“Você fez a transferência dos R$ 25.000?” — essa foi a frase que ouvi quando cheguei à casa dos meus sogros, depois de meses vendo minha esposa Rosana visitá-los para cuidar da mãe que diziam…

“Você fez a transferência dos R$ 25.000?” — essa foi a frase que ouvi quando cheguei à casa dos meus sogros, depois de meses vendo minha esposa Rosana visitá-los para cuidar da mãe que diziam...

O celular do Diego tocou de novo e, pela terceira vez na mesma noite, ele não atendeu. Rosana colocou o prato de pão na minha frente e eu senti o perfume dela atravessar a mesa. Ela sempre soube quando eu estava prestes a explodir sobre alguma coisa pequena. A discussão tinha sido boba: ele esqueceu de recarregar o carregador do carro, mas eu sabia que não era sobre isso.

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Eu estava prestes a abrir a boca quando o celular dela tocou também, cortando o clima. Ela ficou pálida. Diego já estava de pé, pegando a jaqueta no encosto da cadeira. — Deixa que eu resolvo — ele disse, sem olhar para mim.

Rosana me deu um beijo no rosto. O carregador do Diego ainda estava na tomada. Ele esqueceu de novo. Fiquei ali na mesa, mastigando devagar, ignorando o vazio que se instalou na cozinha.

Pensei em chamar a dona Marlene, nossa vizinha de anos, que sempre sabia tudo o que acontecia no bairro. Ela atendeu no segundo toque. — Vocês estão bem? — perguntou, com a voz animada de sempre.

Respi fundo, sintonizei o volume da TV e mantive minha voz o mais neutra possível: “Sim, só tava pensando aqui: o movimento tá tão calmo no seu salão hoje, dona Marlene? A senhora sabe que eu confio mais na senhora do que nos jornais. ”

Ela riu, mas a risada veio curta demais. Depois, baixou a voz.

— Esses dois tão estranhos, viu? Toda semana o Diego pegava o carro dela no fim da tarde, voltava três horas depois sem explicar nada. Eu vi uma vez uma pasta grossa no banco de trás. E aposto que nunca te contou como sumiu o dinheiro do imóvel da herança do seu pai, né?

Eu segurei o telefone com força. Aquele assunto estava enterrado há três anos. O apartamento saiu no inventário, o dinheiro ia para uma aplicação conjunta, e eu nunca mais toquei no valor exato. Como é que ela soube de qualquer depósito?

— A senhora sabe o nome do banco? — perguntei, com o coração acelerado. — Não, menina. Mas sei que um moreno alto, de paletó cinza, veio aqui no mês passado e perguntou pelo Diego na portaria.

Eu fingi que era parente dele. Pendurei sem despedida. Sentei ali olhando para a tomada vazia. Ocupada demais tentando provar que eu estava errada.

Só que a semente tinha sido plantada. Na manhã seguinte, o Osvaldo apareceu na varanda, com uns documentos ainda com cheiro de tinta na mão. — Marlene, olha essa reportagem sobre o terreno lá perto do lago — ele disse, levantando os olhos do celular. — Se quiser, a gente dá uma olhada com calma no fim de semana.

Rosana colocou um prato de pão na minha frente, a mão dela roçando de leve no meu ombro. Foi nesse instante que o celular de Rosana tocou, cortando a conversa no meio. A cor sumiu do rosto dela. Diego já estava de pé, pegando a chave do próprio carro.

Até no meio de uma crise, ele sabia o que realmente importava. — Não, o jantar com o Zaguirre no sábado — Rosana disse, corrigindo o rumo. — Se a situação da Marlene e do Osvaldo for grave mesmo, talvez a gente tenha que cancelar. Mas algo parecia fora do lugar.

Caminhei até a sala, parei na frente da estante onde ficavam nossas fotos de família. Rosana e eu no dia do casamento, os dois impossivelmente jovens. Sorriso enorme debaixo do capelo. Procurei o contato da Rosana no celular, o polegar suspenso em cima do botão de ligar.

Fui até o closet do corredor, peguei meu paletó, agarrei as chaves do carro. Saí de casa 20 minutos depois. Um buquê de crisântemos amarelos descansava no banco do carona, ao lado de uma sacola de remédios controlados da farmácia. O caminho até a casa da Marlene pareceu mais longo do que devia.

Pessoas com quase 40 graus de febre e dor forte no corpo não sentam para ver televisão com prazer. A coleção de bonequinhos de porcelana da Marlene enfeitava a estante do corredor. A jaqueta do Osvaldo pendurada no cabideiro, o cheiro familiar da casa, uma mistura de madeira velha, vela de baunilha e o rastro sutil das saquinhas de lavanda que Marlene guardava por toda parte me envolveu. Agora eu conseguia ouvir com clareza a vinda do que eu sabia ser a sala no fim do corredor à direita e por baixo do barulho da TV.

Uma era o barítono inconfundível do Osvaldo, meio rouco pela idade. Empurrei a porta devagar. A cena era impossível. Não havia cadeira de rodas na sala.

Osvaldo estava em pé, de camisa social e gravata, com uma calculadora de mão na mão. Marlene, sentada no sofá com um prato de biscoitos no colo, sem nenhum sinal de dor no corpo. Senti como se tivesse levado um soco no estômago. Diante de mim, o Osvaldo e a Marlene, supostamente acamados, estavam lá, vivos, fortes, com uma frieza nos olhos que eu nunca tinha visto.

Eles eram os ladrões. Meu próprio sogro e minha sogra. Esperei a próxima frase deles com o coração martelando. — E você deixou eles levarem a sua biblioteca de discos raros?

— Marlene perguntou, sem sombra de arrependimento. — Aquele tesouro que o Osvaldo dizia que era da família há três gerações. Osvaldo respondeu, com a voz profissional de quem estava fechando um negócio. — O valor dele é sentimental, não financeiro.

O que interessa é o que eles não sabem. Marlene riu, um riso curto, sem humor. — Eles nunca vão saber. Rosana é uma sonhadora, e o genro é orgulhoso demais para pedir detalhes.

Foi aí que eu entendi o tamanho da armadilha. Eles me afastaram da cabine, me transformaram no culpado da história, e agora estavam dividindo o que nunca foi deles. Eu estava prestando atenção demais na minha própria dor e de menos no que acontecia diante dos meus olhos. Tirei o celular do bolso com as mãos trêmulas e comecei a gravar.

Segurei o celular no alto, movendo-me o mais silenciosamente possível em direção ao vão da cozinha. Um estalo na madeira, uma sombra projetada no ângulo errado, e eles saberiam que eu estava ali. — Você fez a transferência dos R$ 25. 000?

— Diego soava casual, como se estivesse falando da lista do mercado. Marlene riu, baixinho. — Já foi. Depois, Diego, R$ 1.

840. 000. Rosana apareceu no corredor atrás deles, o prato de biscoitos ainda na mão, o rosto confuso. Ela olhou para a mãe, para o pai, depois para mim.

Eu vi o exato momento em que a ficha caiu. — Você gravou tudo? — Rosana perguntou, com a voz falhando. — Não sei o que fazer com isso ainda.

Osvaldo se levantou devagar, a calculadora ainda na mão. — Não vai fazer nada, menina. Você não tem provas suficientes. Eu estava tremendo, mas engoli seco e respondi com a voz mais dura que consegui.

— Tenho mais do que provas. Tenho o histórico completo. O celular no meu bolso continuava gravando. A polícia chegou em 20 minutos.

O processo começou ali mesmo com o depoimento de Osvaldo e Marlene e com a gravação que eu tinha no celular. No final, Ricardo Salgado foi condenado a 8 anos por estelionato qualificado, com outras vítimas se apresentando durante a investigação. E um dia, sentado sozinho no consultório do meu advogado, esperando mais uma audiência, percebi que eu não estava lutando por justiça. Estava lutando para me sentir menos traído.

E eram coisas diferentes. No começo, eu recusei todo o contato. Depois do divórcio, ela se mudou para outra cidade, tentando recomeçar. Faz parte do processo.

No no no. Entrei na minha cafeteria favorita, perto do apartamento novo. Estava tentando configurar o aplicativo do banco, mas não entendia nada daquilo. Uma moça de uniforme, com um crachá escrito “Larissa”, se aproximou.

— Tô tentando configurar o aplicativo do banco, mas não entendo nada disso. Ela se abaixou e disse, com um jeito calmo:

— Me dá o seu celular que eu te ajudo. Eu trabalhei como caixa por dez anos, faço isso de olhos fechados. 20 minutos depois, tudo configurado.

Larissa me entregou o café com um bilhete rabiscado no copo. Eu dei um gole no café e sorri ao ver as palavras escritas no copo. Ela significava mais do que ela imaginava. “A vida continua.

Você também deveria. ”