Acordei antes do sol, como sempre fiz, mesmo sem motivo. O café forte passava, o pano de prato bordado ainda pendurado, e eu senti o cheiro de outros tempos. Casei com a Maria, criei oito filhos,…

Acordei antes do sol, como sempre fiz, mesmo sem motivo. O café forte passava, o pano de prato bordado ainda pendurado, e eu senti o cheiro de outros tempos. Casei com a Maria, criei oito filhos,...

Foi numa manhã de agosto, céu limpo e vento seco, que aquele homem de mais de oitenta anos acordou antes do sol, como sempre fizera a vida inteira, mesmo sem ter mais motivo para isso. O corpo levantava cedo por costume, mas o coração já não tinha a mesma pressa. Ele, que a gente chamava de seu Tonho, sentou na beirada da cama, ouviu o silêncio da casa e foi até a cozinha esquentar água para o café. O pano de prato bordado com o nome dele ainda pendurado no prego, desbotado, mas ali, como uma assinatura de quem já não voltava.

Thumbnail

Ele passou a mão no tecido, sentiu o cheiro de outros tempos e preparou o café forte, do jeito que sempre gostou. A casa era pequena, de chão batido e parede de pau a pique, e ali ele tinha criado oito filhos com a Maria, sua mulher. Oito bocas para alimentar, oito filhos para criar, e ela, a Maria, nunca reclamava de nada. Acordava antes dele, prendia o cabelo com um lenço azul desbotado e já batia a mão na massa enquanto os meninos iam acordando com fome.

A vida era dura, a roça não perdoava, mas eles tinham um ao outro, e isso, naquele tempo, parecia bastar. Ele trabalhava de sol a sol plantando milho, feijão, mandioca; e ela dava conta da casa, das roupas, das panelas, das crianças. Quando a chuva faltava, era o suor que molhava a terra. Quando faltava dinheiro, faltava tudo, menos presença.

À noite, depois que os meninos finalmente dormiam, eles sentavam no degrau da porta, ela encostava a cabeça no ombro dele, e ali, naquele silêncio, ele entendia o que era paz. Nunca falaram “eu te amo”, nem sabiam direito dizer essas coisas, mas ela deixava o prato dele com um pouco mais de carne, e ele trazia um maço de couve da roça só porque sabia que ela gostava. Só que a vida é feita de curvas que a gente não espera. Uma delas chegou num mês de março, começou com uma tosse, uma febre, e a Maria foi ficando mais quieta, mais mole.

Ele fez chá de tudo quanto era folha, rezou, levou no posto, mas cada dia ela se apagava mais. Numa tarde, ela olhou para ele de um jeito que ele nunca mais esqueceu, apertou a mão dele sem dizer palavra, e se foi, sem alarde, sem grito, sem tempo. Ficou viúvo com oito filhos no braço, e dali em diante virou dois, pai e mãe. Aprendeu a trançar cabelo, a lavar roupa com sabão de soda, a fazer comida, a cuidar de febre e de xixi na cama e de choro no meio da noite.

A roça não esperava a dor dele; a enxada não entendia luto. Ele chorava escondido no meio do milharal, depois enxugava o rosto e voltava para casa com um sorriso forçado, só para não deixar os meninos sentirem ainda mais. Os filhos foram crescendo, cada um do seu jeito. Um ficou rebelde, outro calado, outro parou de comer.

Ele tentava ser tudo, mas às vezes não dava conta. Tinha noite que botava todo mundo para dormir e ficava sentado na beirada da cama pensando se a Maria estaria vendo aquilo tudo, se ela achava que ele estava dando conta. Teve vez que não tinha sabão para lavar a roupa, teve vez que o arroz era só água, teve vez que ele ficou doente e mesmo assim foi para a roça, porque se não trabalhasse ninguém comia. E mesmo assim, com o tempo, os meninos deixaram de ser meninos.

Foram embora um a um, uns para a cidade, outros para outras famílias, e ele foi ficando só. A casa parecia outra depois que eles partiram, não era só a ausência dela, era o jeito que tudo ficou meio fora do lugar. O silêncio que ficou não era de paz, era de falta. No começo ainda havia esperança, uma visita aqui, uma ligação ali, um bilhete, uma encomenda.

E ele se agarrava em cada migalha como quem segura uma corda fina no meio de um rio bravo. Mas com o tempo elas pararam de vir. As visitas viraram promessas, as promessas viraram desculpas, e as desculpas viraram silêncio. Ele aprendeu que o esquecimento tem cheiro, cheiro de casa fechada, de comida requentada três vezes; tem gosto de café frio e pão duro; tem som, e esse som não se escuta com o ouvido, mas com o peito, é o som do portão que não abre, do telefone que não toca.

Toda tarde ele olhava para a estrada como quem espera alguém voltar de um lugar que já nem sabe se existe. A esperança não morre, ela se esconde, e às vezes se esconde tão bem que a gente confunde com costume. Ele acabou se acostumando a não esperar, mas toda vez que escutava um carro, o coração batia mais rápido, mesmo sabendo que era vizinho ou entregador. O corpo foi pesando, a vista embaçou, a coluna começou a doer.

Ele passou a se apoiar nas paredes, depois numa bengala que o vizinho emprestou. A comida ficou mais simples, arroz, feijão e ovo; quando tinha carne era festa. Ele passou a viver de lembrança, conversava consigo mesmo, às vezes em voz alta, contava histórias que ninguém pedia. Escrevia num caderno velho os nomes dos filhos, as datas de nascimento, as lembranças da Maria.

Teve uma noite que o telefone tocou e era engano, mas só de ouvir a voz de alguém por segundos ficou com o aparelho no ouvido ouvindo o sinal de desligado. Recebeu um cartão de Natal da Laurinha, atrasado, e leu umas vinte vezes. Recebeu uma fotografia do Rafael com os filhos, netos que ele nunca viu, e um deles tinha o nome dele, pequeno Ernesto, escrito atrás. A fotografia é fria, não fala, não chama de vô.

Foi numa tarde qualquer, céu meio cinza, que ele ouviu o portão bater. Levantou devagar, sem entender se era lembrança, sonho ou milagre. Era o Rafael, o mais velho, diferente, cabelo mais ralo, barriga mais cheia, e com um menino do lado, uns oito anos. “Esse aqui é o Ernesto, pai, teu neto.

” Ele se segurou no batente da porta, as pernas tremiam. Entrou, esquentou o café, colocou dois copos de vidro lascados na mesa. Rafael sentou calado, o menino olhando os cantos da casa com estranheza. Ficaram os três, três gerações ao redor de uma mesa que já viu tanta coisa.

Rafael andou pela casa, abriu a porta do quarto onde dormia quando menino, viu o pôster de time ainda na parede e os olhos marejaram. Antes de ir, disse que precisava voltar, que tinha compromissos, que talvez voltasse outro dia. Ele agradeceu por ter vindo, agradeceu de verdade, e ficou em pé no portão até o carro sumir na estrada. Dentro dele, no meio do concreto do silêncio, apareceu um fiapinho de esperança.

Os dias foram passando, e numa semana de chuva interminável a casa ficou úmida, o teto pingando num balde no canto do quarto. O barulho da água marcava a solidão como um metrônomo. Teve uma noite em que a chuva parou e ele sentiu a presença dela, a Maria, sentada no banco da cozinha. Não viu nem ouviu, mas sentiu, como a gente sente o calor do sol mesmo de olho fechado.

A presença dela não foi embora, só mudou de forma, mora nos pequenos detalhes, na toalha bordada, no jeito de dobrar os panos, no eco das orações que ela murmurava antes de dormir. Quando a chuva passou, o sol apareceu tímido, e o cheiro da terra molhada o fez lembrar do dia em que se conheceram, na festa de São João, ela de vestido florido rindo porque ele tropeçou num balde e quase derrubou o quentão. Aquilo foi o começo de tudo, e tem coisa que o tempo não leva. Certo dia, ele estava varrendo o terreiro, como fazia todo dia, quando viu o pé de roseira que plantara sem esperar muito, e lá estava ela, uma flor pequena, vermelha, teimosa, brotada mesmo no tempo seco.

Passou a mão leve nas pétalas e sentiu algo que não era alegria nem tristeza, era uma esperança daquela que a gente esquece que tem. Naquela mesma semana recebeu uma carta escrita à mão, do João, o quarto filho, que foi embora dizendo que voltava logo e nunca voltou. Pedia desculpas, dizia que pensava nele sempre, que contava para os filhos que teve um pai que acordava antes do sol, que carregava menino nas costas e panela na mão. Dizia que não sabia como voltar, se era bem-vindo.

Ele leu devagar, encostou a carta no peito e acreditou, porque quem escreve a mão escreve com o coração. No outro dia decidiu ajeitar a cerca da frente, depois a porta, trocou o pano da cortina, lavou os copos bons. Não que esperasse alguém, mas porque começou a sentir que talvez ainda tivesse tempo para alguma coisa florescer. Foi numa manhã, quase meio-dia, quando ele ouviu passos no terreiro, passos que param, que hesitam.

Levantou devagar, foi até a porta e lá estava ela, a Laurinha, a do meio, diferente, com um lenço no pescoço, óculos escuros, mas era ela. “Oi, pai. Dá um abraço? ” A voz dela quebrou ele por dentro.

Abriu os braços e ela veio, se encaixou como se nunca tivesse ido. Entraram, sentaram, e ela olhou a casa. “Continua tudo igual, até o pano da geladeira. ” Ela tirou da bolsa um pacote, um pão caseiro ainda morno, feito na véspera.

Partiram o pão juntos, passaram manteiga, tomaram café, e entre um gole e outro ela contou que morava longe, que trabalhava demais, que tinha se perdido no caminho, que achava que ele estava bem, cuidado por alguém. “A gente acha tanta coisa, pai, mas a vida não espera a gente entender. ” No meio da fala, percebeu que ela chorava baixo, lágrimas escorrendo devagar, misturadas com o cheiro do café. Ele pegou a mão dela, calejada de outro tipo de luta, e segurou.

“Você sempre foi brava, Laurinha, mas não precisa ser forte o tempo todo. ” Ela sorriu, ainda chorando. “Acho que puxei o senhor. ” Ficaram assim, dois adultos cansados, cercados por tudo que sobrou do que foram.

Ela ficou até o fim da tarde, andou pelo quintal, tirou folha seca da horta, riu das panelas tortas. “A gente era feliz, né, pai? ” “Era mesmo. Na dificuldade, a gente tinha a gente e isso bastava.

” Antes de ir, ela perguntou se podia voltar no mês seguinte. “Pode. A casa é tua. Sempre foi.

Só ficou esperando você lembrar o caminho. ” Ele acompanhou até o portão, viu ela sumir na estrada com a luz do fim do dia batendo nos ombros, e quando ela virou a curva, voltou para dentro, sentou na cadeira de sempre e deixou a lágrima cair. Ele foi perdendo a força aos poucos, e num domingo decidiu limpar o quartinho dos fundos, uma caixa com papel antigo, retrato sem moldura, resto de brinquedo. Encontrou o cavalinho de madeira que fez para o João, com uma perna quebrada, segurou no colo e ouviu o som do galope inventado.

Mais pro fundo, um embrulho de pano, e dentro os sapatinhos de crochê que a Maria fez antes da Laurinha nascer, rosas com uma fitinha branca. Segurou aquilo como quem segura um pedaço dela, porque era o toque dela costurado ali, o cuidado, a esperança. O tempo fez da casa um museu sem visita, tudo parado, cada objeto com sua memória, a colher de pau torta, o banco que rangia, o copo lascado, tudo como se ela fosse voltar a qualquer momento. Teve um dia que sentiu o cheiro do perfume dela, aquele bem fraquinho de flor de laranjeira, parou a vassoura no meio do movimento, não era imaginação.

Abriu a gaveta onde guardava as roupas dela, pegou o vestido azul claro com o botão faltando, o último que ela usou, e ficou ali passando a mão no tecido, conversando com ela, contando que a horta estava dando pouco, que o banco da varanda estava firme, que o rádio pegou estação nova. Uma noite sonhou com ela, sentada na beira da cama costurando, olhando para ele com aquele olhar de quem sabia tudo mas não precisava dizer nada. Acordou com o peito cheio e ao mesmo tempo calmo, como se ela tivesse passado ali só para dizer que estava de olho. Resolveu escrever uma carta para ela, não para mandar, só para tirar do peito, dizendo que devia ter dançado mais com ela nas noites de sábado, que devia ter elogiado mais o arroz com alho, que devia ter sentado mais na varanda com ela.

Dói saber que a gente só aprende a valorizar quando já não tem mais tempo. Dobrou a carta, colocou num envelope velho e guardou atrás do quadro dela na sala, talvez um dia alguém encontre, talvez não, o que importa é que ele falou. E foi numa tarde, quando já não esperava mais nada, que ouviu passos na estrada, lentos, leves, e viu o pequeno Ernesto, o neto, sozinho, mochila nas costas, mesmo jeito curioso no olhar. Abriu o portão antes dele chamar.

“Vô, posso ficar um tempo aqui? ” Não perguntou quanto tempo, nem porquê, só abriu a porta e deixou ele entrar. O menino lavou as mãos na pia da cozinha, sentou à mesa, ajeitou o caderno e disse: “Queria ouvir umas histórias das antigas. ” Ele sorriu, foi até o armário, pegou o caderno velho e sentou do lado do neto.

Começou a ler em voz alta e o menino escutava como quem escuta tesouro, interrompia para fazer pergunta, ria alto com as travessuras dos tios. Quando a tarde caiu, o menino ajudou a regar a horta, riu da galocha furada, e antes de dormir pediu para aprender a fazer o arroz do jeito que a bisavó fazia. Ele ensinou, o menino fez, e ficou bom, não igual, mas bom. À noite, depois que o neto dormiu, ele ficou sentado do lado de fora, o céu estrelado, o vento manso, o peito leve, e pensou que se amanhã fosse o último dia, tudo bem, porque já vivera o que tinha que viver, já fora tudo que podia ser, e agora deixava o que construiu nos olhos daquele menino que dormia ali dentro.

Porque o mundo gira, o tempo corre, a casa esvazia, mas o amor que a gente planta, esse nunca vai embora.