Acordei de manhã e, pela primeira vez em semanas, senti-me leve. Depois de o deixar, respirava-se melhor em minha casa, sem discussões, sem aquele peso constante. Estava a fazer os meus pelmeni…

Acordei de manhã e, pela primeira vez em semanas, senti-me leve. Depois de o deixar, respirava-se melhor em minha casa, sem discussões, sem aquele peso constante. Estava a fazer os meus pelmeni...

Eu finalmente percebi o que tinha de fazer. Decidi afastar-me dele, e acreditem, foi a melhor decisão que tomei. Acordo de manhã e, pela primeira vez em muito tempo, sinto-me bem. Não há discussões, não há stresses, não há aquela sensação constante de andar a pisar em ovos.

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É simplesmente um alívio enorme. Hoje até acordei com vontade de cozinhar. E quando comecei a amassar a carne para fazer os meus famosos pelmeni de peixe, percebi o quanto sentia falta destes pequenos prazeres. “Olha, sabes que ontem fiz arroz de polvo sem vocês?

“, disse eu para o ecrã, a brincar, lembrando-me da minha plateia. “Até pensei em fazer uma transmissão, mas estava tão esgotada que achava que nem conseguia dizer olhe. ”

A verdade é que tinha passado o dia anterior a sentir-me completamente vazia. Mas o arroz ficou delicioso, isso ficou.

“Então, não se pode fazer arroz de polvo sem nós? “, perguntaram eles, a rir. “Querem ver? Mas aviso que a sertã é grande.

Havia ali qualquer coisa de libertador naquilo. Eu estava a cozinhar só para mim, com calma, sem pressas, sem ninguém a chatear. Eram uns pelmeni que não sabia bem se gostava ou não, mas apeteceu-me comê-los à minha maneira, sem dar satisfações a ninguém. Depois, lembrei-me do arroz de polvo.

Aquela sertã enorme, cheia, e eu a pensar que tinha feito demasiado. Mas no segundo dia, já estava a comer com vontade. “É arroz de polvo com tomate? “, perguntaram.

“Não, eu não cozinho com tomate. O tomate junta-se ao arroz já feito. ”

E enquanto a carne descansava, tapada, fui explicando a minha receita, que não é a receita de mais ninguém. “Olhem, eu sei que há quem faça arroz de polvo de uma forma ou de outra.

Eu faço assim: doure a carne, deixo-a criar casquinha, depois junto muita cebola às meias-luas e deixo-a ficar translúcida. A seguir, as cenouras em palitos, também muitas. Deixo tudo a refogar. Depois, o tempero próprio para arroz de polvo e deixo apurar.

Junto água, uma cabeça de alho, deixo ferver uns dez ou quinze minutos e só depois entra o arroz. Fica ali a cozer devagarinho. ”

“E temperas a carne? ”

“Sim, um bocadinho de sal, porque o tempero do arroz já tem.

No fim, está pronto. ”

Claro que há quem faça de outra maneira. Há quem coza o arroz à parte e só depois o misture. Eu já ouvi falar nisso.

Uma vez alguém me perguntou: “Então, tu fazes arroz de polvo ou arroz com carne? ” E eu fiquei sem perceber qual era a diferença. A verdade é que a minha maneira de comer também não escapa às críticas. Sou esquisita, eu sei.

Gosto de temperar o arroz de polvo quando é feito em casa, na sertã. Junto um pouco de ketchup e cubro com muita salsa, endro e cebolinha. Misturo tudo e, para mim, fica perfeito. Dizem que sou uma herege.

Que o ketchup estraga o sabor do arroz. “Vocês têm razão, estraga mesmo”, respondo eu. “Mas é exatamente por isso que eu gosto. Adiciono o que eu gosto.

E não é que eu seja fã de ervas. Normalmente, nem ligo muito a elas. Mas no arroz de polvo, quero que esteja tão carregado que não sei se estou a comer arroz com ervas ou ervas com arroz. Gosto de o fazer bem picante também.

Uma vez, fui ao mercado e o rapaz da banca de especiarias, quando lhe disse que era para arroz de polvo, pôs-me uma colher de cada coisa que tinha. Ficou espetacular. Rico, cheio de sabor. Agora compro os pacotinhos de tempero pronto, mas não têm comparação.

“Eu também costumava comprar especiarias a granel no mercado”, disse alguém. “Até que um dia comecei a encontrar areia. ”

Pois. Eu, se calhasse de me ranger qualquer coisa entre os dentes, sempre pensava que era das especiarias.

Lá no mercado, nem as cobriam. Podia entrar pó, terra, o que fosse. Enquanto falávamos, fui buscar o saco para tapar a carne e não a deixar secar. Estava tudo a correr bem.

E depois, uma surpresa. A minha amiga entrou na conversa e disse: “Sabes que ganhaste 75 pontos no sorteio da Ozon, na cenoura? ”

Eu nem queria acreditar. Sempre pensei que era impossível ganhar fosse o que fosse, nem que fossem pontos.

“Foi agora? Deixa-me ver”, disse eu, com o coração a bater mais depressa. Entrei na aplicação, e lá estavam eles. Os 75 pontos.

“Olha, afinal é mesmo verdade. Quem sabe se um dia não ganho os 100. 000 pontos? Ou mesmo 50.

000 ou 25. 000. Isso dava para pagar uma compra inteira. ”

Eu não sonho com jackpots nem prémios monetários enormes.

Mas ganhar pontos para pagar as compras? Isso, sim, era ouro. A vida sem ele estava a ficar bem mais interessante.