A minha mãe nem pestanejou quando me disse para entregar o meu marido. Ela simplesmente cortou o bife, olhou-me nos olhos e disse: “Saskia, sê sensata. A Maraike está grávida. Ela precisa dele mais do que tu.

”
Congelei. O garfo de prata na minha mão parecia feito de chumbo. O ar na sala de jantar dos meus pais, que normalmente cheirava a alfazema cara, agora sabia a assado e a traição. Olhei à volta.
O meu pai fitava a taça de vinho, recusando-se a encontrar o meu olhar. A minha irmã Maraike brilhava. A mão dela pousava sobre uma ligeira curva na barriga que, até há dez segundos, eu não tinha notado. E Thorsten, meu marido há dez anos, segurava a outra mão dela.
“Como? ”, sussurrei. A minha voz saiu fraca, patética. Thorsten olhou para mim, sem culpa nos olhos.
Havia apenas desafio. “Saskia, por favor, não faças uma cena. Não queríamos que soubesses assim, mas não dava para esconder mais. A Maraike está no quarto mês.
Estamos apaixonados. ”
“Quatro meses. Estás a dormir com a minha irmã há quatro meses? Ou mais?
”
A Maraike interrompeu, com um sorriso cruel. “Isso é irrelevante, Saskia. O que importa é que agora somos uma família. Uma família a sério.
Algo que tu, obviamente, nunca lhe pudeste dar. ”
Aquilo foi um golpe direto. Anos de testes negativos, de noites em que chorei nos braços do Thorsten enquanto ele sussurrava que não importava, que nós bastávamos. Tudo mentira.
Olhei para a minha mãe, Gesela. Esperei que ela ficasse indignada. Que lhe desse um estalo e o expulsasse. Em vez disso, ela bebeu um gole de vinho e suspirou.
“Saskia, olha para os factos. A Maraike é mais nova, mais bonita e vai dar-lhe um filho. Tu já não és uma mulher nova. Sê realista.
”
O realismo. Era assim que ela chamava à traição. Thorsten levantou-se. “Eu vou buscar as minhas coisas.
Espero que encontres um sítio para ficar. ”
Eu não me mexi. Fiquei sentada. “Este é o meu nome na escritura, Thorsten.
O contrato de trabalho é meu. O carro na garagem é meu. ”
Ele riu-se. “Tudo o que é teu também é meu.
Somos casados. Metade é minha. ”
Foi aí que a culpa desapareceu. Foi substituída por uma clareza fria como o mar do Norte.
“Não”, disse eu. A minha voz já não tremia. “Tudo o que é teu não é teu. Eu é que tenho trabalhado noite e dia durante dez anos.
Tu ficaste no sofá a ver televisão. ”
“Saskia, tu não és capaz de fazer nada sozinha. Estás a mentir. ”
“Vamos ver.
”
Não digas mais nada, disseram-me. Mas eu não podia parar. “O casamento acabou. Vais sair desta casa hoje.
E se não saíres, chamo a polícia. ”
Ele riu-se, mas saiu. No dia seguinte, mudou as fechaduras. Achou que eu estava a brincar.
Apanhei um susto no primeiro dia em que fui buscar as minhas coisas. Mas isso foi só o começo. Enquanto ele e a Maraike festejavam a nova vida, eu passei três dias num bom hotel. Bebi vinho, comi queijo e pensei.
Pela primeira vez em dez anos, pensara em mim. Comecei por fazer uma lista de tudo o que era meu. A lista era longa. Uma semana depois, recebi a visita do meu tio Jochen.
“Estás bem, Saskia? ”, perguntou. “Não”, respondi. “Mas vou ficar.
”
Ele olhou para mim. “O que vais fazer? ”
“Vou mostrar-lhes que brincaram com a pessoa errada. ”
Ele riu-se.
“Boa miúda. ”
Comprei um gravador. Pequeno, discreto. No dia seguinte, fui a csa do Thorsten.
Toquei à campainha. A Maraike abriu. “O que queres? ”, perguntou.
“Quero falar com o Thorsten. Só para tratar dos papéis do divórcio. ”
“Ele não quer falar contigo. ”
“Então, fala com ele onde estiver.
Eu posso esperar. ”
Ela olhou para mim com desprezo. “Ele está a dormir. Está exausto, coitado.
Tem andado a trabalhar muito. ”
“Ah, claro. A trabalhar. ”
Foi nesse momento que eu soube que ela não sabia.
Ele não lhe tinha contado que tinha sido despedido. Eu tinha feito isso. Eu tinha falado com o patrão dele. Um telefonema rápido e a cama dele deixou de ser confortável.
Pouco depois, o Thorsten apareceu ao fundo das escadas. “Saskia, o que estás a fazer aqui? ”
“Uma conversa”, respondi. “Sobre nós.
”
Ela tentou mandar-me embora, mas ele acenou com a cabeça. Sentámo-nos na sala de jantar, onde ele me traíra. Ele estava nervoso, a mexer no copo de água. Eu coloquei o gravador no meu bolso.
“Eu quero o divórcio”, disse logo de seguida. “Claro. Eu também. ”
“Uma divisão justa.
Metade para cada um. ”
“Isso é justo”, respondeu. “Vamos fazer isso. ”
“Boa.
E como vamos dividir a casa? ”
“Vamos vendê-la. Dividimos o lucro. ”
“O lucro?
Tu queres dividir o lucro de uma casa que eu paguei? ”
“O que é meu também é teu, Saskia. Somos casados. ”
“Já não.
”
Ele riu-se. “Ainda és minha mulher. ” Foi então que eu disse uma frase que tinha preparado: “Não por muito tempo. ”
“O que queres dizer com isso?
”
“Quero dizer que não vou pagar as tuas contas para sempre. ”
“Que contas? ”
“As do casino, por exemplo. O teu carro novo.
As joias da Maraike. ”
Ele ficou pálido. “Não sei do que estás a falar. ”
“Sei, sim.
Vinte mil euros em dívidas de casino. Dinheiro que tiraste da nossa conta para pagar. ”
“Não paguei. Não tinha como.
”
“Então, vais ter de arranjar. Vou processar-te. ”
Ele tentou rir-se. Mas a risada saiu forçada.
“Estás a bluffar. ”
“Será que estou? ” Levantei-me. “Obrigada pelo tempo, Thorsten.
Vais ouvir falar do meu advogado. ”
Não lhe mostrei o gravador. Tinha o suficiente para assustá-lo. Quando saí, liguei ao meu advogado.
“Quero a nulidade do casamento. Quero a casa. Quero tudo. ”
Primeiro, mudou a fechadura da minha casa, a casa dele agora, e vendeu-a por baixo do preço de mercado.
Perdeu dinheiro, mas divertiu-se. Depois, processei-o por fraude. A acusação era clara: ele tinha escondido dívidas e bens durante o divórcio. Ele não tinha dinheiro para pagar um bom advogado.
O processo foi rápido. O juiz decidiu a favor, concedeu-me a casa e as contas conjuntas. Foi nesse momento que tudo começou a mudar para ele. No meio disso, a mãe dele ligou-me.
“Saskia, ele está a passar um mau bocado. Sei que ele te magoou, mas ele é um bom homem. Ele não merece isto. ” Não respondi.
Desliguei. A minha mãe também ligou. “Saskia, para com isto. Estás a fazer uma figura ridícula.
A Maraike está grávida. Ela precisa de estabilidade. ” Foi então que eu soube que ela não estava a falar comigo. Estava a falar com a filha que lhe obedecia sempre.
Não obedeci. O dia do julgamento chegou. Entrei no tribunal de salto alto e fato executivo. A Maraike estava lá, de barriga saliente, com um vestido caro que eu sabia que não tinham pago.
Os meus pais estavam ao lado dela, prontos para a apoiar, prontos para me julgar. O juiz leu a sentença. “A divisão de bens é a seguinte: a casa e as contas conjuntas pertencem à Sra. Saskia Weber.
O Sr. Thorsten Weber receberá o automóvel e os móveis que estão na posse dele. ”
A Maraike explodiu. “Isso não é justo!
Ela está a tentar matar a minha família! Vai deixar o meu bebé sem pai! ”
O juiz levantou a mão. “A próxima pessoa que interromper será detida por desacato.
” A Maraike calou-se, mas os olhos dela disparavam veneno. Thorsten olhou para mim. “Vais ficar com tudo? ”
“Vou.
Porque tudo é meu. ”
“Tu não és uma pessoa má, Saskia. Eu sei que no fundo és boa. ”
“O fundo já não existe.
Tu tiraste-me isso. ”
Saí do tribunal sem olhar para trás. Não senti satisfação. Senti alívio.
Uma porta tinha-se fechado, mas outra estava a abrir. Duas semanas depois, recebi um convite para um jantar de família. A minha mãe fazia anos. Fui.
Não deixei os meus demónios em casa. Fui para os encarar. A mesa estava posta, como sempre. A Maraike estava ao lado do Thorsten, fingindo que éramos uma família feliz.
A minha mãe estava na cabeceira, sorrindo como se nada tivesse acontecido. O meu pai, sentado, com um copo na mão. Não esperei pela primeira bebida. Levantei-me e bati no copo.
“Quero agradecer à minha mãe por me ter convidado. ”
A mesa ficou silenciosa. “Quero também anunciar que vendi a casa. Vendi os móveis, os quadros, os livros, tudo.
”
O meu pai engasgou-se com o vinho. A minha mãe ficou branca. O Thorsten olhou para mim com uma expressão que eu nunca tinha visto, medo. “Como te atreves?
”, sussurrou a minha mãe. “Atrevo-me. Esta casa sempre foi um palco. Tu sabes disso.
A Cecília sempre representou. Eu sempre fui o público. Mas a peça acabou. Não há mais bilhetes.
”
A minha mãe levantou-se, com o corpo a tremer. O pai agarrou-lhe o braço, segurando-a. “Como é que pudeste fazer isto à tua família? ”, perguntou, com a voz embargada.
“Família? Vocês nunca foram família para mim. Vocês são pessoas que me usaram para terem uma vida confortável. Nunca me perguntaram o que eu queria.
Nunca perguntaram se eu estava feliz. Só vos interessava o que eu podia dar. ”
A Maraike levantou-se. “Saskia, deixa de fingir que és a vítima.
Tu sempre tiveste tudo. O melhor quarto. As melhores escolas. Dinheiro para saíres à noite.
Eu nunca tive nada disso. ”
Ri-me. “Tiveste os meus pais. Tiveste a minha casa.
Tiveste o meu marido. O que é que eu tive? Tenho o ressentimento e a culpa. Obrigada.
”
“Tu és uma egoísta”, cuspiu a Maraike. “Eu sou uma sobrevivente. Devias experimentar. ”
Saí daquela casa e nunca mais olhei para trás.
A minha mãe tentou falar comigo várias vezes. Deixei tocar. Um dia, atendi o telefone. Era ela, num tom frágil, diferente do que eu conhecia, quase mansa.
“Saskia, filha, o teu pai foi operado ao coração. Ele não está bem. Acho que devias vir ter com ele. ”
A minha voz saiu fria, distante.
“O médico dele é bom? ”
“Sim, o médico é bom. ”
“Então, está em boas mãos. ” Desliguei.
Três dias depois, recebi um e-mail do meu pai. Curto, direto. “Saskia, sei que não tenho o direito de te pedir nada. Mas quero ver-te.
Uma última vez. Não vou estar cá para sempre. ”
Fui. Desta vez, deixei a armadura em casa.
Ele estava magro, pálido, ligado a uma máquina que fazia beep. A minha mãe estava ao lado da cama, com a mão crispada no lenço. O quarto cheirava a desinfetante e a doença. Quando me viu, tentou sorrir.
“Saskia. ”
“Pai. ”
“Obrigado por teres vindo. ” Fez uma pausa.
“Sei que não estiveste sempre presente. Sempre deixei a tua mãe tomar conta de tudo. Perdi a noção do que era certo e do que era errado. ”
A minha mãe fungou.
“Herbert, não comeces. ”
“Cala-te, Gesela”, respondeu ele, com uma força que já não parecia ser capaz. “Já estou cansado de representar. ” Olhou para mim.
“O meu único arrependimento, Saskia, é não ter impedido que tu passasses por tudo isto. Sozinha. ”
Os olhos arderam, mas não chorei. “Eu não estava sozinha.
Sempre estive comigo. ”
“És forte. Sempre foste. A tua mãe nunca viu isso.
Via o que queria ver. ”
A minha mãe afastou-se. “Vou buscar um café. ” Quando saiu, o meu pai segurou a minha mão.
“Ela sempre preferiu a Cecília. Eu não digo que está certo. Não digo que não está certo. Mas era o que era.
”
“Porquê, pai? ”, perguntei. “Porque é que ela sempre a escolheu? ”
“Porque tu eras um espelho.
A Cecilia era um quadro bonito que ela podia mostrar às visitas. Tu, eras uma pergunta que ela não queria responder. Ela nunca percebeu que tu eras a filha que qualquer pai desejaria. ”
Ele adormeceu pouco depois.
Nunca mais acordou. O funeral foi uma cerimónia pequena. A minha mãe não me dirigiu a palavra. A Maraike também não.
Mas eu não precisava. Estava em paz. Uma semana depois, recebi uma carta manuscrita da minha mãe. Papel caro, letra elegante, o estilo dela.
“Saskia, quando o teu pai morreu, percebi que não posso mudar o passado, mas posso pedir perdão. Não fui uma boa mãe para ti. Não fui justa. Sempre preferi a Cecília.
Sempre te tratei como se fosse um erro que eu tivesse de corrigir. Não mereces o que te fizemos. Tu mereces ser feliz. Espero que tenhas encontrado a tua paz.
”
Respondi com três palavras. “Também te perdôo. ”
Aprendi que perdoar não é voltar atrás. Perdoar é soltar.
É deixar de carregar uma mochila cheia de pedras que eles próprios tinham colocado às minhas costas. Deixei a cidade. Comprei uma casa pequena à beira-mar. Da janela, vejo o mar.
Sinto o cheiro a sal. Oiço as gaivotas. E pela primeira vez, sinto que estou verdadeiramente em casa. Um ano depois, recebi uma mensagem de um número desconhecido.
“Saskia, sou eu, a Maraike. Sei que não tenho o direito de te pedir nada, mas estou numa situação complicada. O Thorsten foi preso por tráfico de drogas. Ele estava a usar o carro que eu pensava ser dele, mas era de outra pessoa.
Perdi o emprego. Não tenho para onde ir. Tu és a única família que me resta. ”
Li a mensagem três vezes.
Depois, escrevi uma resposta curta. “Lamento, Maraike. Mas eu tenho uma vida nova agora. Preciso de estar comigo.
”
Pressionei enviar. E bloqueou o número. Foi a última vez que ouvi falar dela. Hoje, sentada neste café, com vista para o mar, penso naquela jantar em que tudo mudou.
Na casa que perdi. Nas pessoas que me humilharam. No amor que eu pensava ter, e que afinal era uma fantasia. Penso em tudo o que sacrifiquei para chegar até aqui.
E percebo que não perdi nada. Perdi a pressão de ser sempre a boa filha, a boa esposa, a boa irmã. Ganhei a liberdade de ser apenas Saskia. Levanto o copo e brindo sozinha.
Ao mar. À minha vida. À mulher que me tornei. Não é preciso ter razão para ser feliz.
Basta escolher-se.


