“Marcos, você viu o relógio do seu pai? ” perguntei, com a caixinha azul aberta nas mãos. “Que relógio, pai? ” ele respondeu sem tirar os olhos do celular.

“O que fica na caixinha azul no armário. O que a sua mãe me deu no nosso aniversário de casamento. ”
Ele deu de ombros. “Não sei de nada.
”
Fiquei ali parado, olhando para o veludo vazio. Aquele relógio não era só um objeto. Teresa me entregou ele seis meses antes de partir, com aquela inscrição gravada: “Para Roberto, que nunca perdeu o tempo de me amar”. E agora tinha sumido.
Na semana seguinte, meu filho apareceu em casa com um sorriso largo e uma proposta estranha. “Pai, a gente precisa reformar a cozinha. Daniela quer muito e o orçamento estourou. Empresta o dinheiro pra gente?
”
Eu não queria pedir empréstimo no banco. Os juros estão absurdos. E aí, no meio da conversa, ele soltou:
“Aliás, você lembra daquele relógio que a mamãe te deu? Ainda tem ele?
”
Foi aí que tudo começou a se encaixar. No dia seguinte, fui até a relojoaria do centro antes mesmo de abrir. Esperei na calçada por vinte minutos, até que seu Antônio levantou a grade. Lá dentro, numa bandeja de veludo, estava o relógio.
“Uma mulher trouxe pra vender, disse que era do pai dela. Mas eu reconheci a inscrição. Você sabia que havia alguma coisa dentro? ”
Ele abriu a tampa com cuidado.
E lá, escondido entre o mecanismo e a tampa, havia um papel dobrado em quadradinhos minúsculos. A caligrafia era inconfundível: era da Teresa. “Roberto, se você está lendo isto, é porque algo aconteceu com o relógio. Confio que você vai encontrar.
Primeiro: a caderneta de poupança no Banco do Brasil, agência Centro. O número está no envelope marrom na gaveta do guarda-roupa, debaixo das minhas blusas de lã. Segundo: o sítio que meu pai deixou no interior, transferi para seu nome há dois anos. Terceiro: o apartamento na rua do Comércio.
Foi pra você. Para tudo, procure o Dr. Henrique, que foi seu aluno no primário. Ele sabe de tudo.
”
Fiquei ali, de pé no balcão, com o papel tremendo nas mãos. Teresa, que eu pensava ter cuidado de tudo sozinho, tinha planejado todas aquelas proteções em silêncio. Voltei pra casa com o relógio no pulso e a carta no bolso da camisa, em cima do coração. Quando cheguei, Marcos estava na sala, com uma pasta na mesa e um sorriso que não me convenceu.
“Pai, são só uns papéis simples. É pra gente regularizar umas coisas da família. O apartamento da mamãe na rua do Comércio, por exemplo. Já que você não usa, a gente achou melhor passar pro meu nome…”
“O apartamento está no meu nome”, respondi.
“E não está à venda. ”
“Mas pai, a gente precisa. Daniela quer muito e… como é que você sabia do apartamento? ”
Eu não respondi.
Só apontei para o relógio no meu pulso. “A sua mãe me contou. ”
Ele ficou branco. No dia seguinte, fui ao escritório do Dr.
Henrique. Passamos duas horas lá. Cada documento que Teresa tinha preparado, organizado, com post-its escritos à mão dela explicando o que era cada coisa. O sítio, a caderneta, o apartamento.
Tudo no meu nome, com as proteções certas. Eu passei a vida inteira achando que era eu quem segurava a família. Que o homem que saía cedo, voltava tarde, botava comida na mesa, era o pilar. Mas a verdade era outra: quem segurou tudo, quem planejou tudo, quem pensou no amanhã quando eu estava ocupado demais com o hoje, foi ela.
E eu nem percebi. Alguns dias depois, meu neto Pedro, de doze anos, veio me visitar num sábado. Ele entrou no quintal, me viu sentado com o relógio na mão, e falou sem rodeios:
“Vô, eu sei que o pai fez besteira com o relógio da vó. Eu vi ele escondendo.
Fiquei com vergonha. ”
Não fiquei com raiva do Pedro. Fiquei com raiva de mim, por ter demorado tanto pra enxergar. Naquela noite, minha filha sentou comigo no quintal, tomando café.
“Pai, você vai ficar bem? ”
Olhei para o relógio no pulso e para a carta dobrada que agora morava na caixinha azul. “Sua mãe sempre soube que eu era mais forte do que eu achava que era. ”
Ela me apertou a mão, e naquele gesto eu entendi que Teresa nunca tinha duvidado de mim.
Ela só queria que eu descobrisse quem eu era capaz de ser. Marcos recebeu uma carta formal do escritório do Dr. Henrique. Depois de dois meses de silêncio, ele apareceu em casa com os olhos vermelhos e me pediu desculpas.
Não foi perfeito, nem rápido, mas foi sincero. Estou aqui, com o relógio no pulso, a caixinha azul fechada na gaveta e a memória de Teresa em cada canto desse quintal. A reconstrução é lenta, tijolo por tijolo, e ainda tem muita coisa no ar entre nós. Mas toda vez que olho para o relógio, eu lembro do que ela escreveu na carta:
“Você nunca precisou provar nada pra mim, Roberto.
Só precisava lembrar de quem você é. ”
E é isso que eu estou aprendendo a fazer. Um dia de cada vez.


