Depois da morte do meu pai, quando eu tinha 20 anos, a minha mãe refugiou-se num silêncio ensurdecedor, escondendo-se na sua velha casa de campo, cheia de relíquias e poeira. As visitas tornaram-se raras, limitadas a aniversários e Natal, e quando ela aparecia, trazia sempre um ar de julgamento que me fazia sentir uma criança inadequada. “Dona Marta sabe coisas que ninguém mais sabe”, diziam os vizinhos. Eu sorria, mas por dentro, um alarme soava sempre, fraco mas insistente.

No oitavo aniversário da minha filha Alice, a minha mãe chegou com um presente que não era um presente qualquer. Era uma caixa antiga de madeira escura, com fechos de latão enferrujado. Ela entregou-ma com um olhar que eu nunca lhe tinha visto antes, uma chama antiga, uma urgência contida, quase um aviso, como se aquele presente esperasse para ser aberto há muito, muito tempo. A festa estava a correr bem.
As crianças riam, os adultos conversavam, a televisão murmurava ao fundo. Tudo se desvaneceu quando Alice abriu a caixa. O riso das outras crianças, o tilintar dos talheres, o zumbido da televisão, tudo desapareceu como se o mundo exterior tivesse perdido o volume. Alice pegou na boneca, sentindo o seu peso.
Era uma boneca de pano, feita à mão, cosida com linhas desbotadas. O interior da caixa era forrado com seda branca, agora amarelada pelo tempo. A boneca tinha os mesmos olhos amendoados, o mesmo nariz empinado, a mesma covinha na bochecha esquerda. Na têmpora direita, mesmo abaixo da linha do cabelo, a boneca tinha uma pequena pintinha, uma pinta que a Alice tinha desde que nasceu.
De repente, as pernas cederam. Alice caiu, com a boneca ainda apertada contra o peito. O mundo explodiu num tumulto de gritos e confusão. O Marco, o meu marido, correu até ela, as outras crianças rebentaram em lágrimas, e eu atirei-me de joelhos ao lado da minha filha, tocando-lhe no rosto, à procura do pulso.
Ela estava imóvel, como uma estátua de sal. Não havia expressão de preocupação ou surpresa no rosto dela. A minha mãe, por outro lado, permaneceu de pé, com uma calma inquietante. Eu estava sentada numa cadeira de plástico no corredor do hospital com as mãos ainda manchadas de creme de chocolate e lágrimas que não conseguia parar.
Depois de instalarem a Alice num quarto privado, confortada pelo Marco que lhe sussurrava palavras doces, saí para o estacionamento do hospital. A minha mãe estava lá, encostada ao carro dela. Pela primeira vez, vi-a envelhecida. Os cabelos grisalhos, as rugas profundas, os olhos cansados.
“Conta-me”, exigi, com a voz a tremer. “Quero que me digas o que raio se está a passar. ”
Os olhos dela, normalmente tão duros, pareciam estranhamente húmidos. Ela engoliu em seco e começou a falar.
“Eu estava grávida de ti, mas tu não eras a única filha que eu tive. Tive uma menina antes de ti. Chamava-se Elena. Tinha os teus olhos, a mesma covinha, a mesma pinta.
”
“Tu nunca me contaste”, sussurrei. “Porque era doloroso demais e porque… porque ela não morreu de causas naturais. Ela morreu por minha causa.
”
Dei um passo atrás, como se tivesse levado uma bofetada. “Eu era uma mãe ignorante, com medo do que não compreendia. Tive ataques de fúria, e numa noite, depois de um desses ataques, ela fugiu. Correu para o bosque atrás de casa, caiu no ribeiro.
Estava fria, sem respirar. Ninguém soube. Enterrei-a eu mesma, num lugar secreto. ”
“Eu estudei todos os textos, todas as escritas antigas, todos os rituais xamânicos.
A alma dela não descansava. Descobri que existe um ritual que pode trazer de volta uma alma perdida. Precisa de um corpo compatível, sangue da mesma linhagem. ”
“Tu fizeste isso à Alice?
“, perguntei, com a voz a falhar. “Alice é a reencarnação de Elena. Eu amei-a desde a primeira vez que a vi porque vi o reflexo da irmã nela, mas quando nasceu, percebi que o destino me tinha dado outra oportunidade. Costurei a boneca à mão, usando uma madeixa do cabelo da Elena, guardada todos estes anos, e a poeira dos ossos dela que recolhi da campa.
O corpo dela teve de lutar para assimilar uma alma que não era sua, mas sobreviveu. Agora as duas almas coexistem no corpo dela. ”
“E a Alice? A minha filha como está?
”
“Esteve sempre a lutar. Hoje, finalmente, a Elena vai falar comigo. Pela primeira vez, vou poder pedir-lhe desculpa. ”
Sem acrescentar mais nada, ela saiu da conversa e eu fiquei parada, com o coração aos saltos.
Duas almas, uma boneca de ossos, uma maldição de 40 anos. Entrei no quarto do hospital. A Alice estava sentada na cama, com o olhar fixo. O rosto era o mesmo, mas os olhos, os olhos já não eram de uma criança.
Quando ela falou, a voz era mais profunda, mais antiga. “Chiara. ”
“Tu não és a Alice”, disse, com a respiração presa. “Não.
Sou a Elena. E preciso de falar com a minha mãe. ”
“Ela está lá fora. Mas diz-me, por favor, onde está a minha filha?
”
“A Alice está aqui. Está adormecida, mas está aqui. Sempre esteve. ”
“O que queres tu?
“, perguntei, com as mãos a tremer. “Quero a minha libertação. E quero salvar a Alice, a irmã que nunca conheci. ”
Naquela noite, levámos a Elena de volta à casa da minha mãe, ao local onde tudo tinha começado.
A estrada para a casa da minha mãe era a mesma de sempre, mas parecia que a percorria pela primeira vez. A casa estava escura, coberta de silêncio e sombras. As duas mulheres, avó e neta, olharam-se. Depois, Alice, na voz da Elena, falou.
“A mãe. No bosque, enquanto morria, perdoei-te, mas tinha de te dizer. Tinha de te fazer entender. ”
A minha mãe ajoelhou-se, com lágrimas a escorrerem pelo rosto.
Estendeu as mãos para a boneca que a Elena ainda segurava. “Liberta-me, mãe”, disse a Elena, com a voz da Alice. “Completa o ritual. Termina o que começaste.
”
A minha mãe pegou na boneca e aproximou-a do peito. Fechou os olhos e começou a murmurar palavras que eu não entendia, palavras antigas, palavras de outro tempo. Senti calor, uma luz cegante, e depois um suspiro, como se algo se elevasse do corpo da minha filha e se dissolvesse no amanhecer. Quando abri os olhos, a Alice estava de joelhos, mas a boneca tinha desaparecido.
No chão, no lugar onde estava, havia apenas um pequeno círculo de cinza cinzenta. “A mãe”, sussurrou a Alice. A minha mãe levantou-se lentamente, com um sorriso no rosto. Era um sorriso que eu nunca tinha visto antes, um sorriso de paz.
“Adeus, minha filha”, murmurou ela. Depois, olhou para a Alice e estendeu-lhe a mão. “Porque hoje, minha criança, é o teu verdadeiro aniversário. ”
A Alice adormeceu quase imediatamente no banco de trás do carro, no caminho para casa.
Eu conduzi com a mente ainda em turbilhão. E enquanto o sol se elevava no céu, apagando as sombras da noite, perguntei-me se tudo aquilo tinha sido real, se as almas podiam mesmo viajar através do tempo, se o amor podia mesmo conquistar a morte. Pela primeira vez, olhei para a minha mãe e não vi um monstro. Ela nunca mais falou do passado, mas eu sabia.
Eu sabia que, naquela casa, entre a poeira e as relíquias, algo tinha mudado para sempre. E eu sabia que a Alice, a minha filha, era finalmente livre.


