O cheiro do café queimado no copo de plástico era a única coisa que me mantinha a náusea sob controlo. E não era o café o problema, era a fotografia. A fotografia que a minha irmã Sofia me tinha enviado por engano. Uma mensagem que veio parar a mim, o filho invisível, em vez do nosso círculo de amigos mais próximos.

O ecrã do meu telemóvel estava rachado no canto inferior esquerdo, uma lembrança da última vez que tinha discutido com o pai, quando lhe disse que talvez, só talvez, quisesse ser mais do que uma simples caixa multibanco humana. A fotografia era um instantâneo do grupo de WhatsApp da família chamado sonhos italianos. Estavam lá o pai, a nova namorada dele, a Lúcia, com o seu sorriso de mulher de cinquenta anos retocada, e a Sofia, que sorria como se tivesse ganho a lotaria. Por baixo, uma legenda, partida em 24 horas, finalmente as férias de sonho.
Mil obrigados a todos pelo apoio. O ‘todos’ foi um murro no peito, o ‘apoio’ um soco no estômago, porque eu, o Matteo, não estava nos ‘todos’. E o apoio, eu sabia-o com certeza absoluta, era a minha conta bancária. Suspirei, encostando a testa ao vidro frio da janela do autocarro.
Milão passava lá fora, cinzenta e chuvosa, um contraste perfeito com a imagem de sol, mar e vinhas que dançavam na minha mente. Uma viagem a Itália, à Toscana, o lugar que eu sempre sonhara visitar. Tinha passado anos a falar disso com o pai, a mostrar-lhe os guias, a dizer-lhe que um dia iríamos juntos, eu e ele, procurar os sabores da nossa infância, as raízes que ele tanto apregoava. E ele, com um aceno de cabeça, um ‘sim, sim, filho, um dia’, tinha-me sempre despachado.
Mas esse dia tinha chegado, e era para eles, para a nova família dele, aquela que ele tinha reconstruído depois de a mãe ter ido embora, levando consigo um pedaço de nós e deixando um vazio que eu tentei preencher com a procura de uma aprovação que nunca chegaria. Eu tinha 28 anos, um trabalho de programador que me esvaziava a alma mas pagava bem, e uma conta bancária que era para o pai uma reserva de liquidez a que recorrer em caso de emergência. A última emergência tinha sido o carro novo dele, a anterior a caução do apartamento da Lúcia, e agora estas férias de sonho. Desci do autocarro com as pernas pesadas.
O meu dia no escritório tinha sido uma névoa de código e erros. Sempre que o telemóvel vibrava, esperava que fosse ele. Uma mensagem, uma chamada, um ‘Matteo, desculpa, é tudo um mal-entendido’. Mas nada.
Um silêncio que gritava mais alto do que qualquer palavra. Decidi ligar. Quando atendeu, a voz dele soava descontraída, como se nada fosse. ‘Olá, filho, tudo bem?
Já viste a novidade? Partimos amanhã! ‘ Esforcei-me por manter a calma. ‘Sim, pai, vi a foto.
Mas… e eu? ‘ ‘Tu, o quê? ‘ ‘Não me disseste nada.
Não me convidaste. ‘ ‘Ah, aquilo… É uma viagem de casal, Matteo. Tu percebes, não percebes?
A Lúcia e eu precisamos de tempo a sós. E a Sofia vem para nos ajudar com as malas, não é? ‘ ‘A Sofia vai, mas eu não? ‘ ‘Não faças dramas, filho.
Não és uma criança. E depois, tu tens o teu trabalho, o teu futuro. Não podes andar sempre atrás de nós. ‘ ‘O meu futuro?
Eu paguei o teu carro novo, pai! Paguei a caução do apartamento da Lúcia! ‘ ‘Isso foi porque quiseste. Foste tu que insististe.
E agora fazes-me chantagem? ‘ ‘Chantagem? Estou só a dizer que também eu tinha sonhos, e tu sabias. A Toscana era o nosso sonho.
‘ ‘Era uma coisa de miúdos, Matteo. Cresce. A vida é assim. ‘ Desligou-me.
Fiquei ali parado, com o telemóvel na mão, a sentir o sangue a ferver. E foi aí que decidi. Enquanto eles estivessem em Itália, eu ia mudar a minha vida. Ia cortar a conta conjunta, cancelar o cartão de crédito extra e, pela primeira vez, pensar em mim.
Sem o pai à espera de cada centavo, sem a culpa que ele me fazia sentir. Guardei a fotografia no bolso, como um lembrete do que eu era para eles. Nas semanas seguintes, mudei de número, mudei de casa. Não era fugir, era sobreviver.
Quando o pai voltou de Itália, cheio de histórias e de fotos, não me encontrou no lugar de sempre. Ligou-me uma, duas, dez vezes. Deixei tocar até que os toques se tornaram mensagens e depois silêncio. Uma noite, apareceu à porta do meu escritório.
‘Matteo, o que se passa contigo? Estás a evitar-me. Os meus cartões foram cancelados. Tive de pedir dinheiro emprestado à Lúcia para pagar o jantar.
‘ ‘Pai, não sou o teu banco. Já não tenho de ser. ‘ Ele riu-se, mas era um riso vazio. ‘És meu filho.
Tens obrigação. ‘ ‘Não, pai. Tenho é a minha vida. E tu nunca estiveste nela como devias.
Nunca estiveste. És tu que tens de perceber isso. ‘ Ficámos os dois em silêncio. Vi o rosto dele a fechar-se, como sempre.
‘Vai-te embora, Matteo. Não sabes o que perdes. ‘ ‘Talvez não saiba. Mas sei o que ganho.
‘ Saí e nunca mais olhei para trás. Não sei se um dia me vai perdoar, nem eu sei se o farei. Mas quando corro, e o vento me bate na cara, sinto-me leve e vivo.
Como se finalmente tivesse encontrado o caminho de casa, o meu.


