Talita mexia o café sem olhar para a xícara, os olhos vagos na direção da sala de estar. A televisão estava no último volume, e a voz de Aras, a sogra, cortava o ar como uma lâmina. — Breno! Breno, vem aqui agora mesmo!

Talita estremeceu. Breno saía do banho, vestiu o roupão às pressas e correu para junto da mãe. Talita ficou na cozinha, mas a porta estava entreaberta e não escapou palavra. — Olha, olha isto.
Grupo Marcondes. São os pais da tua mulher. Estão sob investigação da Receita Federal. Fraude financeira.
O império deles está a desmoronar. Talita congelou, a caneca pairando a meio caminho da boca. Os negócios dos pais em apuros? Pousou a caneca e pegou no telemóvel.
Nenhuma chamada perdida da mãe, Ester, nem do pai, Otávio. — Mãe, é só uma notícia — a voz de Breno saiu hesitante. — Talvez seja exagero. — Exagero?
— A voz de Aras endureceu. — Sempre te disse que aquela rapariga só casou contigo pela tua posição na diretoria. E agora que os pais dela estão falidos, ela não passa de um peso morto nas tuas costas. Talita sentiu um nó no estômago.
Três anos de casamento, três anos a dobrar-se para agradar aquela mulher, a suportar comentários passivo-agressivos e críticas constantes. E, durante todo esse tempo, Aras via-a apenas como uma aproveitadora. — Mãe, não digas isso. A Talita é uma boa esposa.
— Boa esposa? Ela não te deu um neto! Fica em casa a fazer nada, a gastar o teu dinheiro. E agora a família dela está arruinada.
Põe-na fora. Agora mesmo. Não precisamos de uma parasita sem um tostão. Arruma as malas dela e atira-a para a rua.
Talita apertou os punhos. Não trabalhava há um ano porque Aras tinha insistido, dizendo que a esposa de um diretor regional não se devia escravizar naquele cubículo. Filhos? Ela e Breno tinham planeado, apenas sem pressa.
Esperou que Breno argumentasse, que a defendesse, que dissesse à mãe o quão absurdo aquilo era. Em vez disso, houve um silêncio pesado, e depois ouviu os passos dele. A porta da cozinha abriu-se. — Arruma as tuas coisas — murmurou ele, sem olhar para ela.
— O quê? Breno, estás a falar a sério? — A minha mãe tem razão. Os teus pais estão falidos.
Não tens emprego. Não precisamos disto. — Nós? Ou a tua mãe?
— A voz de Talita tremeu. — Nem sequer percebes o que estás a fazer? Breno calou-se e começou a atirar as roupas dela para dentro de uma mala, com as mãos a tremer. Aras permanecia na porta, com um sorriso triunfante.
— Finalmente o meu filho mostrou fibra. Despacha-te. Já tenho em mente uma rapariga adorável para o Breno, filha de uma amiga, uma família respeitável do Jockey Club. Talita olhou para o marido, que ainda não tinha levantado os olhos.
— Breno — disse baixo —, estás mesmo disposto a destruir a nossa família por causa de uma notícia de televisão não confirmada? — Disseram tudo na TV — resmungou ele, empurrando a necessaire para dentro de um saco. — E tu não tentaste saber a verdade? Não ligaste aos meus pais?
Não me perguntaste nada? Não respondeu. Vinte minutos depois, duas malas e alguns sacos estavam à porta. Talita ficou em silêncio entre a bagagem, sem acreditar no que era a sua vida.
A porta do apartamento bateu, e ouviu o clique da fechadura eletrónica. Com as mãos a tremer, marcou o número da mãe. — Talita, querida. — A voz de Ester estava alegre.
— Mãe, é verdade sobre a empresa? Problemas com a Receita? — O quê? — Ester pareceu genuinamente surpreendida.
— De que estás a falar? — Disseram no telejornal que vocês estão com problemas fiscais, que o negócio vai fechar. Esther soltou uma gargalhada calorosa. — Querida, isso é um absurdo total.
Sim, houve uma auditoria menor, completamente rotineira. Tudo está impecável. Na verdade, acabámos de fechar um contrato gigante com um fundo de investimento. Onde ouviste isso?
Talita fechou os olhos. Tudo mentira. Mãe, posso ir aí? Preciso de te contar uma coisa.
Uma hora depois, entrava na propriedade dos pais, num condomínio de luxo no interior de São Paulo. O pai abriu a porta, e o rosto tornou-se mortalmente sério ao ver as bochechas manchadas de lágrimas. — O que aconteceu? — Otávio puxou-a para um abraço, e Talita desmoronou.
Sobre uma chávena de chá, contou tudo: a notícia, a sogra, o marido que a expulsara sem hesitar. — Então pensaram que fomos à falência e livraram-se de ti num instante — disse Otávio, com os punhos cerrados. — Sem uma única pergunta. — Aras chamou-me parasita.
Disse que só casei com o Breno pelo dinheiro dele. — A audácia! — Ester levantou-se, a andar pela sala. — Ela passou o tempo todo a gabar-se no clube de que o filho se tinha casado com uma Marcondes.
Otávio olhou para a filha, pensativo. — Talita, sabes quem financia a filial regional onde o Breno é diretor? — Não. — Nós.
A nossa empresa de capital de risco é a principal investidora. Se retirarmos o investimento, a filial dele não dura um mês. — Então faz isso — disse Ester, com firmeza. — Deixa-os ver como é ficar sem nada.
Talita ficou em silêncio. Uma parte queria vingança, mas outra ainda se lembrava do que sentira por Breno. — Espera, mãe — pediu baixinho. — Vamos ver o que acontece a seguir.
No dia seguinte, Talita acordou com o toque insistente do interfone. Desceu e viu no ecrã duas figuras familiares: Breno e Aras, no portão principal. A sogra gesticulava rapidamente; o marido parecia pálido e frenético. — Não abras — disse o pai, com a mão no ombro dela.
— Vamos ver o que querem. A mãe entrou na sala, com uma chávena de café. — Estão lá há vinte minutos. A Aras perdeu a compostura, a gritar sobre uma emergência.
Os vizinhos estão a olhar. — Deixa-a gritar — disse Talita, friamente. — Ontem ela não teve vergonha de me pôr no corredor. Otávio assentiu.
— Mas acho que devíamos ouvi-los, nem que seja para perceberem com quem se meteram. Talita terminou o café, vestiu um vestido elegante, arranjou o cabelo, maquilhagem feita. Quando desceu, os pais esperavam. Otávio acenou ao segurança, que abriu os portões.
Segundos depois, Breno e Aras corriam pelo caminho de entrada. — Finalmente! — exclamou Aras, desgrenhada, maquilhagem borrada. — Estamos cá há meia hora!
— Quarenta minutos — corrigiu Otávio. — Estive a cronometrar. Aras emudeceu. Breno deu um passo à frente, estendendo as mãos.
— Talita, meu bem, isto é um terrível mal-entendido. Não queria isto, a mamã insistiu. — Cale a boca! — disparou Aras.
Talita olhou para a sogra, para o medo genuíno nos olhos dela. — Um mal-entendido? — perguntou Talita, a voz gelada. — Tu chamas a isto um mal-entendido?
Um erro? Pensaram que os meus pais estavam em apuros, e decidiram livrar-se de mim sem verificar se era verdade. Breno ficou ainda mais pálido. — Talita, sinto muito.
Estava errado. Cai nas palavras da minha mãe. Volta para casa. Vou ser melhor, prometo.
— Voltar para ti? Depois de fazeres as minhas malas e me pores fora, sem teres a decência de conversar comigo? Aras começou a falar rapidamente, a tentar forçar um sorriso. — Eu errei, perdi a cabeça, disse demais.
Perdoa uma velha senhora. — Eu nunca joguei ninguém para a rua com base em fofocas de televisão — disse Ester, gelada. — Nós vamos consertar isto! — gritou Breno.
— Vamos renovar os votos, dar uma festa enorme… — Cala a boca, seu idiota! — sibilou Aras. Voltou-se para Otávio com súplica nos olhos.
— Otávio, vamos conversar como adultos. Cometemos um erro. Mas não destruirias a carreira do meu filho por causa de uma briga doméstica. — Uma briga doméstica?
— repetiu Otávio, a voz a baixar. — Chamas a humilhação da minha filha a uma briga doméstica? — Bem, são marido e mulher. Coisas acontecem.
— Não — cortou Otávio. — Há coisas imperdoáveis. Aras empalideceu. — Não…
não vais retirar os investimentos, pois não? A filial vai à falência, o Breno perde tudo. — Pensaste nisso ontem, quando ofereceste a minha filha à porta? — perguntou Ester.
— Não sabíamos que vocês eram os investidores! Isso não é justo! Um silêncio pesado caiu sobre a varanda. Talita sentia nojo.
Finalmente, Otávio repetiu devagar:
— Não é justo? Então, se nós tivéssemos falido a sério, atirar a Talita para fora teria sido justo? Aras abriu a boca, sem conseguir formar palavra. Tinha-se encurralado.
— Exatamente — assentiu Otávio. — Não te arrependes do que fizeste. Só te arrependes das consequências. Breno segurou a cabeça entre as mãos.
— Senhor Marcondes, por favor. Eu amo a Talita. Fui fraco, mas vou consertar tudo. — Não — respondeu o pai, com um sorriso frio.
— Perdeste o direito de me chamar pelo primeiro nome no segundo em que empurraste a minha filha para fora de casa. — Talita, diz-lhes que me perdoas! Nós amamo-nos! Talita encarou-o longamente.
Aquele homem com quem vivera três anos, que fizera as malas dela sem hesitar, escondido atrás de palavras de amor. — Não, Breno. Nós não nos amamos. Talvez eu te tenha amado, mas ontem mataste esse sentimento.
Nem sequer me defendeste, nem sequer falaste comigo. Apenas obedeceste à tua mãe, como sempre. Brenco recuou como se tivesse levado um murro. — Eu vou ser melhor.
— Não vais, porque nem sequer entendes qual foi o teu erro. Não te arrependes de me teres traído. Arrependes-te de teres consequências. Aras fez uma última tentativa.
— Senhor Marcondes, vamos tratar disto como profissionais. Quanto quer? Diga o preço. Otávio olhou-a com tamanha fúria que ela recuou.
— Achas que a dignidade da minha filha tem preço? Achas que tudo se compra? — Bem, tudo tem um preço. — Não — respondeu ele, baixinho.
— Nem tudo. E vais aprender isto agora. Construí a minha empresa do zero durante 30 anos. O que mais valorizo não é o dinheiro, nem as conexões.
É a honra, a dignidade, a lealdade. A minha filha amou-te, Breno. E tu atiraste-a fora como lixo, sem verificares uma notícia de televisão. — Eu posso explicar…
— Explicar o quê? Como colocaste os pertences da minha filha em sacos? Ou como a tua mãe gritou que ela era uma parasita? Ester deu um passo à frente, o rosto geralmente gentil contorcido de raiva.
— Acreditaram num rumor e nem ligaram para esclarecer. Estavam à espera de um momento conveniente para te livrar da minha filha. Breno levantou a cabeça, a voz surpreendentemente afiada. — Mãe, cala a boca.
Todos se viraram. Ele tinha a cabeça baixa, os ombros a tremer. — Senhor Marcondes, sei que não tenho direito de pedir perdão. Agi de forma desprezível.
Fiquei com medo. A minha mãe disse que, se o negócio de vocês estivesse em apuros, isso afetaria a minha carreira. — E traíste a tua esposa para salvar o teu emprego — terminou Otávio. — Um emprego que só tens por minha causa.
Pediste-me para não interferir, para lhe dar uma chance. Recomendei-te para diretor, numa empresa onde a minha firma é a principal investidora. Pensei que a estabilidade te fizesse feliz com a minha filha. Mas não a fizeste feliz.
Talita chamou suavemente:
— Pai, não precisas. — Preciso, Talita — disse ele, pousando-lhe a mão no ombro. — Suportaste as críticas da sogra durante três anos. Vimos a luz a apagar-se nos teus olhos.
Esperámos que ele caísse em si, que te defendesse. Mas ontem provou exatamente quem é. Aras falou de novo, suplicante:
— Entendo que esteja zangado. Mas porquê destruir a carreira de um jovem?
— E atirar a minha filha para a rua não é extremo? — Estou disposto a qualquer coisa para consertar isto! — disse Breno. — Eu prometo…
— Breno, diz-me uma coisa — interrompeu Talita, a voz baixa. — Se ontem se tivesse confirmado que o negócio dos meus pais estava arruinado, estarias aqui agora? O silêncio pesou. — Eu…
eu não sei — murmurou ele. — Exatamente. Não sabes. Mas eu sei.
Não terias vindo. Só estás aqui porque estás apavorado com a tua carreira. — Talita, isso não é verdade, eu amo-te… — Amor são ações.
E as tuas ações mostraram que não me amas. Talvez nunca tenhas amado. Três anos, tentei ser uma boa esposa. Mas ontem percebi que isto não era um casamento, era uma conveniência para ti, e uma gaiola para mim.
Não vou voltar. Mesmo que o meu pai não retire os investimentos. Mereço alguém que me ame por mim, não pelas conexões dos meus pais. Aras empertigou-se:
— Isto é tudo culpa dos teus pais!
Fizeram-te lavagem cerebral! — Já basta! — interrompeu Otávio. — Culpas todos, menos ti.
Criaste um filho incapaz de tomar decisões. E agora transferes a culpa para nós. Otávio pegou no telemóvel e discou. — Alô, Senhor Valadares?
Otávio Marcondes. Quero discutir a retirada dos nossos investimentos da filial regional da Construtora Horizonte. Sim, inteiramente. Amanhã de manhã.
Excelente. Breno ficou ainda mais pálido. — Não, por favor! Há pessoas que trabalham lá…
— Por isso é que te dou uma semana — disse Otávio. — Uma semana para encontrares novos investidores. Se és o diretor excecional que dizes ser, vais conseguir. Se não, não merecias o cargo.
— Isto é cruel — sussurrou Aras. — Cruel é atirar uma pessoa para a rua à noite. Isso chama-se justiça. Breno e Aras viraram-se para sair.
No fim do caminho, Breno olhou para trás. — Talita, sinto muito. — Eu também sinto, Breno. Sinto muito pelos três anos desperdiçados.
A porta fechou-se com um baque surdo. Talita ficou no hall, a observar as figuras a afastarem-se. O telemóvel estava a bombar com mensagens. Breno enviava desculpas, apelos, acusações.
Aras exigia que ela parasse com o teatro. — Não respondas — aconselhou o pai. — Deixa-os cozinhar no próprio molho. Mais tarde, Isadora ligou.
— Talita, que pesadelo absoluto. Como estás? — Estou nos meus pais. Percebi agora que aquela casa nunca foi meu lar.
Da casa dele. Lembras-te de quando quis mudar os móveis do quarto e a Aras teve um surto, porque tudo estava assim desde que o pai do Breno era vivo? — Eu sempre te disse que ele era um filhinho da mamãe. — Disseste.
E eu não ouvi. Na manhã seguinte, Talita e a mãe foram ao advogado da família, Dr. Cavalcante. Sem pacto antenupcial, comunhão parcial de bens.
O apartamento tinha sido comprado antes do casamento, ficaria com Breno. A reforma da cozinha, paga com as economias de Talita, dava direito a compensação. O carro, bem comum, metade para cada um. A conta poupança do Breno: metade era dela.
— Se ele contestar, vai para tribunal. Se concordar, resolve-se no cartório. — Ele não vai contestar — disse Talita. — No segundo em que perceber que acabou, há de assinar tudo.
Ao sair, Talita teve uma ideia:
— Mãe, vamos ao shopping. Quero comprar roupa nova. Passaram horas em boutiques. Vestidos vibrantes que Aras teria chamado de vulgares, saltos que ela consideraria impraticáveis, batons em tons fortes.
Três anos a adaptar-se aos gostos de outra pessoa. Agora, uma hora de lembrar quem era. Naquela noite, o pai contou que Breno o tinha chamado. — Ele jurou que te ama, que vai consertar tudo.
— Não, pai. Ele mostrou quem é. Escolheu a mãe, escolheu o dinheiro, todas as vezes. Não é um erro.
É o caráter dele. O interfone tocou. A segurança apareceu, perplexo. — Senhor Marcondes, há uma mulher no portão.
Diz que é a Aras. Sozinha. Talita trocou um olhar com o pai. — Deixa entrar.
Aras entrou na sala, irreconhecível, por fora toda a arrogância. — Vim pedir desculpas e explicar. Agi com as melhores intenções para o meu filho. — As melhores intenções?
— Talita não se conteve. — Expulsaste-me de casa com base em fofocas de televisão. — Eu pensei que estava a protegê-lo. Se os teus pais tivessem falido, tu serias um fardo.
— Para ti, o casamento é uma transação — disse Otávio. — O que queres agora? Aras lambeu os lábios. — O Breno não sabe toda a verdade.
Eu sabia que a notícia era falsa. Talita sentiu o chão a fugir. — O quê? — Tenho uma amiga que trabalha naquela rede.
Ela avisou-me que a informação não estava verificada. Era baseada em boatos. Mas eu decidi usar a oportunidade. Queria que o Breno finalmente ficasse livre.
Ele podia encontrar alguém melhor, de uma família mais influente, que ajudasse na carreira dele. — A minha família era a única a ajudar na carreira dele! — exclamou Talita. — O meu pai financiava a empresa dele!
Aras apertou a bolsa. — Vim fazer um acordo. Eu admito publicamente a minha culpa, digo tudo ao Breno. Ela vai ficar furioso.
Mas vocês mantêm os investimentos. — E nós o quê ganhamos? — perguntou Otávio. — Eu desapareço da vida deles.
Do Breno e da Talita, se ela lhe der uma segunda chance. Talita riu, sem alegria. — Achas que isso muda alguma coisa? Não quero voltar para um homem que me traiu ao primeiro sinal de problema.
— Ele ama-te! Chorou a noite toda… — Tarde demais. Ele perdeu-me no momento em que pôs as minhas malas à porta.
Otávio olhou para a filha. — Talita, a decisão é tua. — Não, pai. Sem acordos.
Quanto ao Breno e a mim, acabou. Nunca perdoarei uma traição assim. Aras levantou-se devagar, o rosto contorcido de rancor. — Vão arrepender-se disto.
Todos vocês. — Isso é uma ameaça? — Otávio deu um passo à frente. — Porque, se for, posso garantir que o seu filho nunca mais arranja emprego nesta indústria.
Um telefonema é tudo o que preciso. Aras engoliu em seco, a bravura desfeita. — Eu… não quis dizer isso.
— Então saia. Quando a porta se fechou, Talita afundou numa poltrona. — Ela sabia o tempo todo — sussurrou. — Ela sabia e usou isso.
O telemóvel do pai vibrou. Ele atendeu, ouviu em silêncio e desligou, com o rosto feito pedra. — A nossa equipa rastreou a origem do vazamento. Um e-mail anónimo, enviado há quatro dias, a partir de um computador dentro da filial do Breno.
Talita prendeu a respiração. — Isto não pode ser coincidência — disse Ester. — Alguém preparou o terreno. Na manhã seguinte, chegaram os advogados corporativos e o chefe de segurança.
O Dr. Franco colocou uma lista na mesa. — O e-mail foi enviado das 19h38, a partir do terminal de visitantes na sala de reuniões B. As câmaras mostram exatamente quem entrou.
Abriu o laptop. A gravação mostrava um corredor mal iluminado. Apareceu Aras, a olhar em volta, furtiva a a porta da sala. Sete minutos depois, saiu, a ajustar a bolsa.
Logo atrás, Breno saiu de um escritório adjacente, falou com ela, e caminharam juntos. — Ela não tinha acesso autorizado — disse Franco. — O Breno pediu ao segurança para não registar a entrada da mãe. Otávio expirou.
— Então ele sabia que estava a fazer algo errado. No mínimo. — Temos motivos para processar a Aras por difamação — disse Dr. Cavalcante — e para iniciar uma ação disciplinar contra o Breno.
Até onde querem ir? Todos olharam para Talita. — Façam o que é justo — disse ela, com firmeza. — Sem vingança mesquinha.
Deixem que cada um responda pelo que fez. Ao meio-dia, Breno foi convocado à sede. Entrou na sala, viu Talita, e o rosto desmoronou. — Senhor Vasconcelos — começou Dr.
Cavalcante, deslizando as fotografias —, o senhor burlou os protocolos de segurança para infiltrar a sua mãe no escritório. Daquele terminal, enviaram um e-mail com informações fraudulentas. Pode explicar? Breno olhou para as fotos, tentou parecer confuso.
— Eu não sabia que ela enviou um e-mail — sussurrou. — Mas tu trouxeste-a para lá e disseste explicitamente à segurança para não a registar — afirmou Otávio. — A mamãe disse que precisava de imprimir um documento. Não pensei…
— Alguma vez pensas? — perguntou Talita, baixinho. Breno estremeceu. — Talita, juro que não sabia o que ela estava a fazer.
Só me disse que queria investigar um boato sobre os teus pais, que eu precisava de estar preparado. — Preparado para quê? Para me pôr na rua. Fizeste uma escolha.
Escolheste a tua mãe, a tua carreira, o teu medo. Mas nunca me escolheste a mim. — Eu sou culpado. Eu entendo.
— Não — disse Otávio. — Tudo o que entendes é que foste apanhado. — O que acontece agora? — respirou Breno.
— A tua mãe vai receber uma exigência legal por difamação — respondeu o advogado. — Quanto a ti, estás suspenso do cargo de diretor regional, pendente de auditoria interna. Breno empalideceu. — Isto é o fim da minha carreira.
— Não — Talita manteve o olhar firme. — O fim da tua carreira foi infiltrar a tua mãe no escritório, escondê-la, e depois atirar a tua esposa para a rua com base numa mentira que ela arquitetou. — Ela já confessou ontem — acrescentou Talita. — Ofereceu-se para assumir a culpa, em troca da tua carreira.
O rosto de Breno encheu-se de horror genuíno. A compreensão amanheceu: a mãe não o estava a proteger. Estava a negociá-lo, a usar o casamento, o emprego e o futuro dele como fichas de pôquer. — Não…
ela não faria isso. — Ela fez — disse Talita. Depois disso, Breno não discutiu. Assinou o aviso de suspensão e saiu, parecendo ter envelhecido dez anos numa hora.
Naquela noite, a rede financeira emitiu uma retratação. Aras ligou incessantemente; Breno não atendeu. Finalmente, ela foi ao apartamento dele. Ele abriu a porta, o apartamento vazio, estranho, silencioso.
— O que fizeste? — gritou ela. — Devias ter negado tudo! — Enviaste o e-mail.
— Eu estava a proteger-te! — Enviaste o e-mail — repetiu ele, sem emoção. Aras desviou o olhar. — Isso interessa?
O ponto é que aquela família… — Mãe — cortou ele —, destruíste o meu casamento. E eu deixei. Vai para casa.
Não quero ver-te agora. — Estás a expulsar a tua própria mãe! — Eu expulsei a minha esposa. Hoje percebi de quem precisava de proteger a minha família.
Breno fechou a porta. Não voltou a abri-la quando a mãe começou a tocar à campainha. A auditoria interna levou duas semanas. Breno não tinha orquestrado o vazamento, mas tinha violado os protocolos, escondido uma visitante não autorizada e falhado em relatar atividades suspeitas.
Foi oficialmente despedido. Aras, depois de uma consulta com um advogado que a convenceu de que uma batalha legal pública a arruinaria, assinou um pedido de desculpas legalmente vinculativo, um acordo de confidencialidade, e recebeu ordens de pagar a restituição das despesas legais do grupo. Uma soma dolorosa, exatamente suficiente para ser lembrada do custo de destruir a vida alheia por conveniência. Breno tentou falar com Talita mais algumas vezes.
Flores, mensagens. Deixou uma carta no portão. Talita hesitou muito antes de a abrir. “Talita, não te peço para voltares.
Perdi esse direito. Escrevo por uma razão: sinto muito. Não por ter sido apanhado, mas por ter sido um marido fraco durante três anos. Porque deixei a minha mãe dizer coisas terríveis.
Porque não te perguntei a verdade. Porque fiz as tuas malas. Não sei se algum dia serei um homem diferente, mas agora sei exatamente o que fui. ”
Talita leu duas vezes.
Sem lágrimas, apenas uma tristeza silenciosa pela versão de si mesma que esperara três anos que ele a escolhesse. Guardou a carta na gaveta. Não respondeu. Um mês depois, encontraram-se no escritório do Dr.
Cavalcante. Breno parecia diferente: sem relógio de luxo, sem postura arrogante, sem a mãe por perto. Veio sozinho, assinou primeiro. Talita assinou a seguir, firme.
— Talita — disse ele baixinho, quando o advogado saiu —, se eu não te tivesse expulsado naquele dia, se tivesse apenas conversado contigo, teríamos tido uma chance? Talita pensou um momento. — Talvez, se me tivesses escolhido sozinho, uma única vez, antes de perderes tudo. Ele assentiu.
— A resposta dói, mas é honesta. Espero que tenhas uma vida boa. Saíram do escritório separados. Seis meses passaram.
Talita voltou a trabalhar, não para provar nada, mas porque quis. O pai ofereceu-lhe uma vaga na nova divisão da empresa. — Não como minha filha — esclareceu ele —, mas como alguém em quem confio. Começas como gestora de projeto júnior.
Vai ser trabalho duro. Talita sorriu. — Depois de viver com a Aras, nada me assusta. Alugou um apartamento de um quarto nos Jardins, em São Paulo.
Os pais insistiram que ficasse na mansão, mas Talita recusou. Na primeira noite, sentou-se no chão, comeu pizza direto da caixa e, pela primeira vez em muito tempo, riu alto sem razão. Breno arranjou emprego como representante de vendas numa empresa de materiais de construção. Horas exaustivas, muito menos prestígio.
Um dia, a mãe tentou voltar para a vida dele, mas ele respondeu-lhe categoricamente:
— Mãe, só falaremos se parares de falar da Talita. — Ela arruinou a tua vida! — Não. Eu arruinei o meu casamento.
Tu apenas me entregaste o martelo. Talita cruzou com ele uma vez, por acaso, num showroom. Ele falava com um cliente, explicava especificações técnicas, parecia cansado, mais magro, sem arrogância, mas com confiança. Não se aproximou; ofereceu um aceno educado e distante.
Talita retribuiu e seguiu caminho. Um ano depois, Talita estava na varanda do apartamento com uma caneca de café. O telemóvel vibrou. Mensagem da mãe: Jantar de domingo.
O pai promete não falar de trabalho. Talita sorriu. Uma segunda notificação: número desconhecido. “Talita, é a Aras.
Pensei muito nisto. Não peço perdão, porque não me deves nada. Só quero dizer que estava errada sobre tudo. ”
Talita olhou para o ecrã longamente.
No passado, aquela mensagem teria feito o coração disparar. Agora, deslizou a notificação para o lado e bloqueou o número. Não por crueldade, mas porque algumas desculpas chegam tarde demais para mudar qualquer coisa. Tomou um gole de café e olhou para o horizonte de São Paulo.
Era uma mulher que uma vez ficara a olhar para uma porta trancada, apenas para perceber que nunca quisera que a deixassem entrar de novo. E isso era a verdadeira justiça.


