A vida da gente muda sem aviso. Antes do silêncio, antes do vazio que ficou, existia um tempo em que tudo estava no lugar. Tudo era barulho de menino, cheiro de terra molhada e panela de ferro no fogo. Eu acordava cedo, sempre gostei de ver o sol nascer por trás das montanhas.

Havia uma paz naquela luz alaranjada cortando a neblina. Dava um gole no café preto, amargo, e já pegava a enxada. O corpo ia no automático, mas o coração ficava em casa. Lá dentro estava Maria, cabelo preso com um lenço azul desbotado, batendo a mão na massa com pressa, porque os meninos iam acordar com fome.
Oito bocas, meu amigo. Oito. Era menino por todo canto da casa. Um queria leite, outro queria colo, outro já gritava no terreiro sem nem lavar o rosto.
E ela dava conta de tudo. Nunca ouvi Maria se queixar da vida, nem quando a roupa acumulava, nem quando o feijão queimava no fundo da panela, nem quando faltava açúcar e só tinha farinha. Naquela época eu ainda acreditava que amor bastava. O que não tinha em dinheiro, a gente dava em presença.
Trabalhava duro o dia inteiro, plantava milho, feijão, mandioca. De vez em quando arriscava umas abóboras. Tinha época boa e época dura. Quando a chuva faltava, era o suor que molhava a terra.
Mas mesmo cansado, voltava para casa com gosto, porque ali, naquela casa pequena, era onde a vida acontecia. Os meninos me esperavam com os olhos brilhando. Um vinha correndo mostrar o desenho torto, outro trazia o pé de mamona escondido no bolso, dizendo que era presente. O menor sempre vinha no colo de Maria com as bochechas vermelhas do sol.
E ela olhava para mim com um sorriso calado, como quem dizia que tinha dado certo mais um dia. A gente não falava eu te amo, nem sabia direito dizer essas coisas, mas sabia demonstrar. Ela deixava meu prato separado com um pouco mais de carne quando dava. Eu trazia um maço de couve da roça só porque sabia que ela gostava.
Nosso amor era feito dessas miudezas, dos gestos pequenos, mas certos. As noites eram barulhentas. Um chorava com dor de barriga, outro torcia sem parar, outro se mijava inteiro. Eu, virado do serviço, ainda levantava.
Maria já vinha junto, cobria, dava chá, passava pano. A gente não tinha descanso, mas tinha um ao outro. Quando os meninos dormiam, era o único momento de silêncio. Ficávamos os dois sentados no degrau da porta, olhando o escuro da estrada.
Ela encostava a cabeça no meu ombro e era ali, naquele silêncio compartilhado, que eu entendia o que era a paz. Só que a vida é feita de curvas que a gente não espera. Uma dessas curvas chegou num mês de março. Começou com uma tosse, depois uma febre.
Maria dizia que era coisa à toa, mas o brilho dos olhos dela começou a sumir. Fiquei de olho, fiz chá de toda folha que conhecia, rezei, levei no posto. Cada dia ela ficava mais quieta, mais mole. Uma tarde ela me olhou diferente.
Era um olhar de despedida. Sem dizer uma palavra, apertou minha mão e foi assim, sem alarde, sem grito, sem tempo. Os meninos não entenderam. O menor chorava chamando por ela.
Os maiores fingiam que não era nada. Eu não tinha escolha. No dia seguinte, botei a camisa limpa, amarrei os sapatos com raiva e fui enterrar o amor da minha vida. Fiquei viúvo aos quarenta e poucos anos, com oito filhos no braço.
Dali em diante eu virei dois, pai e mãe. Aprendi a trançar cabelo, a lavar roupa com sabão de soda, a tampar o ouvido para a dor e abrir o peito para a coragem. A cada noite era um desafio diferente. Choro, febre, falta de comida, saudade de mim mesmo, porque nem eu sabia mais quem eu era.
Mas segui, não por mim, por eles. A roça não esperava minha dor. A enxada não entendia luto. O milho tinha que ser colhido.
Então eu chorava escondido, no meio da plantação, debaixo do sol, deixava a lágrima cair. Depois enxugava e voltava para casa com um sorriso forçado, só para não deixar os meninos sentirem ainda mais. Cada um reagiu de um jeito. Um ficou rebelde, outro ficou calado, teve um que parou de comer.
Eu tentava ser tudo, mas às vezes não dava conta. Um dia me sentei com todos na sala e olhei para cada um. Eu não sou perfeito, nem sei ser mãe, mas vou fazer o que eu puder para ninguém aqui faltar de nada. O mais velho, o Rafael, já com quinze anos, só assentiu com a cabeça.
Ele virou meu braço direito, me ajudava na roça, carregava os menores, cuidava da casa quando eu saía. Foi virando homem cedo, talvez cedo demais. Lembro de uma noite em que a Laurinha teve febre alta. Não tinha dinheiro para remédio.
Fui até o armazém do seu Aristeu e pedi fiado. Ele olhou, coçou o queixo e disse que eu levasse o remédio e pagasse com mandioca depois. Nunca esqueci disso. Voltei correndo, dei o remédio e fiquei a madrugada toda sentado do lado da cama dela.
De manhã a febre tinha baixado. Quando ela abriu o olho, disse baixinho que tinha sonhado com a mamãe, e que ela tinha dito que eu estava dando conta direitinho. Chorei ali mesmo, em silêncio, para não assustar. Teve época que dava vontade de sumir, de deitar no meio do milharal e fingir que o mundo tinha acabado.
Mas bastava um deles me chamar de pai para eu lembrar que eu era o único pilar dali. Com o tempo, fui pegando o jeito. Fazia trança na Laurinha com a mão dura mesmo, ficava torta, mas ela sorria. Levava todo mundo para o banho num balde só, depois do serviço, com água gelada do poço.
Eles gritavam e riam. Era o nosso momento. Os anos foram passando. Um por um foi crescendo, criando asa.
O Rafael arrumou emprego numa madeireira e saiu de casa. A Laurinha, aos dezoito, foi estudar em outra cidade. Os outros foram indo também. E eu fui ficando.
A primeira noite que dormi sozinho na casa, sem um barulho, sem um prato sujo, sem uma luz acesa, senti um vazio que nem sei explicar. Fiquei sentado na rede até o sol nascer. Nem chorei, só fiquei esperando o barulho que não veio. Os filhos não fizeram por mal.
A vida puxa, a cidade chama, o mundo engole. Mas o velho aqui ficou com a memória. As paredes da casa começaram a falar comigo. Cada canto guardava uma história.
A marca de giz na parede onde o Joãozinho media a altura, a porta rangendo que o Rafael prometeu consertar, o pano de prato bordado que a Laurinha me deu no Natal. Fui guardando tudo, como quem guarda um tesouro, porque era tudo que me restava. Teve um domingo que sentei na varanda com a camisa de linho que Maria gostava. O tempo fechou, caiu chuva e eu fiquei ali esperando.
Fiz café para dois, por costume, talvez por teimosia. O cheiro do café ainda me traz ela, e por alguns segundos juro que escuto a voz dela lá na cozinha dizendo que o feijão vai queimar. Comecei a viver de lembrança. Ia para a roça ainda, mas já não com a mesma força.
As pernas doíam mais, o fôlego faltava mais cedo. Às vezes ficava parado no meio da plantação, olhando o céu, perguntando se era isso mesmo que tinha sobrado para mim. Eu, a terra e o silêncio. Meus filhos estavam vivos, graças a Deus, saudáveis, mas distantes.
E não falo de quilômetro. Falo de ausência mesmo, de não lembrar a última vez que escutei pai sair da boca de um deles por vontade, não por obrigação. No começo eles ainda ligavam. Passava mês, dois, um deles telefonava para saber se eu estava bem.
Eu sempre dizia que sim, mesmo quando o telhado pingava, mesmo quando a comida estava no fim, mesmo quando a dor nas costas me fazia dormir sentado na cadeira. A gente mente para proteger. E eu sempre protegi. Por isso se acostumaram com a ideia de que eu não precisava de ninguém.
Teve um dia que fui até a cidade resolver um negócio no banco. Já fazia tempo que não saía. Fui de ônibus, quieto no meu canto. Na fila, uma mulher me olhou com pena, perguntou se eu estava sozinho, se precisava de ajuda.
Eu disse que não, mas a verdade é que fazia tanto tempo que alguém me olhava nos olhos que aquilo me desmontou. Saí de lá e fui andando devagar até a pracinha. Sentei num banco e fiquei vendo os outros viverem. As crianças brincando, os casais rindo, os jovens com pressa.
E eu parado, invisível. Voltei para casa com um saco de farinha e outro de açúcar. Era tudo que eu tinha ido buscar, mas parecia que tinha voltado de uma viagem longa. Comecei a conversar mais comigo mesmo, às vezes em voz alta.
Lembrava de cada detalhe da infância dos meninos, da primeira vez que o Caio andou de bicicleta, do medo que o Rafael tinha de trovão. Junto com as lembranças boas, vinham as que doem mais. O dia que gritei sem razão, a vez que deixei de ouvir um pedido, a festa de escola que não consegui ir porque a plantação estava no tempo da colheita. Ficava pensando se eles lembravam dessas coisas também.
Será que foi isso que os afastou? Fui perdendo a força aos poucos. Primeiro a vista que embaçava quando o sol batia forte. Depois a coluna que já não deixava eu levantar sem gemer.
Comecei a me apoiar nas paredes, depois numa bengala que o vizinho seu Aníbal me emprestou. Eu ria dizendo que era frescura, mas por dentro doía o orgulho mais do que o corpo. A comida ficou mais simples. Arroz, feijão e ovo.
Quando tinha carne, era festa. Passei a contar os passos até a porteira, até o poço, até o galinheiro. Contava não por mania, mas por medo. Medo de esquecer, de que minha cabeça começasse a falhar e ninguém percebesse, porque afinal, quem viria perceber?
Teve uma noite que o telefone tocou. Era número desconhecido. Atendi com o coração disparado, achando que podia ser um dos meus. Era engano.
A moça pediu desculpa e desligou, mas só de ouvir uma voz por segundos, fiquei com o aparelho no ouvido, ouvindo o sinal de desligado. Comecei a escrever num caderno velho que achei dentro de uma caixa. Escrevia frases soltas, pensamentos, nomes dos filhos, datas de nascimento, lembranças da Maria. Era como se aquilo me lembrasse de quem eu fui, de que eu existia.
Um domingo resolvi arrumar a casa inteira. Tirei tudo do lugar, passei pano no chão, lavei cortina, esfreguei parede. Parecia que queria apagar a poeira dos anos. Quando terminei, sentei no meio da sala e chorei.
Chorei sem barulho, sem desespero. Chorei de cansaço, de saudade, de me ver ali limpando tudo como se esperasse alguém chegar. Mas ninguém chegou. Recebi um cartão de Natal da Laurinha, uma vez chegou atrasado.
Ela dizia que estava morando longe, trabalhando muito, que sentia falta. Li aquele cartão umas vinte vezes e guardei na última gaveta do armário, onde ficam as coisas que não posso perder. Também recebi uma fotografia do Rafael com os filhos dele, meus netos. Nunca vi eles, só por foto.
Um deles tem o meu nome. Isso eu sei porque ele escreveu atrás. Esse é o pequeno Ernesto. Li aquilo como quem segura o tempo nas mãos, mas a fotografia é fria.
Não fala, não chama de vô. Às vezes me pego conversando com a Maria, olhando pro céu, pro quadro na parede, pro travesseiro vazio do lado da cama. Peço força, peço paciência. Foi com ela que tudo começou.
E mesmo depois de tudo, ainda é nela que eu encontro abrigo. Foi numa tarde qualquer. Céu meio cinza, vento encanando pela porta da cozinha. Eu estava sentado na cadeira de madeira com os pés enfiados num par de chinelo velho.
Tinha feito um café forte porque o sono da idade é traiçoeiro. Foi aí que ouvi o portão bater. Primeiro pensei que fosse o vento. Depois ouvi de novo, um, dois toques, e uma voz baixa, meio tímida.
Pai. Levantei devagar, sem entender se era lembrança, sonho ou milagre. Atravessei a sala como quem pisa em terreno desconhecido. Quando abri a porta, fiquei parado, sem fala, sem gesto.
Era o Rafael, o mais velho. Estava diferente, cabelo mais ralo, barriga mais cheia, olhos cansados. Estava com um menino do lado, uns oito anos. Esse aqui é o Ernesto, pai, teu neto.
Demorei uns segundos para processar aquilo. Quando dei conta, minhas pernas tremiam. Me segurei no batente da porta e balancei a cabeça tentando sorrir, mas o sorriso veio misturado com um nó na garganta. Entra, meu filho.
A casa é tua. Fui esquentar o resto do café, peguei dois copos de vidro lascados e coloquei na mesa como se aquilo fosse um banquete. Rafael sentou calado. O menino ficou em pé, olhando os cantos da casa.
Ele fala pouco, o Rafael comentou sem jeito, mas entende tudo. Puxou a avó. Quando ele falou avó, minha vista embaçou. Rafael mexia no café como se procurasse coragem no fundo do copo.
Depois de um tempo, falou: eu devia ter vindo antes. Não respondi. Nem sabia se queria ouvir justificativa, mas também não queria que ele fosse embora. Então só assenti com a cabeça.
Ficamos ali os três, eu, o filho que partiu e o neto que eu nunca tinha visto. Três gerações sentadas ao redor de uma mesa que já viu tanta coisa. Rafael andou pela casa, foi até o quarto onde dormia quando menino. Abriu a porta devagar, como quem pede licença ao tempo.
Ainda tem o pôster de time que eu colei na parede, ele riu baixo. Achei que o senhor tinha tirado. Eu ri também. Nunca tive coragem.
Tirar aquilo era aceitar que você não ia voltar. Ele não respondeu, mas os olhos marejaram. O senhor tá bem aqui, ele perguntou de repente. Dei de ombros.
Tô vivo. Tenho terra, tenho café, tenho minha história. Ele ficou me olhando como quem queria dizer alguma coisa e não sabia como. Às vezes eu pensava em escrever, mandar carta, mas achava que o senhor tava melhor sem saber da gente.
Fiquei calado. Não era hora de cobrar nem de perdoar. Era só hora de estar ali. Mais tarde ele disse que precisava ir, que veio só para mostrar o menino, que talvez voltasse outro dia.
Agradeci por ter vindo. Agradeci de verdade. Fiquei em pé no portão até o carro dele sumir na estrada. Quando a poeira baixou, olhei para a cadeira onde ele tinha sentado, ainda com a almofada afundada.
Voltei para dentro, mas já não era o mesmo. Alguma coisa tinha se movido. Uma fresta se abriu no meio do silêncio. E dentro de mim, misturado com a saudade, apareceu um fiapinho de esperança.
Talvez os filhos ainda lembrassem. Talvez não fosse tarde. No dia seguinte, fui até o cemitério. Não era data especial, mas senti vontade.
Levei uma flor. Limpei o túmulo, ajeitei a flor e sentei no chão. Fiquei conversando com ela, falei do neto que apareceu, das dores nas costas, do silêncio. No meio da conversa chorei, não alto, daquele jeito que a lágrima escorre devagar e vai secando no caminho.
Na volta, passei pela venda do seu Aristeu. Comprei sabão, um maço de vela e uma caixinha de fósforo. O moço do caixa perguntou se eu precisava de ajuda para carregar. Agradeci e disse que não.
Fui andando devagar, sentindo o sol nas costas, o peso da sacola na mão e o peso maior ainda nos ombros. Em casa, fiz arroz com ovo. Comi sozinho em silêncio. Depois sentei no alpendre com a vela acesa, olhando os insetos dançarem em volta da chama.
Pensei que a solidão é parecida com isso. Uma coisa que atrai, queima e depois some. Fiquei ali até a vela acabar. Nos dias seguintes, o corpo foi pesando mais.
As pernas reclamavam, os olhos ardiam, a memória começava a falhar em pequenos pedaços. Deixei panela queimar, deixei porta aberta, deixei nome escapar da boca. Às vezes chamava o neto que não estava lá, falava com a Maria em voz alta, perguntava para ninguém onde tinha posto o chinelo. Me vi ficando velho de verdade, não só no corpo, no jeito de existir.
Uma tarde vi pela janela o filho do vizinho lavando o carro com o pai. Eles riam, jogavam água um no outro. O menino gritava chamando o pai, pedindo para olhar alguma coisa. Aquilo me atravessou.
Não de inveja, mas de ausência. Eu fui aquele pai. Fui aquele que ouvia pai o dia inteiro. Agora, se alguém me chama assim, é por engano.
Não guardo mágoa, nunca fui de guardar. Mas tem uma coisa que fica, mesmo que a gente não queira. O vazio. Ele mora no sofá da sala, na cama de casal, no banco da cozinha.
Senta comigo na rede, anda comigo até o poço, entra comigo quando a noite cai. E o pior é que a gente se acostuma, aprende a conversar com ele. Outro dia encontrei o rádio antigo jogado numa gaveta. Botei pilha e ele ainda funcionava.
Sintonizei numa estação qualquer e deixei tocando uma música velha dessas que ela gostava. Fiquei ouvindo até escurecer. Aquela música me levou para longe, para um domingo antigo, com os meninos correndo no terreiro, ela na varanda, o cheiro do frango assando. Tudo voltou num segundo, mas foi embora no segundo seguinte.
Quando a música acabou, só restou o chiado. O chiado do rádio e da alma. Já era quase meio-dia quando escutei passos no terreiro. Eu estava sentado na cozinha descascando batatas para o almoço, quando ouvi o estalar do cascalho sendo pisado devagar.
Não era barulho de vizinho que costuma passar direto, era passo que para. Levantei devagar, enxuguei a mão no avental velho e fui até a porta. A luz do sol me fez apertar os olhos. Lá estava ela.
Laurinha, a do meio, a que nasceu em silêncio. Estava diferente, mas era ela. Um lenço no pescoço, óculos escuros, bolsa atravessada no peito. Me olhou como quem procura uma reação, e eu não reagi.
Só fiquei parado. Por dentro tudo pulava, mas por fora eu era só silêncio. Ela sorriu, um sorriso pequeno, meio sem jeito. Oi, pai.
Dá um abraço? A voz dela me quebrou por dentro. Abri os braços sem dizer nada e ela veio. Se encaixou como se nunca tivesse ido, como se aqueles anos todos coubessem num instante.
O cheiro dela era outro, o cabelo tinha outra cor. Mas o abraço, o abraço era igual ao de quando era menina. Entramos, sentamos. Ela tirou da bolsa um pacote, um pão caseiro, ainda morno.
Fiz ontem, pensei que o senhor ia gostar. Peguei com cuidado, como quem segura um presente raro. Partimos o pão juntos, passamos manteiga, tomamos café. Entre um gole e outro, ela começou a contar que morava longe, que trabalhava demais, que tinha se perdido no caminho, que achava que eu estava bem, que estava sendo cuidado por alguém.
A gente acha tanta coisa, pai, mas a vida não espera a gente entender. Fiquei ouvindo. No meio da fala dela, percebi que ela chorava baixo, sem escândalo. Peguei a mão dela, calejada de outro tipo de luta, e segurei.
Você sempre foi brava, Laurinha, mas não precisa ser forte o tempo todo. Ela sorriu de novo, ainda chorando. Ficamos assim, dois adultos cansados, cercados por tudo que sobrou do que fomos. Ela perguntou dos irmãos.
Falei o que sabia, que o Caio mudou pro norte, que o João abriu a oficina, que o Rafael veio uma vez com o filho e depois sumiu de novo. Ficou até o fim da tarde, andou pelo quintal, tirou folha seca da horta, olhou os potes de vidro na estante, riu das panelas tortas. A gente era feliz, né? Era mesmo.
Na dificuldade, a gente tinha a gente e isso bastava. Antes de ir, me abraçou apertado. Posso voltar mês que vem? Pode.
A casa é tua. Sempre foi. Só ficou esperando você lembrar o caminho. Acompanhei ela até o portão.
Fiquei vendo ela sumir estrada abaixo, com a luz do fim do dia batendo nos ombros. Quando ela virou a curva, voltei para dentro, sentei na cadeira de sempre e deixei a lágrima cair. Na mesa ainda tinha farelo do pão e um cheiro dela no pano de prato. Coisas pequenas, mas que fazem um velho lembrar que ainda existe, que ainda importa, que alguém ainda chama ele de pai.
Tem dia que a gente acorda com o peito cheio, não é tristeza nem alegria, é outra coisa, um peso manso, como se o corpo lembrasse de tudo antes da mente. Acordei assim, com a sensação de que alguma coisa tinha mudado durante a noite. Fui até o quintal. O pé de limão continua ali, teimoso, crescendo torto.
Os vasos da Maria estão no mesmo canto, já meio secos, mas ainda de pé. Sentei na sombra do pé de jambo e fiquei olhando o céu. Me lembrei da primeira vez que plantei com meu pai. Ele me deu uma enxada menor feita por ele mesmo e disse que a terra devolve o que a gente entrega com paciência.
Eu não entendi direito na época. Hoje entendo demais. Passei a vida inteira entregando tudo para essa terra. E ela devolveu o que pôde.
Milho, feijão, sustento, cansaço e um silêncio que às vezes pesa mais que enxada cheia. Naquele dia decidi limpar o quartinho dos fundos. Já fazia anos que eu só empurrava as coisas para dentro. Lá tinha de tudo.
Caixa com papel antigo, pedaço de cadeira, retrato sem moldura, resto de brinquedo. Vi o cavalinho de madeira que eu mesmo fiz pro João quando ele era pequeno. Estava com uma das pernas quebradas. Peguei, ajeitei no colo e fiquei olhando.
Na hora me veio o som do galope inventado, o grito do menino fingindo que estava num rodeio. Mais pro fundo, encontrei um embrulho de pano. Abri devagar. Dentro estavam os sapatinhos de crochê que a Maria fez antes da Laurinha nascer.
Rosinha com uma fitinha branca. Segurei aquilo como se segurasse um pedaço dela, porque no fundo era isso mesmo. Era o toque dela costurado ali. Era o cuidado, a esperança, o começo de uma história.
O tempo fez da minha casa um museu sem visita. Tudo parado no tempo, cada objeto com sua memória. A colher de pau torta que ela usava para mexer o angu, o banco que rangia e que eu prometia consertar, o copo lascado que ninguém queria, mas que ela usava todo o dia. Tudo ali, como se ela fosse voltar a qualquer momento para botar tudo no lugar.
Mas não voltava, e isso era o que mais doía. Me peguei pensando no que deixo para trás, no que fica quando eu for. Não tem herança, não tem dinheiro guardado, só essa casa torta, essa terra cansada, esse velho caderno onde ando escrevendo minhas memórias. Talvez seja isso que reste.
O que a gente conta, o que a gente lembra, o que a gente amou. Outro dia fui na venda pegar um remédio. Seu Aristeu já não fica mais lá, agora é o filho dele que cuida. Um moço novo, educado.
Me chamou de senhor e perguntou se eu queria colocar as compras na sacola de pano ou se levava no braço. Achei bonito. Ninguém mais pergunta essas coisas. As pessoas andam com pressa demais, falando demais, ouvindo de menos.
Na volta encontrei com dona Teresa, velha conhecida. Me perguntou se eu ainda estava firme. Respondi que estava indo no tempo da tartaruga. Ela me olhou com aquele jeito que só gente antiga tem, sem pena, mas com ternura.
Eles vão aparecer quando a vida apertar. Eles lembram da raiz. Fiquei com isso na cabeça. A gente é raiz de quem planta longe.
A árvore pode até dar fruto em outro canto, mas a raiz continua aqui, quieta, segura, invisível. É duro ser raiz. Dói, mas é o que sustenta. Voltei para casa com a cabeça cheia e o corpo mole.
Fiz sopa, sentei na cadeira de balanço e fiquei olhando o retrato dela. Tá tudo tão calmo hoje, Maria. Calmo demais. Parece véspera de alguma coisa, só não sei do quê.
Naquela noite, antes de dormir, deixei a porta da frente encostada só por desencargo. Vai que alguém lembra. Teve uma semana que choveu sem parar. A casa ficou úmida, o teto pingava num balde no canto do quarto.
O barulho da água caindo era constante, como se fosse um metrônomo marcando minha solidão. E ainda assim, numa noite em que a chuva parou, consegui escutar sapo no brejo, um carro longe, um rádio distante em alguma casa vizinha. E ali, no meio de tudo, senti ela sentada no banco da cozinha. Não vi nem ouvi, mas senti, como a gente sente o calor do sol mesmo de olho fechado.
A presença dela não foi embora, só mudou de forma. Agora mora nesses pequenos detalhes que ninguém vê. Está na toalha de mesa bordada, na receita que eu tento lembrar de cabeça, no jeito de dobrar os panos de prato, na arrumação da estante que ela dizia que estava errada. Está na lembrança do som da risada dela quando os meninos aprontavam alguma, no eco das orações que ela murmurava antes de dormir.
Está em mim. No fim daquela semana de chuva, o sol apareceu de leve, meio tímido, e o cheiro da terra molhada me fez lembrar do dia que a gente se conheceu, na festa de São João da Vila. Ela de vestido florido, rindo de mim, porque tropecei num balde e quase derrubei o quentão. Aquilo foi o começo de tudo, o começo da família, do amor, da história que a gente construiu com tão pouco e que mesmo com tudo indo embora aos poucos, ainda está de pé.
Tem coisa que o tempo não leva. Era começo de agosto, céu limpo, vento seco. Eu estava varrendo o terreiro como fazia quase todo dia. Terminei, sentei na beira da porta e fiquei olhando o pé de roseira que plantei do lado da cerca.
Um galho fino, torto, nascido de uma muda que achei jogada num canto da feira. Plantei sem esperar muito. Naquele dia, sem aviso, lá estava ela. Uma flor pequena, mas viva, vermelha, fechada, teimosa.
Me aproximei devagar, passei a mão leve nas pétalas e senti uma coisa estranha. Não era alegria nem tristeza, era esperança, daquela que a gente esquece que tem. Passei o resto do dia meio quieto demais, até para mim, mas com a cabeça naquela flor. Aquilo me lembrou que tem coisa que brota mesmo no descuido, mesmo no tempo seco, mesmo quando a gente acha que já não tem mais o que esperar.
Naquela mesma semana recebi uma carta. Verdade, uma carta escrita à mão. No envelope o nome do João, o quarto, o que foi embora dizendo que voltava logo, mas nunca voltou. Abri com as mãos tremendo.
As palavras eram simples, um pedido de desculpa, um reconhecimento tardio. Dizia que pensava em mim sempre, que contava pros filhos que teve um pai que acordava antes do sol, que fazia remédio com folha de quintal, que carregava menino nas costas e panela na mão. Dizia que não sabia como voltar, que não sabia se era bem-vindo. Li devagar, depois li de novo.
Depois encostei a carta no peito e fiquei parado com os olhos no chão. Ele não dizia quando vinha. Só dizia que se um dia viesse, queria que eu soubesse que nunca me esqueceu. E eu acreditei, porque quem escreve a mão escreve com o coração.
No outro dia, decidi mexer na cerca da frente da casa. Estava torta fazia tempo. Peguei martelo, prego, arame. Devagar, mas fui ajeitando.
Um vizinho passou, estranhou. Vai esperar visita, Ernesto? Ri com o canto da boca. Talvez.
Ou talvez só queira deixar a casa mais bonita para mim mesmo. Depois disso, ajeitei a porta, troquei o pano da cortina, lavei os copos bons. Não que eu esperasse alguém, mas porque comecei a sentir que talvez ainda tivesse tempo para alguma coisa florescer. Não é porque tudo foi embora que não pode mais chegar.
Na sexta-feira, o rádio anunciou a festa da cidade, a mesma onde levei os meninos quando eram pequenos, onde a Maria comprava doce de leite embrulhado no papel de seda. Pensei em ir, não para encontrar ninguém, só para sentir o cheiro do milho assado, ouvir o barulho da sanfona, ver o povo rindo. Mas não fui. Preferi ficar.
Preferi escutar o som da festa vindo de longe, entrando pela janela como lembrança boa. À noite, sentei na varanda, o céu cheio de estrela, um vento bom passando por entre as frestas da camisa. Pensei nos netos, nos que nem conheço. Pensei em como seria escutar alguém correndo de novo naquele terreiro, gritando vô com a boca cheia de pão.
Não sei se vai acontecer, talvez não. Mas agora não me dói mais tanto pensar nisso, porque tem algo diferente aqui dentro. Algo que nasceu no mesmo tempo daquela flor. Algo que eu nem sabia que podia sentir de novo.
Tem coisa que nunca morre. Fica adormecida e um dia, sem aviso, floresce. Hoje acordei antes do sol. Nem era para sair, nem tinha nada me esperando lá fora.
Foi só o corpo que resolveu levantar, como sempre fez. O silêncio da casa me recebeu igual todos os dias. Mas hoje parecia que ele me olhava. Tinha um peso diferente, nem tristeza, nem vazio, um tipo de aceitação.
Fui até a cozinha, pus água no fogo, preparei o café. Enquanto a chaleira chiava, fiquei olhando o pano de prato pendurado no prego da parede. Um dia ela bordou meu nome ali, Ernesto, as letras tortas, o ponto miúdo. Nunca deixei ninguém tirar dali.
Mesmo desbotado, ele ainda me chama pelo nome. Sentei à mesa com o café na mão e fiquei pensando na vida. Não do jeito que os mais novos pensam, fazendo plano, mas do jeito que velho pensa, revendo as pegadas que já foram deixadas. Pensei nos oito filhos, cada um com seu rosto na minha memória, cada um com uma história que se afastou da minha sem perceber.
Eu dei tudo de mim para eles, o corpo, o tempo, o que eu sabia e o que eu tive que aprender no meio do caminho. Fui pai, fui mãe, fui chão. E mesmo depois de tudo, mesmo com o silêncio que ficou, eu não me arrependo. Fui até o armário, peguei o caderno onde venho escrevendo minhas memórias.
Está quase cheio, as folhas amareladas, a capa solta, as letras cada vez mais tremidas. Mas é ali que eu me reencontro. Hoje escrevi mais uma página. Comecei com uma pergunta.
Se eu tivesse que viver tudo de novo, viveria. Escrevi devagar, porque não dá para responder uma coisa dessa com pressa. Fui lembrando dos dias de sol rachando na cabeça, do barro colado na bota, das crianças gritando na cozinha, da Maria estendendo roupa no varal. Fui lembrando dos dias em que chorei escondido, com medo de não dar conta, dos dias que faltou tudo, menos vontade.
E quanto mais eu lembrava, mais a resposta vinha clara. Sim, eu viveria tudo de novo, com a mesma terra seca, com a mesma dor nas costas, com a mesma saudade que virou companheira de todos os dias. Porque até a dor teve seu lugar, até a solidão me ensinou. A tarde foi passando devagar.
Fui até o quintal. O pé de roseira que eu plantei floresceu de novo. Duas flores vermelhas, pequenas, mas firmes. Passei a mão devagar nas pétalas, fechei os olhos e ali, no meio daquele silêncio, falei com ela.
Disse que estava tudo indo, que a casa seguia de pé, que a saudade não diminuía, mas que agora eu já sabia conviver com ela. Voltei para dentro e decidi limpar a estante. Tirei o pó dos retratos. No da família inteira dá para ver todo mundo miúdo, mas sorrindo.
Eu e ela no meio, rodeados de filho. O João com cara de sapeca, a Laurinha com laço no cabelo, o Rafael já com jeito de irmão mais velho. Fiquei um tempo olhando e pensei: isso aqui fui eu que fiz, eu e ela. Mesmo com todas as ausências, ninguém pode tirar isso de mim.
Na hora do almoço, cozinhei arroz, feijão e um pedaço de carne seca que achei no congelador. Comi devagar, em silêncio, mastigando lembrança. O feijão era dela. A receita, o tempero.
Nunca ficou igual, mas chega perto. Depois de comer, sentei na cadeira da varanda. O sol batia quente, mas o vento soprava leve. Foi aí que ouvi passos na estrada, lentos, leves.
Quando olhei, vi o pequeno Ernesto, meu neto, aquele que veio uma vez com o Rafael. Estava sozinho, mochila nas costas, chinelo no pé, o mesmo jeito curioso no olhar. Abriu o portão antes de eu chamar. Vô, posso ficar um tempo aqui?
Não perguntei quanto tempo, nem porquê. Só abri a porta e deixei ele entrar. Ele tirou os sapatos, lavou as mãos na pia da cozinha e sentou à mesa. Ajeitou o caderno, abriu o lápis e disse: queria ouvir umas histórias das antigas.
Sorri. Fui até o armário, peguei o caderno velho e sentei do lado dele. Comecei a ler em voz alta e ele escutava como quem escuta tesouro. Me interrompia às vezes, fazia pergunta, ria alto quando eu contava das travessuras dos tios.
E ali, naquela mesa, naquele momento, eu entendi que nada foi em vão. Quando a tarde caiu, ele me ajudou a regar a horta, riu da minha galocha furada. Antes de dormir, pediu para aprender a fazer o arroz do jeito que a bisavó fazia. Eu ensinei, ele fez e ficou bom.
Não igual, mas bom, o bastante para me fazer lembrar que a vida continua, mesmo quando tudo parece ter ido embora. De noite, depois que ele dormiu, fiquei sentado do lado de fora, o céu estrelado, o vento manso e eu com o peito leve. Se amanhã for meu último dia, tudo bem. Já vivi o que tinha que viver, já fui tudo que eu podia ser, e agora deixo o que construí nos olhos desse menino que dorme ali dentro.
Porque o mundo gira, o tempo corre, a casa esvazia, mas o amor que a gente planta, esse nunca vai embora.


