi embora? — Para onde?
— Ela ergueu os olhos vermelhos. — Ele disse: se você for, eu tiro as crianças de você. Ele tem contatos, advogados. E meu pai não vai me ajudar.
Ele não sabe de nada. Não posso contar. — Por que não? — Porque papai me avisou.
Disse que Torsten era um aproveitador, que eu estava cometendo um erro. Eu não dei ouvidos. Se eu confessar agora… — ela soluçou. — Ele vai dizer que a culpa é minha.
Ele é tão severo. Não perdoa fraqueza. Holger ficou em silêncio por um instante. — E se você descobrisse que não é a primeira?
Que antes de você houve outras mulheres com quem ele fez exatamente a mesma coisa? Svenja paralisou. — Como assim? Holger tirou uma foto do bolso e colocou sobre a mesa.
— Frauke. Vinte e três anos, artista. Há quinze anos, atirou-se da sacada depois que Torsten, que então se chamava Fahrenholz, levou todo o dinheiro dela e a abandonou. Svenja encarou a imagem sem piscar.
Holger colocou outra foto ao lado. — Ute. Casou-se com ele há dezoito anos. Dois anos depois, ficou sem casa e sem um centavo.
Nunca se recuperou. — De onde? De onde o senhor sabe de tudo isso? Holger colocou a terceira foto sobre a mesa.
— Esta é Mareike. Minha filha. Ela conheceu Torsten há treze anos. Casou-se com ele, deu-lhe um filho.
E então ele a abandonou, cheia de dívidas, com a vida destruída. Um ano depois, ela tirou a própria vida. Svenja pressionou a mão contra a boca. — Meu Deus.
— Torsten Fahrenholz — continuou Holger, com voz calma, embora tudo fervesse por dentro — é um golpista profissional de casamentos. Muda de nome, escolhe novas vítimas, suga e descarta. Você é a quarta. E se nada mudar, haverá uma quinta, uma sexta.
Ele não vai parar. Svenja ficou em silêncio por um longo tempo. Então, quase sem voz:
— O que o senhor quer? — Justiça.
Que ele pague pelo que fez. Por Frauke, por Ute, pela minha filha. Seu pai é um homem influente. Se ele souber a verdade — a verdade real, com provas, com testemunhas —, é o fim de Torsten.
Conexão nenhuma vai salvá-lo. — Papai não vai ouvir. — Vai ouvir, se você pedir. Se você contar tudo.
Se mostrar os hematomas. Se mostrar estas fotos. — Holger se inclinou. — Svenja, você pode salvar a si mesma.
Pode salvar seus filhos. Pode salvar outras mulheres que ainda não foram destruídas. Ela olhou as fotos. O rosto sorridente de Frauke, os olhos cansados de Ute, Mareike, tão jovem e cheia de esperança.
— Preciso pensar — sussurrou. — Pense. Mas não pense demais. Ele já quase destruiu sua vida.
Não deixe que ele a destrua por completo. A cirurgia de Margarete foi um sucesso. Holger passou seis horas no corredor, enquanto os cirurgiões trabalhavam. Marit dormia encostada no ombro dele, acordando a cada meia hora para perguntar: “E agora?
”
Quando o médico finalmente saiu, cansado, mas sorrindo, Holger sentiu o anel de ferro em volta do peito afrouxar. — Corrida tudo bem. Colocamos três pontes. A recuperação vai levar tempo, mas o prognóstico é favorável.
Sua mãe é uma mulher forte. — Posso vê-la? — Em uma hora, quando ela acordar da anestesia. Marit pulava no lugar.
— A vovó vai viver! De verdade? — De verdade — disse Holger, e sorriu pela primeira vez em muitos dias. A ligação de Svenja veio na manhã seguinte.
— Aceito — disse sem preâmbulo. A voz firme, decidida. — Ontem ele me bateu de novo. Não aguento mais.
Não quero mais. O que preciso fazer? Holger explicou o plano. A reunião com o pai dela.
Os documentos preparados pelo advogado. O depoimento de Ute, que aceitara falar depois que Holger a encontrara e contara toda a verdade. Os pais de Frauke, dispostos a confirmar que a filha conhecera um homem chamado Torsten pouco antes de morrer. — Não será fácil — advertiu.
— Seu pai é um homem duro. Pode ficar furioso. Pode culpá-la. — Eu sei.
— Svenja fez uma pausa. — Mas não quero mais ter medo. Acordar todos os dias pensando: o que ele vai fazer hoje? Vai me bater?
Vai me humilhar? Não posso mais viver assim. — Então amanhã, às duas horas, estarei ao seu lado. A reunião com Wolfgang von Bernsdorf ocorreu no escritório dele.
Holger insistira em terreno neutro — assim o funcionário se sentiria mais seguro e disposto a ouvir. Von Bernsdorf era exatamente como Svenja o descrevera: um homem corpulento, olhar pesado, modos autoritários. Olhou a filha com aborrecimento mal disfarçado. — O que é tão importante?
Tenho reunião em uma hora. — Papai… — Svenja engoliu. — Preciso te contar algo sobre Torsten. — O que agora?
— ele franziu a testa. — Quer dinheiro de novo? — Não, papai. Ele me bate.
Silêncio. O rosto de von Bernsdorf petrificou. — O quê? Svenja tirou devagar o lenço que cobria o pescoço.
Havia hematomas — marcas de dedos, frescas, inconfundíveis. — Foi ele — sussurrou. — Ontem, porque cheguei dez minutos atrasada da loja. Von Bernsdorf ficou vermelho.
Holger viu os músculos do maxilar trabalharem. — Eu vou destruí-lo — rosnou o funcionário. — Espere — interveio Holger. — Livrar-se dele é pouco.
Ele merece mais. Von Bernsdorf voltou para ele o olhar pesado. — E quem é você? — Um homem cuja filha foi morta por Torsten Fahrenholz — o nome verdadeiro dele.
Não com as mãos. Pior. Ele a levou ao suicídio. E sua filha não é a primeira vítima dele.
Nem a segunda. Holger colocou a pasta sobre a mesa. — Aqui está o passado todo dele. Os crimes, os testemunhos das testemunhas.
— Ele olhou von Bernsdorf nos olhos. — O senhor é um homem influente. Pode fazer com que ele responda por tudo. Para que nunca mais destrua outra mulher.
Von Bernsdorf pegou a pasta, abriu-a e começou a ler. A cada página, o rosto escurecia mais. — Seu canalha — disse por fim. — Que besta.
— Papai… — Svenja se aproximou. — Perdoa-me. Você me avisou, e eu não escutei. Von Bernsdorf ergueu a mão, mas já não havia raiva na voz — apenas cansaço.
— A culpa é minha. Eu devia tê-lo investigado. Devia ter te protegido. — Ele fechou a pasta e olhou para Holger.
— O que o senhor sugere? A queda de Torsten Fahrenholz foi rápida e impiedosa. Von Bernsdorf cumpriu a palavra. Três dias depois da reunião, houve uma batida no escritório de Torsten.
Oficialmente, por suspeita de fraude financeira. Não oficialmente, von Bernsdorf usara todas as conexões para aniquilar o homem que ousara tocar na filha. Na empresa Fahrenkamp & Associados, encontraram muita coisa interessante: contabilidade dupla, contratos falsificados, vestígios de lavagem de dinheiro. Torsten, habituado a sentir-se intocável, descuidara-se por completo.
Holger observou os acontecimentos à distância. Não queria aparecer — não por si, mas por Marit. A menina não precisava saber os detalhes. Bastava que a justiça vencesse.
A prisão de Torsten foi mostrada no noticiário da noite. Holger assistiu enquanto o levavam algemado ao carro, o rosto distorcido. Jornalistas gritavam perguntas. Torsten calava, olhando em volta como um animal acuado.
— É ele? — perguntou Marit, espiando pela porta. Holger desligou a televisão. — Quem?
— O homem mau que machucou a mamãe. Ele olhou para a neta. Oito anos. Dor demais para aquela idade.
— Sim — disse afinal. — É ele. Mas agora ele não vai machucar mais ninguém. Marit assentiu, séria como uma adulta.
— Bom. E voltou a brincar. O julgamento ocorreu quatro meses depois. Torsten foi acusado de fraude, falsificação documental e evasão fiscal.
O promotor pediu oito anos. Torsten, que pagara o advogado com os últimos restos — von Bernsdorf fechara todas as torneiras —, tentou negociar uma pena suspensa. Mas o mais importante não aconteceu no tribunal. Ute veio ao julgamento.
Sentou na primeira fileira, olhando para o homem que destruíra a vida dela. Não chorava. Apenas olhava, e Torsten não suportou o olhar. Desviou o rosto.
Também vieram os pais de Frauke. Velhos, curvados pela dor que carregavam havia quinze anos. Finalmente souberam a verdade, e embora isso não trouxesse a filha de volta, algo mudou em seus rostos. Como se uma ferida que supurara por anos começasse a fechar.
Svenja testemunhou. Contou das surras, das humilhações, do medo. A voz tremia, mas ela não parou. Ao lado, o pai.
Pela primeira vez em muito tempo, ele olhava a filha não com irritação, mas com orgulho. Holger sentou na última fileira. Ao lado, Margarete — ainda fraca após a cirurgia, mas insistira em ir. — Preciso ver isso — dissera.
— Preciso vê-lo receber o que merece. Por Mareike. A sentença levou quarenta minutos para ser lida. Seis anos de prisão.
Mais as ações cíveis das vítimas, que o deixariam sem um centavo. Quando tiraram Torsten do tribunal, ele se virou. O olhar vagou pela sala e encontrou o de Holger. Primeiro o reconhecimento.
Depois a compreensão. E, por fim, uma fúria impotente. Holger sustentou o olhar com calma. Não sorriu.
Não desviou. Apenas o encarou até os agentes empurrarem o condenado porta afora. — Acabou — sussurrou Margarete, apertando a mão do filho. — Não — respondeu Holger.
— Está apenas começando. Depois do tribunal, foram ao cemitério. Holger não encontrou o túmulo de Mareike de imediato — uma colina modesta, num canto afastado, com uma simples cruz de madeira. Margarete nunca pudera comprar uma lápide.
— Vou encomendar uma — disse Holger. — Mármore branco, com a foto dela. Para que todos saibam como era bonita. Margarete assentiu em silêncio, lágrimas escorrendo pelo rosto.
Marit ficou entre eles, segurando a mão de cada um. Não chorava. Apenas olhava o túmulo da mãe de quem mal se lembrava. — Mamãe — sussurrou.
— Encontrei meu avô. Ele é legal. Ele não vai nos abandonar. Holger ajoelhou-se e tocou a terra fria.
— Perdoa-me — disse à filha que nunca conhecera. — Perdoa-me por não ter estado aqui. Por não ter te protegido. Por não ter te salvado.
Eu não sabia. Meu Deus, eu não sabia de nada. O vento movia os galhos nus das árvores. Um corvo grasnou ao longe.
O mundo seguia, indiferente ao sofrimento humano. — Mas eu te prometo — continuou Holger. — Vou cuidar de Marit. Ela não ficará sozinha.
Nunca mais ficará sozinha. Levantou-se, limpou a terra dos joelhos e olhou para a mãe e para a neta — as duas mulheres que lhe restavam no mundo. — Vamos para casa. Um ano se passou.
Margarete se recuperara da cirurgia. Continuava vivendo com o nome Margarete Lomann — restaurar os documentos antigos seria complicado e perigoso. Mas não morava mais num apartamento decadente no quinto andar. Morava na casa espaçosa de Holger, num quarto com vista para o jardim.
— Eu nunca pensei que viveria algo assim — dizia, olhando pela janela. — Uma casa. Uma família. Paz.
Marit foi para uma escola nova, fez amigos, aprendeu a sorrir de novo — não daquele jeito forçado. Às vezes ainda acordava com pesadelos, mas cada vez menos. — Vovô — perguntou um dia. — Você não vai mesmo embora?
— Não vou. Prometo. — Promete? — Prometo.
Ela o abraçou forte, bem forte. E Holger pensou que, por aquele momento, por aquela criança, valera a pena ter vivido todos aqueles anos vazios e solitários. A broche de miosótis estava agora num cofre sobre a penteadeira de Margarete. Ao lado, duas fotos: a jovem Margarete com o filho de dezessete anos, e Mareike sorrindo para a câmera.
— Um dia — disse Margarete, mostrando a broche a Marit — ela será sua. É uma herança de família. Sua trisavó a usava. Depois eu.
Depois sua mãe. Agora a guardo para você. — É linda. — Marit tocou o esmalte azul com cuidado.
— Parece um miosótis de verdade. — E é. Sabe o que significa? — O quê?
— Memória. Fidelidade. Amor eterno. — Margarete acariciou a cabeça da bisneta.
— Nós nos lembramos daqueles que amamos. Mesmo quando não estão mais aqui. Eles continuam vivos aqui. — Tocou o próprio peito.
— Em nossos corações. Marit pensou por um instante. — Então mamãe ainda está comigo. — Sempre, meu sol.
Sempre. À noite, Holger estava sentado no terraço, vendo o pôr do sol. Ao lado, a mãe, na cadeira de balanço, envolta num cobertor. Dentro de casa, ouvia-se Marit rindo ao assistir desenhos.
— Você está feliz? — perguntou Margarete. Holger pensou. Felicidade era uma palavra estranha.
Perdera trinta e cinco anos de vida. Perdera uma filha que nunca chegara a conhecer. Nos ombros, o peso da culpa e da dor que nunca desapareceria por completo. Mas tinha a mãe — viva, recuperando-se.
Tinha a neta ao lado — uma menina esperta, de olhos iguais aos dele, que finalmente aprendera a confiar. Tinha uma casa cheia de vozes e risos, não mais o vazio ecoando nas paredes. — Sim — disse por fim. — Sim, acho que estou.
Margarete sorriu e fechou os olhos. O sol afundou no horizonte, pintando o céu de dourado e púrpura. Um cão latiu ao longe. O vento trouxe o cheiro de folhas de outono e fumaça de fogueiras.
A vida seguia, com todas as suas perdas e descobertas, com a dor que nunca se vai por completo e a alegria que chega sem aviso, com o passado que não se pode mudar e o futuro que ainda se pode construir. Holger olhou o pôr do sol, pensando em Mareike, em Hannelore, em todos os que perdera e não pudera salvar. “Perdoem-me”, sussurrou em pensamento. Então levantou-se, entrou em casa e abraçou a neta.
Porque os vivos importam mais que os mortos. E o melhor que ele podia fazer por aqueles que já não estavam ali era cuidar dos que ficaram.


