A ligação do Otávio veio num momento em que eu menos esperava. Eram quase três da manhã e o som da voz dele, fraca e trêmula, cortou o silêncio do meu quarto em Florianópolis. — Osvaldo… — ele sussurrou, a voz sumindo na estática.

— Tô no galinheiro. A chave de boca caiu da minha mão no chão de concreto. Fazia dez anos que eu não ouvia a voz do meu irmão. Dez anos desde que ele decidiu ficar em Uberaba, casar com uma mulher que a nossa família nunca aprovou, e viver aquela vida que ele insistia em defender.
Eu fui embora para o Sul, construí minha vida, aprendi a não sentir falta. Achei que a distância era o jeito natural das coisas serem. Mas naquela madrugada, com a voz dele sufocada do outro lado da linha, eu soube que estava errado. — Ele vai me matar, Osvaldo.
O genro dela vai me matar. Não perguntei quem era “ele”. Não perguntei o que tinha acontecido. Fui até o closet, peguei dois maços de dinheiro — cento e vinte mil reais que eu guardava escondido —, conferi a pistola, coloquei no coldre e meti tudo numa mala.
Peguei a estrada antes do sol nascer. Dirigi a noite inteira. Cheguei em Uberaba às três da tarde seguinte, no posto de gasolina na saída da cidade, do jeito que ele pediu. E ali estava Otávio, sentado no meio-fio perto das bombas de diesel, magro como eu nunca tinha visto, a pele colada nos ossos, tremendo mesmo com o calor de Minas, abraçado nos próprios joelhos como uma criança assustada.
Pulei do carro e abracei ele. Senti cada costela dele contra o meu peito. — Otávio, o que tão fazendo com você? Ele não respondeu.
Só balançou a cabeça, os olhos vidrados, e deixou cair migalhas de pão no colo. A camisa dele era fina demais para o vento, o tênis tinha buracos nos dedos. Me olhei no retrovisor depois de colocá-lo no carro e vi a diferença: eu, com minha roupa boa, meu carro importado, minha vida arrumada. E ele, destruído.
Reservei uma suíte num hotel em Poços de Caldas, na beira do lago, no meu nome. Coloquei ele no chuveiro, comprei comida de verdade — carne, arroz, feijão — e fiquei sentado na varanda esperando ele terminar de comer. Quando ele saiu do banho, com a roupa limpa que eu tinha comprado, sentou na cama e contou tudo. A esposa, a Cíntia, tinha transformado a vida dele num inferno silencioso nos últimos anos.
Mas o pior era o genro, Ronivon, um bruto que tinha se mudado para o sítio do meu irmão e tomado conta de tudo como se fosse dono. Batiam nele. Humilhavam. Faziam ele dormir num galinheiro, numa cama de campanha, há cinco anos.
— Eles tomaram tudo, Osvaldo. A terra, o carro, a dignidade. E ela ainda assina as coisas, manda em tudo… Naquela noite, enquanto ele dormia, peguei a navalha e fiz algo que não fazia há vinte anos: raspei a barba.
Cortei o cabelo. Arrumei a camisa. Fiquei parado na frente do espelho do banheiro do hotel até reconhecer o homem que eu era antes de virar apenas um irmão distante. No dia seguinte, fui ao shopping de Uberaba.
Entrei numa loja de ternos, apontei para um cinza-chumbo no manequim e tirei do bolso o cartão platinum. O vendedor me olhou de cima a baixo, vendo minha roupa simples, e hesitou antes de aceitar. Quando passei o cartão e o comprovante saiu aprovado, foi como se o mundo inteiro entendesse que o jogo tinha mudado. Comprei sapatos novos, um relógio de ouro, e fui à vinícula do shopping para comprar uma garrafa de vinho caro — não para beber, mas para completar o personagem.
Depois, fui ao sítio do meu irmão. A caminhonete zero do genro estava estacionada na frente, brilhando, ao lado do carro velho do Otávio. Os vizinhos estavam nos quintais. A dona Analice regava as flores e me viu chegar.
O sol bateu no terno cinza-chumbo e no relógio de ouro no meu pulso. Eu parecia um senador. Parecia um rei voltando do exílio. A dona Analice deixou a mangueira cair no chão.
Quando Ronivon apareceu na porta, achei que ele ia estranhar. Mas ele me olhou de cima a baixo e disse:
— O senhor é o quê, advogado? O que veio fazer aqui? — Você tem trinta dias.
Coloquei a mão no bolso do palitó e tirei a nota fiscal do terno, amassei e joguei no chão. — Ou você sai daqui por bem, ou eu cuido de você por mal. Ele riu. Era o tipo de risada que eu já tinha ouvido antes, a risada de quem pensa que o mundo é dele.
Mas quando me viu tirar o gravador do bolso interno do palitó — um pequeno aparelho que eu tinha escondido na roupa desde o primeiro dia — a risada parou. O julgamento foi rápido. O juiz ouviu tudo, analisou as provas, e condenou Ronivon no banco dos réus, o corpo pendurado frouxo no terno barato que ele tinha comprado para a audiência. Cíntia nem sequer apareceu.
O juiz não deu nada para ela no divórcio — nem pensão, nem parte da aposentadoria, nem parte do sítio. Vi ela depois, caminhando para a parada de ônibus, com um casaco desbotado e o rosto vinte anos mais velho do que na foto da festa de aniversário que eu tinha visto no celular do meu irmão. Ela trabalha como faxineira noturna num prédio comercial no centro agora. E tem um vídeo dela gritando com um segurança do shopping no dia em que tentou usar o cartão da mãe para comprar um vestido caro, achando que ainda tinha crédito ilimitado atrás do nome Bezerra, que viralizou nas redes.
Um mês depois, voltei ao sítio. Uma imobiliária tinha avaliado tudo. Sentei numa mesa no fundo do quintal, olhando para a terra que era do meu pai e do avô antes dele, e assinei os papéis. Pagaram um milhão e duzentos mil.
O cheque caiu na conta no dia seguinte. Otávio olhou para aquela casa onde tinha sofrido tanto, depois olhou para o caminhão enorme e brilhante que eu tinha comprado para ele — uma daquelas máquinas que ele sempre quis dirigir — e não disse nada. Só me abraçou. Um abraço daqueles que quebram costela.
O tipo de abraço que fala mais do que qualquer palavra. Voltei dirigindo para Florianópolis no dia seguinte. O peso no peito tinha sumido, trocado por uma paz profunda. Guardei o terno cinza-chumbo no fundo do armário, deixei a barba crescer de novo, no corte que sempre usei.
A vida voltou ao normal — ou pelo menos ao que eu entendia como normal. Hoje, estou sentado na minha varanda. A água tá calma, batendo devagarinho no cais. O celular vibra.
É uma mensagem do Otávio. Uma foto. Ele está parado na beira de um cânion, no meio-oeste do país, a imensidão avermelhada se estendendo atrás dele. O sol bate no rosto.
Ele está com aquele caminhão novinho, uma mochila nas costas, e um sorriso que eu nunca vi no rosto dele em todos os anos da nossa vida. É o maior sorriso que eu já vi no rosto dele. Eu guardei o celular, respirei fundo, e senti algo que não sentia há décadas. Não era apenas alívio.
Era a certeza de que, mesmo com toda a distância que colocamos entre nós, ainda havia algo que nos unia. Algo que nenhuma humilhação, nenhuma violência, nenhum genro cruel poderia apagar. Nós éramos irmãos.
E, finalmente, ele estava vivendo.


