Eu disse parabéns à Bianca, forçando as palavras através de um sorriso que parecia vidro partido. Eu sou o Rodrigo, tenho 55 anos, e acabei de ver dez anos da minha vida serem entregues a uma garota de 23 anos que estava na Edutec Brasil há exatamente três meses. Bianca sorriu como se tivesse conquistado algo por mérito próprio. A sala de reuniões cheirava a café gourmet desperdiçado e sonhos despedaçados.

Todos aplaudiram com entusiasmo. Eu também aplaudi, com as palmas mais vazias da sala. O meu CEO, Marcelo Vieira, estava na cabeceira da mesa, com o peito estufado como um pavão exibindo as penas. — A Bianca vai revolucionar a nossa empresa como nova diretora de inovação pedagógica — disse.
O mesmo cargo para o qual eu vinha desenvolvendo projetos premiados desde 2013. O mesmo cargo que me garantiram quando o velho Cardoso finalizasse o último projeto. Mantive as mãos firmes sobre a mesa, o rosto numa máscara de serenidade profissional, mas um buraco negro abriu-se no meu peito, devorando qualquer lealdade corporativa que ainda restasse. Bianca era a filha do Marcelo.
Os corredores já ecoavam esse facto. Ninguém ousava questionar. Agora, ela daria ordens para mim. Eu via o contraste: a barriga de executivo de Marcelo, que almoçava em restaurantes estrelados, e um transplante capilar que tentava disfarçar a passagem do tempo.
Marcelo tinha chegado ao topo ao casar-se com a filha do fundador da empresa. Excelente. O escritório pulsava com o ritmo habitual do capitalismo digital. Construí parcerias com secretarias de educação do Rio de Janeiro até Goiânia.
Mas a Bianca não começou pelo início. Sentava-se nas minhas reuniões com parceiros educacionais, tomando notas enquanto eu explicava metodologias de aprendizagem ativa. Fazia perguntas que mostravam que não entendia os fundamentos do que fazíamos, mas dizia o suficiente para parecer envolvida. Um dia, fui à copa buscar café e ouvi vozes vindas do escritório do Marcelo.
A porta estava entreaberta e o corredor conduzia o som melhor do que as pessoas imaginavam. — … e a experiência do Rodrigo? — ouvi alguém perguntar. A risada do Marcelo não era maldosa, mas também não era gentil.
— O Rodrigo é o passado. A Bianca é o futuro. Voltei para a minha mesa, salvei o meu trabalho e saí do prédio. Caminhei sem destino, o peso de dez anos a esmagar-me.
Não sabia ainda o que faria, mas sabia que algo tinha de mudar. Nos dias seguintes, notei como Marcelo incluía a Bianca em reuniões estratégicas enquanto me mantinha focado nas operações do dia a dia. O meu nome deixou de aparecer nos e-mails importantes. Os meus projetos passaram a ser mencionados como “os projetos da equipa”.
A gota de água veio quando Bianca me chamou ao gabinete dela, agora o meu antigo gabinete, e me disse, com um sorriso doce:
— Rodrigo, quero que acompanhe a Bianca nas visitas às escolas. Aprenda com ela. — Você quer que eu aprenda com uma garota que está na empresa há três meses? — respondi, tentando manter a calma.
— Ela tem uma visão nova, Rodrigo. Você está velho. Aquelas palavras ecoaram na minha cabeça como um sino rachado. Saí do gabinete sem dizer mais nada.
Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei a pensar em todos os projetos que construí, nas parcerias que estabeleci, nas noites que passei a trabalhar enquanto a minha família dormia. Na semana seguinte, recebi um e-mail do Marcelo: “Reunião obrigatória para reavaliação de funções. ” Entrei na sala com o coração acelerado.
Marcelo estava sentado, com Bianca ao lado. — Rodrigo, temos de tomar uma decisão difícil — começou Marcelo. — Vamos reestruturar a equipa. Você vai passar a reportar diretamente à Bianca.
— Depois de dez anos a construir esta empresa, vocês querem que eu responda a uma miúda que não sabe a diferença entre metodologia ativa e ensino tradicional? — perguntei, com a voz a tremer. — As coisas mudaram, Rodrigo. Precisamos de sangue novo — respondeu Marcelo, sem olhar para mim.
— Tudo bem — disse eu, surpreendendo-me a mim mesmo. — Mas quero que saibam que o contrato que assinei há dez anos tem uma cláusula de confidencialidade dos meus projetos. Alguns desses projetos, a Bianca já os está a usar como se fossem dela. Silêncio.
Bianca empalideceu. Marcelo fitou-me, confuso. — Não estou a ameaçar — continuei. — Estou apenas a informar que, se o meu nome desaparecer destes projetos, desaparecerão também os dados dos parceiros.
E sem esses dados, vocês não têm contratos. Saí da sala com a cabeça erguida. Não porque Marcelo pedisse, mas porque os estudantes e professores que dependiam das nossas plataformas mereciam mais do que caos. Sentia-me mais leve do que me tinha sentido em meses.
Bianca ainda estava na secretária dela, estudando diagramas de fluxo de aprendizagem, como se contivessem os segredos do universo. Marcelo não tinha ideia do que acabava de pôr em movimento.


