A mensagem da minha mãe chegou numa noite normal, mas as palavras gelaram-me por dentro: “Elia, decidimos prosseguir sem ti. Por favor, não nos contactes.” Sem explicação, sem chance de defesa….

A mensagem da minha mãe chegou numa noite normal, mas as palavras gelaram-me por dentro: "Elia, decidimos prosseguir sem ti. Por favor, não nos contactes." Sem explicação, sem chance de defesa....

O som do telemóvel na mesa escura de madeira pareceu um zumbido irritante, algo insignificante que normalmente precederia uma trovoada. Mas, quando Elia olhou para a notificação, o mundo parou de girar. Era uma mensagem da mãe, curta e cortante como uma lâmina: “Elia, decidimos prosseguir sem ti. Por favor, não nos contactes.

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Sem mais explicações. Sem chance de defesa. Uma sentença emocional, fria como um aviso de despejo. Ele sempre soube que os pais nunca foram afetuosos, mas esta crueldade era nova.

Passou os últimos anos a tentar encaixar os seus sonhos de pintor num mundo de papelada e reuniões, tudo para os agradar. Agora, tudo parecia inútil. A mão tremia enquanto escrevia uma resposta, apagava, reescrevia. Finalmente enviou: “O que querem dizer com ‘prosseguir sem mim’?

” A mensagem ficou com um único visto. Ligou dez vezes, mas nada. Nenhuma chamada, nenhuma mensagem. Era como se nunca tivesse existido, como se tivesse sido adotado por um sistema que decidira, de repente, apagá-lo.

No início, a dor foi aguda, física, como se lhe tivessem arrancado um pedaço de carne viva. Depois, lentamente, transformou-se em raiva. E a raiva numa necessidade visceral de entender. Porque eles nunca tinham aceitado a sua relação com Sofia.

Quando ela o deixou, dois meses antes, a reação deles foi um “sabíamos que não ia dar certo”. Elia gritou pela primeira vez, dizendo que o problema era eles, com a sua incapacidade de amar sem condições. Desde então, silêncio. E agora isto.

No dia seguinte, com o coração na boca e as mãos ainda dormentes, vestiu o casaco e saiu. A casa dos pais ficava a vinte minutos, num bairro tranquilo, sempre impecável. Toca à campainha, o som clássico, ecoou lá dentro, mas ninguém respondeu. Toca mais vezes, depois começou a bater com a palma da mão.

Nada. Contornou a casa e reparou que a janela da cozinha estava entreaberta. Com um movimento desajeitado, afastou o mosquiteiro e deslizou para dentro. O ar cheirava a abandonado, a paz e a planos desfeitos.

A mesa ainda tinha pratos sujos, como se tivessem saído à pressa, mas os carros estavam na garagem e o jornal do dia anterior continuava sobre a mesa. Subiu as escadas, o coração a bater mais forte. Quando abriu a porta do seu quarto, ficou paralisado. O quarto estava vazio, um espaço estéril, como se nunca tivesse vivido ali.

A cama, sem lençóis. As paredes nuas. Nem um livro, nem uma moldura, nem um vestígio dele. Desceu até à cave, o lugar que sempre odiou, escuro e empoeirado, onde o pai guardava recordações e papéis.

A porta estava fechada, mas não trancada. Empurrou-a e acendeu a luz. Lá dentro, algo chamou a sua atenção: uma caixa de cartão, bem no centro da divisão, coberta de pó, mas com um embrulho novo em cima. Abriu a caixa e encontrou uma agenda, com capa de couro desgastada pelo tempo.

Na primeira página, a letra do pai, uma caligrafia firme e precisa, escrevia: “Projeto Elia, relatório 1. ”

Elia leu, incrédulo. O pai escrevia sobre “linhas genéticas”, “seleção artificial”, “um código que precisava de ser aperfeiçoado”. Lia cada página com as mãos a tremer.

“Cada sujeito deve ser monitorizado de perto. O erro emocional deve ser corrigido. Não pode haver desvios. ” Percebeu, com um sobressalto, que não era um filho, mas um projeto.

Uma experiência. Ao fundo, uma frase destacada riscava tudo: “Hoje, depois de anos de investigação, finalmente isolei o gene. Devemos reiniciar tudo. ”

Na última entrada, a letra do pai dizia: “Se algum deles acordar, se a sequência se manifestar, a reinicialização é inevitável.

Deve ser removido do código familiar e tornado uma entidade externa. Se tentar contactar-nos, o procedimento de reinicialização será acionado imediatamente. É a única forma de garantir a pureza da linha. ”

Elia afastou o diário, o coração aos saltos.

“Removido do código”? A mente recusava processar. Leu novamente. A data era do dia antes daquela mensagem cruel.

Pulou para o fim e encontrou referências a “Sofia”, o nome dela, ligado a um protocolo de distanciamento. Percebeu, com uma certeza fria, que Sofia nunca o tinha amado de verdade. Tudo fora orquestrado para o afastar, para o tornar vulnerável. Lá em cima, um barulho.

Passos. Duas sombras projetaram-se na porta da cave. Eram os pais, parados no topo das escadas, a vê-lo em silêncio. O pai, com o diário na mão, aproximou-se devagar.

“Devias ter ficado no quarto, Elia. Isto não te diz respeito. ” A mãe, por trás, mantinha uma seringa escondida. Elia recuou, colado à parede.

“O que sou eu? O que querem fazer comigo? ” O pai riu, um som seco. “Sempre foste teimoso.

Mas isto não é pessoal, é apenas o protocolo. ” A mãe avançou, os olhos vazios. “Não sabes o que és, Elia. Nunca soubeste.

Sempre foste uma anomalia. ”

Foi nesse momento que Elia percebeu: eles nunca o viram como humano. Era apenas um projeto falhado, uma peça que precisava de ser descartada. Enquanto os pais discutiam ao telefone, a chamar reforços, Elia viu uma alavanca de segurança atrás de uma prateleira.

Puxou-a com toda a força. Um alarme estrondoso encheu a casa. O pai gritou, avançando. “O que fizeste?

” Elia não respondeu, aproveitou a confusão e correu para a porta. Mas a mãe estava lá, com a seringa na mão, o líquido roxo a brilhar. “Para, Elia. Isto é o único que te pode salvar.

Ainda podemos corrigir-te. Podemos reiniciar o teu código. ”

Elia olhou para os olhos da mãe, pela primeira vez, e viu apenas frieza. “Nunca me amaram, pois não?

” A mãe hesitou, o suficiente para Elia saltar para a entrada. O alarme continuava a tocar, e no exterior ouviam-se sirenes. Elia abriu a porta e correu, sem olhar para trás. Deixou a casa, a família, e tudo o que pensava saber.

A sirene aproximava-se, mas Elia não sentia medo. Pela primeira vez, sentia-se vivo. Ele tinha fugido daquilo que o tinham criado. E, enquanto as luzes vermelhas e azuis enchiam a rua, Elia compreendeu uma coisa: não era uma falha.

Era o único que conseguiria realmente ser humano.