Eram onze da noite quando ouvimos o toque na porta. Toc-toc-toc-toc. O meu filho, de vinte e três anos, estava parado à entrada do quarto com o rosto banhado em suor e os olhos perdidos….

Eram onze da noite quando ouvimos o toque na porta. Toc-toc-toc-toc. O meu filho, de vinte e três anos, estava parado à entrada do quarto com o rosto banhado em suor e os olhos perdidos....

Eram onze horas da noite quando os passos voltaram a ressoar no corredor. Shizuko estava deitada na cama, mas o sono não vinha. Contemplava o tecto, a mente a rever o dia que se repetia havia já tantos anos. aos quarenta e oito anos, a rotina era sempre a mesma:.

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arrumar a cozinha, dobrar a roupa, preparar o pequeno-almoço. O marido estava em viagem de trabalho havia uma semana. O filho, Kenta, de vinte e três anos, devia estar no quarto a estudar. Foi então que ouviu:..

toc-toc-toc-toc. Um som discreto, mas claro. Shizuko estremeceu. A esta hora, quem bateria à porta?

O coração disparou:… e se tivesse acontecido alguma coisa ao Kenta?!. Kenta? titubeou ela, a voz trémula.

Não houve resposta.. Apenas uma respiração ofegante do outro lado da porta, rápida e irregular, como quem correra durante muito tempo.. Shizuko levantou-se devagar, o coração aos saltos. Aproximou-se com passos pesados..

Hesitou um instante, a mão pousada na maçaneta.. Um mau pressentimento.. Algo estava errado.. Abriu a porta:…

Kenta!. A exclamação escapou-lhe dos lábios.. O filho estava ali, diante dela, mas irreconhecível.. O rosto banhado em suor, o cabelo colado à testa, a camiseta encharcada..

Respirava com dificuldade, os olhos a vagar sem foco, incapazes de a enfrentar directamente:… Kenta, que se passa? Estás doente?. Shizuko estendeu a mão para lhe tocar na testa, mas ele não respondeu..

Apenas a olhava, um misto de ansiedade e medo no olhar, algo que não conseguia expressar em palavras.. As mãos tremiam-lhe, os punhos a abrir e fechar.. Shizuko nunca o vira assim.. Não desde os tempos de criança, quando ele corria para o quarto dela a chorar depois de um pesadelo:…

Queres entrar?. Kenta assentiu, sem dizer palavra.. Entrou com passos lentos e instáveis, como se as pernas lhe faltassem.. Parou ao centro do quarto, olhou em redor, depois encostou-se à parede e deslizou até ao chão, encolhido, os ombros a tremer..

Parecia uma criança. Não um homem de vinte e três anos.. Shizuko sentou-se ao lado dele no chão frio.. Quis tocar-lhe, mas as mãos tremiam-lhe também:…

Kenta, fala comigo. O que aconteceu?. Ele cobriu o rosto com as mãos.. Lágrimas escorriam-lhe por entre os dedos..

Shizuko ficou em silêncio, a vê-lo tremer.. O que teria acontecido? Um acidente? Uma discussão?

O coração dela perguntava, mas as palavras não saíam.. Ficaram os dois sentados no escuro, apenas a respiração ofegante dele a quebrar o silêncio.. O tique-taque do relógio na parede parecia cada vez mais alto.. Passados cerca de trinta minutos, a respiração de Kenta começou a acalmar..

Os tremores foram diminuindo.. Shizuko pousou-lhe a mão no ombro:… Já está melhor?. Ele assentiu lentamente..

Tentou levantar-se, apoiando-se à parede, as pernas ainda fracas.. Shizuko levantou-se também, os joelhos a doer, mas não disse nada:… Vou para o quarto.. Kenta disse, a voz mal se ouvindo..

Antes de sair, voltou-se uma vez mais:… Desculpa, mãe.. Foi a primeira frase completa que lhe saíra naquela noite.. Shizuko sentiu um aperto no peito:…

Não, não faz mal.. Podes vir sempre que precisares.. Disse, forçando um sorriso, a conter as lágrimas.. Kenta baixou a cabeça e saiu..

A porta fechou-se devagar.. Shizuko ficou imóvel, a olhar para a porta.. O que acabara de acontecer? Não percebia..

Mas uma coisa era certa:. algo de grave se passava com o filho.. E não era algo simples.. Na manhã seguinte, Kenta apareceu à mesa como se nada fosse..

O cabelo penteado, a roupa limpa, um sorriso nos lábios:… Bom dia, mãe.. Shizuko ficou confusa.. Será que aquilo tinha mesmo acontecido?

:… Dormiste bem?. Perguntou, cautelosa.. Kenta sentou-se à mesa:…

Sim, muito bem.. A voz era natural, despreocupada.. Não mencionou o que acontecera na noite anterior.. Shizuko não soube o que fazer..

Devia perguntar? Devia ignorar?. Colocou a tigela de arroz diante dele:… Toma, come..

Kenta agradeceu e começou a comer, com apetite.. Shizuko observou-o.. Parecia mesmo bem.. Como se a figura encharcada de suor da noite anterior fosse uma miragem..

O dia passou.. Shizuko fez as tarefas domésticas, mas o pensamento não saía do filho.. Pensou em ligar ao marido, mas hesitou.. Como explicar aquilo?.

:… O meu filho veio ao meu quarto a meio da noite e foi-se embora?. Soava a pouco.. Às seis da tarde, Kenta chegou a casa, como sempre:.

Estava a preparar o jantar. :… Já chegaste?. Kenta respondeu, a voz alegre, e foi lavar as mãos..

O jantar decorreu com normalidade.. Kenta falou da universidade, dos amigos, dos trabalhos.. Shizuko ouviu, a observar-lhe o rosto.. Parecia mesmo bem..

À noite, deitada na cama, Shizuko não conseguia dormir.. Olhava para o relógio:. dez e meia.. Onze horas..

A casa estava em silêncio.. Talvez tivesse sido só uma noite.. Fechou os olhos.. Toc-toc-toc-toc..

Os olhos dela abriram-se de repente.. O coração disparou.. Outra vez o mesmo som.. Discreto, mas inconfundível..

E atrás da porta, a respiração ofegante.. Shizuko levantou-se, as mãos a tremer.. Abriu a porta. Kenta estava ali..

O mesmo rosto banhado em suor, o mesmo olhar perdido, a mesma respiração ofegante.. Como na noite anterior.. Shizuko deixou-o entrar.. Kenta encostou-se à parede e deslizou até ao chão, a tremer..

Desta vez, Shizuko sentou-se ao lado dele e começou a acariciar-lhe as costas:… Calma.. A mãe está aqui.. Kenta foi-se acalmando aos poucos, mais depressa do que na noite anterior..

Trinta minutos depois, levantou-se:… Desculpa.. E saiu.. Shizuko ficou sozinha, a pensar..

Isto não era um caso isolado.. Estava a tornar-se um padrão.. E o que significava aquele padrão, ela não fazia ideia.. Na manhã seguinte, Kenta apareceu como sempre..

O mesmo sorriso, a mesma naturalidade.. Como se não se lembrasse de nada.. Shizuko não aguentou mais:… Kenta, preciso de falar contigo..

Kenta olhou para ela, um leve sobressalto no rosto:… O que foi?. Shizuko hesitou.. Como havia de começar?

:… Tens dormido bem ultimamente?. Kenta assentiu:… Sim, tenho dormido muito bem..

A voz parecia genuinamente confusa.. Será que ele não se lembrava mesmo? Ou estava a fingir?. Shizuko não conseguiu distinguir:…

Não é nada.. Disse, a desviar o assunto.. Naquela tarde, ligou ao marido:… Aconteceu uma coisa estranha..

O marido ficou preocupado:… O que foi?. Ela contou-lhe o que andava a acontecer:. o filho a aparecer no quarto dela todas as noites, e durante o dia a comportar-se normalmente..

O marido ficou em silêncio por momentos:… Isso é verdade?. A voz dele transparecia incredulidade.. Shizuko sentiu um aperto no peito:…

É verdade.. Porque haveria eu de mentir?. O marido suspirou:… Está bem..

Volto no fim de semana e levamos o Kenta ao médico.. Shizuko assentiu, embora ele não a pudesse ver:… Sim, vamos fazer isso.. Desligou o telefone e sentou-se no sofá, exausta..

A falta de sono e a ansiedade pesavam-lhe no corpo.. Conseguiria aguentar até ao fim de semana? E o médico daria respostas?. Não tinha a certeza..

Naquela noite, à hora prevista, ouviu o toque na porta.. Já não se assustava.. Não que se tivesse habituado, mas já o esperava.. Abriu a porta e deixou o filho entrar..

O mesmo ritual.. Shizuko pensou:. até quando isto vai durar? Onde está o fim disto?.

Não havia respostas.. No terceiro dia, Shizuko estava na cozinha a aquecer sopa.. O corpo mexia-se, mas a mente estava longe.. Não dormia bem havia duas noites, e as olheiras tornavam-se evidentes..

Kenta saiu do quarto:… Bom dia, mãe.. A mesma voz alegre, o mesmo rosto limpo.. Shizuko olhou para ele:.

será mesmo este o filho que a visita todas as noites?. :… Dormiste bem?. Kenta sentou-se à mesa:…

Sim, muito bem.. A mesma resposta.. Shizuko colocou-lhe a sopa diante dele, a observar-lhe o rosto à procura de qualquer sinal de cansaço.. Mas ele parecia cheio de energia:…

Hoje tenho uma apresentação na universidade.. Kenta disse, enquanto comia.. Shizuko assentiu:… Sim, estás preparado?.

:… Sim, acabei tudo ontem.. Kenta sorriu.. Shizuko sentiu o peito apertar-se..

Aquela normalidade era demasiado estranha.. Onde tinha ido parar a noite anterior?. O pequeno-almoço acabou.. Kenta levantou-se para apanhar a mochila..

Shizuko seguiu-o até à entrada.. Foi então que reparou.. Quando Kenta se inclinou para calçar os sapatos, a manga da camisa deslizou-lhe pelo pulso.. Havia marcas vermelhas no pulso dele..

Riscos finos, como que feitos com as unhas, a cruzar a pele:… Kenta!. Shizuko chamou-o, a voz a tremer.. Kenta levantou o rosto:…

O que foi?. Shizuko apontou, a voz a falhar:… Esse pulso.. O que é isso?.

Kenta olhou para o próprio pulso.. Uma expressão confusa passou-lhe pelo rosto:… Ah, isto? Risquei-me ontem a arrumar uns livros..

Não é nada de mais.. Disse, puxando a manga para baixo, a esconder as marcas.. E sorriu:… Mãe, vou chegar atrasado..

Até já.. Abriu a porta e saiu.. Shizuko ficou imóvel, a olhar para a porta fechada.. As marcas no pulso não lhe saíam da cabeça..

Riscado a arrumar livros?. Podia ser.. Mas pareciam demasiado regulares.. Como se tivessem sido feitas de propósito..

Não, estava a imaginar coisas.. Abanou a cabeça, a tentar convencer-se.. Mas a inquietação não desaparecia.. O dia passou..

Shizuko andou a fazer as tarefas, mas a imagem das marcas não a largava.. Ao fim da tarde, passou diante do quarto de Kenta e hesitou.. A porta estava fechada.. Estendeu a mão para a maçaneta, mas deteve-se..

Entrar no quarto do filho às escondidas não era certo.. Mas queria saber.. Retirou a mão.. Decidiu confiar..

Sentou-se no sofá da sala, mas o coração não sossegava.. Às seis e meia, Kenta chegou a casa:… Já cheguei, mãe!. A voz dele era alegre..

Shizuko saiu da cozinha para o receber:… Bem-vindo a casa.. Chegaste tarde.. Kenta respondeu:…

Fui à biblioteca por causa de um trabalho.. E pousou a mochila e foi lavar as mãos.. Shizuko olhou para as costas dele.. As marcas no pulso já não se viam, escondidas pela manga comprida..

Durante o jantar, Kenta contou que a apresentação tinha corrido bem, que o professor o elogiara, que almoçara com os amigos.. Conversa normal.. Shizuko ouviu, mas não tirava os olhos do pulso dele:… Kenta..

Disse, cautelosa:. Kenta levantou o rosto:… Sim?. :…

Ultimamente… tens-te sentido mal? Alguma coisa a preocupar-te?. Kenta pareceu pensar por um momento, depois abanou a cabeça:…

Não, estou bem.. Porquê?. :… Não é nada..

Shizuko hesitou:… Se te estiveres a sentir mal, podes falar comigo.. Kenta sorriu:… Sim, eu sei..

Não te preocupes.. E voltou a comer.. Shizuko conteve um suspiro.. Não conseguia perguntar mais..

Naquela noite, Shizuko deitou-se e olhou para o relógio:. dez horas.. Daqui a uma hora, ouvirei o toque na porta.. Já o sabia de antemão..

O padrão estava estabelecido.. Às onze horas, ouviu o som esperado:. toc-toc-toc-toc.. Abriu a porta..

Kenta estava ali, o rosto banhado em suor, a respiração ofegante, o corpo a tremer.. Como sempre.. Mas havia algo de diferente esta noite.. O olhar dele parecia ainda mais perturbado:…

Entra.. Shizuko disse.. Kenta entrou, mas desta vez não se encostou à parede.. Foi até à janela..

Shizuko estranhou.. Nunca fizera aquilo antes.. Kenta abriu o cortinado devagar e espreitou para fora.. Movia a cabeça de um lado para o outro, como se procurasse algo..

Os ombros tensos:… Kenta,o que estás a fazer?. Shizuko perguntou.. Kenta não respondeu..

Continuou a olhar para a rua escura.. Passado quase um minuto, fechou o cortinado e voltou-se.. O rosto parecia mais aliviado.. O que teria ido verificar?

Shizuko não se atreveu a perguntar:… Kenta foi encostar-se à parede,e sentou-se, o rosto enterrado nas mãos, como sempre.. Shizuko sentou-se ao lado dele, a acariciar-lhe as costas:… Calma..

A mãe está aqui.. Kenta foi-se acalmando, mas desta vez demorou mais tempo.. Quarenta minutos depois, finalmente sossegou.. Levantou-se e, antes de sair, voltou-se:…

Desculpa, mãe.. As mesmas palavras.. Shizuko assentiu:… Não faz mal..

Boa noite.. Kenta saiu.. Shizuko olhou para a janela.. Kenta tinha ido verificar qualquer coisa naquela janela..

O que teria visto? Ou melhor,o que teria procurado? Shizuko aproximou-se da janela e espreitou para fora.. Não havia nada..

Apenas a escuridão da noite e um ou outro candeeiro de rua.. Ninguém.. Nada.. E, no entanto, Kenta tinha ido verificar algo..

Shizuko fechou o cortinado e voltou para a cama.. Mas o sono não veio.. A mente fervilhava:. as marcas no pulso, o comportamento na janela, os períodos cada vez mais longos de agitação..

Tudo aquilo era estranho.. Algo não batia certo.. Shizuko tinha a certeza.. Havia ali mais do que um simples filho a visitar a mãe à noite..

Mas o que era, ela não sabia.. E Kenta não falava.. Uma semana passou.. Shizuko já se levantava da cama antes do toque na porta, a esperar..

Já não era surpresa, era uma rotina.. Como um acordo tácito.. Toda a noite, à mesma hora, Kenta aparecia, o mesmo rosto banhado em suor, a mesma respiração ofegante, o mesmo corpo a tremer.. Shizuko deixava-o entrar e sentava-se ao lado dele, a acariciar-lhe as costas..

Tornara-se o seu quotidiano.. Kenta, por sua vez, durante o dia era o mesmo de sempre:. sorrisos, conversas, a universidade, os amigos.. Como se a noite não existisse..

Uma vida dividida em duas metades.. Shizuko sentia-se a esgotar.. Não dormia bem, a ansiedade consumia-lhe as forças.. As olheiras escureciam-lhe o rosto, a pele empalidecia..

Num dia, Kenta reparou:… Mãe, estás bem? Pareces cansada.. A voz dele transparecia genuína preocupação..

Shizuko sentiu o peito apertar-se:. o filho preocupado com a mãe, sem saber que era ele próprio o motivo daquela preocupação:… Sim, estou bem.. Só um bocado cansada..

Respondeu.. Kenta fez uma cara de culpa:… Mãe, não te esforces demais.. Eu trato da loiça..

No fim do pequeno-almoço, Kenta apanhou a mochila e dirigiu-se à entrada.. Já com a porta aberta, voltou-se:… Mãe… ultimamente tenho feito alguma coisa estranha?.

Shizuko sentiu o coração saltar:… Porque perguntas isso?. :… Não sei..

Kenta hesitou:… Ultimamente, quando acordo de manhã, sinto que a memória está um bocado… confusa.. Não me lembro bem do que fiz durante a noite..

Shizuko não soube o que responder.. Devia-lhe dizer a verdade?. :… Não..

Não tens feito nada de estranho.. Mentiu.. Kenta pareceu aliviado:… Ainda bem..

Então vou indo.. Até já.. Saiu e fechou a porta.. Shizuko ficou parada, a olhar para o vazio..

Acabara de confirmar:. Kenta não se lembrava das noites.. Nessa tarde, a campainha tocou.. Shizuko foi abrir a porta..

Era a vizinha do lado, um sorriso amarelo nos lábios:… Boa tarde.. Shizuko cumprimentou-a:… Boa tarde..

A vizinha hesitou, como se não soubesse por onde começar:… Olhe… ultimamente tenho ouvido uns barulhos à noite.. As paredes são finas, e ouço sempre alguém a entrar e a sair..

E… às vezes, até ouço um choro.. A voz dela foi-se tornando mais baixa.. Shizuko sentiu o rosto a arder:.

envergonhada, humilhada:… Peço desculpa.. É o meu filho.. Ele tem estudado até tarde ultimamente..

Vou pedir-lhe para ter mais cuidado.. Disse, apressada.. A vizinha assentiu e foi-se embora.. Shizuko fechou a porta e desabou no chão, a tapar o rosto com as mãos..

Já sabiam.. Os vizinhos tinham reparado.. O que andariam a pensar? Que tinha uma relação estranha com o filho?

O medo e a vergonha apertaram-lhe o peito.. As lágrimas escorreram-lhe pelos dedos.. Chorou até não poder mais.. Depois, lavou o rosto, olhou-se ao espelho e viu os olhos inchados..

Tinha de preparar o jantar.. A vida continuava.. Às seis, Kenta chegou a casa, o rosto sempre alegre.. Durante o jantar, falou da universidade..

Shizuko ouviu, a assentir, mas a mente longe:… Mãe, estás bem? Estás a olhar para o vazio.. Kenta perguntou, preocupado..

Shizuko forçou um sorriso:… Sim, estou bem.. Só estou um bocado cansada.. Terminaram o jantar e Kenta foi para o quarto..

Shizuko foi para o dela, deitou-se e olhou para o tecto.. Daqui a duas horas, o mesmo de sempre voltaria a acontecer.. Às onze horas, o toque na porta soou.. Shizuko abriu a porta..

Kenta estava ali.. Ela deixou-o entrar.. Trinta minutos depois, ele levantou-se:e, ao sair, disse:… Desculpa, mãe..

Shizuko assentiu.. A porta fechou-se.. Shizuko deitou-se e as lágrimas voltaram a escorrer, silenciosas.. Até quando teria de viver assim?

Até quando teria de carregar aquele peso sozinha? Mais alguns dias se passaram.. As visitas noturnas continuavam.. Shizuko sentia-se cada vez mais sem forças..

Já não tinha energia para recusar, nem coragem para perguntar.. Apenas aceitava o que vinha.. Num dia, Shizuko estava sentada no sofá, a ver televisão sem prestar atenção.. Kenta saiu do quarto para beber água..

Ao passar por ela, hesitou:… Mãe… eu… sou um fardo para ti?.

Shizuko sobressaltou-se, a olhar para ele.. Os olhos de Kenta estavam cheios de ansiedade:… O que estás a dizer? Claro que não és um fardo..

Kenta assentiu, mas o rosto continuava preocupado.. Voltou para o quarto.. Shizuko suspirou.. Kenta também sentia que algo estava errado, embora não soubesse explicar o quê..

Duas semanas se passaram.. Shizuko reparou que Kenta começara a chegar mais cedo.. Primeiro às onze, depois às dez e meia, por vezes às dez.. O padrão estava a mudar..

E o tempo que ele passava no quarto dela também aumentara.. De trinta minutos, passara a quarenta, a uma hora.. Shizuko tinha de ficar ao lado dele, a acariciar-lhe as costas, a sussurrar palavras de conforto, até ele se acalmar.. Numa noite, Kenta chegou às dez..

Sentou-se, encostado à parede, e Shizuko sentou-se ao lado dele, como habitualmente.. Uma hora passou.. Kenta ainda tremia, a respiração ainda ofegante:… Calma..

Respira devagar.. Shizuko sussurrou, a continuar a acariciar-lhe as costas.. Kenta permanecia encolhido, sem dizer nada.. Passada uma hora e meia, os tremores começaram finalmente a diminuir, a respiração a acalmar..

Shizuko suspirou de alívio.. Finalmente estava a acalmar-se.. Mas Kenta não se mexeu.. Normalmente, a esta altura, levantava-se e voltava para o quarto..

Mas desta vez ficou sentado.. Shizuko estranhou:… Kenta?. Chamou-o, cautelosa..

Sem resposta.. Tocou-lhe no ombro, a abaná-lo suavemente:… Kenta?. Foi então que ouviu um som..

Uma respiração regular, constante.. Kenta adormecera.. Shizuko ficou surpreendida.. Nunca antes lhe acontecera aquilo..

Kenta estava exausto, o rosto finalmente tranquilo, o suor a secar, os traços descontraídos.. Shizuko olhou para ele.. Fazia tempo que não o via tão em paz.. Decidiu não o acordar..

Deitou-o suavemente no chão, colocou-lhe uma almofada debaixo da cabeça e cobriu-o com uma manta.. Kenta resmungou, encolheu-se, e continuou a dormir.. Shizuko foi para a cama, deitou-se e olhou para ele, a dormir no chão do quarto dela.. Um misto de sentimentos invadiu-a..

Estaria a fazer o correcto? Mas estava cansada.. Fechou os olhos.. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma certa paz, com o filho ali por perto..

De manhã, quando acordou, Kenta já não estava lá.. Apenas a manta dobrada no chão.. Quando teria saído? Shizuko levantou-se e foi à sala..

Kenta estava sentado à mesa, já lavado e vestido:… Bom dia, mãe.. Disse, o sorriso habitual no rosto.. Shizuko olhou para ele:.

lembrar-se-ia de alguma coisa?. :… Dormiste bem?. Perguntou, cautelosa..

Kenta assentiu:… Sim, muito bem.. A mesma resposta.. Não se lembrava..

Shizuko suspirou e foi para a cozinha preparar o pequeno-almoço.. A partir dessa noite, as coisas mudaram.. Kenta passou a adormecer no quarto dela com cada vez mais frequência.. Três vezes por semana..

Sempre que se acalmava, adormecia ali mesmo.. Shizuko cobria-o e deitava-se.. Uma estranha rotina de convivência começou.. Durante o dia, eram mãe e filho, normais..

À noite, Kenta visitava-a e, por vezes, ficava até de manhã.. Como se tivesse voltado a ser criança.. Numa noite, Kenta dormia no quarto dela.. Shizuko estava deitada na cama, o quarto em silêncio, apenas a respiração regular dele..

De repente, Kenta murmurou algo no sono:… A sombra… A sombra está a perseguir-me.. A voz dele tremia..

Shizuko sentou-se na cama e olhou para ele.. Kenta continuava a dormir, mas o rosto estava contorcido, a expressar dor.. Devia estar a ter um pesadelo:… Kenta..

Shizuko chamou-o, em voz baixa.. Pegou-lhe na mão, a envolvê-la nas suas:… Calma.. A mãe está aqui..

Sussurrou.. A expressão de Kenta suavizou-se.. Os murmúrios pararam.. Voltou o silêncio..

Shizuko continuou a segurar-lhe na mão.. Que sonho seria aquele? O que significava aquela sombra? Queria saber, mas não tinha como saber..

Alguns dias depois, Kenta voltou a dormir no quarto dela.. Desta vez, murmurou outra vez:… Não, não vás.. A voz era triste..

Shizuko sentiu o coração apertar-se.. O filho estava a sofrer.. Mas não podia acordá-lo.. Apenas podia segurar-lhe na mão:…

A mãe está aqui.. Está tudo bem.. Repetiu, vezes sem conta.. Kenta foi-se acalmando aos poucos..

Os murmúrios cessaram.. Na manhã seguinte, Shizuko perguntou-lhe:… Kenta, tens sonhado ultimamente?. Kenta inclinou a cabeça, confuso:…

Sonhos? Hmm… não me lembro de nada.. Porquê?.

:… Não é nada.. Shizuko desviou o assunto.. Mais uma vez, ele não se lembrava de nada..

O tempo foi passando.. Kenta passou a dormir no quarto dela quase todas as noites.. O quarto dela tornara-se o quarto dos dois.. Durante o dia, cada um seguia a sua vida:.

Kenta ia para a universidade, Shizuko ficava em casa.. Mas à noite, estavam juntos.. Shizuko sentia sentimentos contraditórios.. Por um lado, era cansativo..

Por outro, doía-lhe ver o filho sofrer tanto.. E, ao mesmo tempo, havia medo.. Sabia que aquilo não era normal.. Mas não conseguia pará-lo..

Seria amor? Seriam mimos? Não sabia.. Apenas sabia que precisava de estar ali para ele..

Numa noite, enquanto lhe afagava o cabelo, pensou:. até quando iria durar aquilo? Quando conseguiria Kenta voltar a dormir sozinho no quarto dele? Ou viveriam assim para sempre?

Não havia respostas.. Apenas podia continuar ali, como fazia quando ele era pequeno, a embalá-lo, a protegê-lo dos monstros.. Mas agora não era tão simples.. Kenta tinha vinte e três anos, e o problema não era simples..

Shizuko sabia isso.. Mas não queria aceitar.. Chegou a terceira semana.. Shizuko olhou-se ao espelho e não se reconheceu..

As olheiras eram tão fundas que nem a maquilhagem as escondia.. As faces encovadas, os lábios gretados.. Aos quarenta e oito anos, parecia ter cinquenta e cinco.. Já não aguentava mais.

Pegou no telemóvel e ligou ao marido.. O marido atendeu ao terceiro toque:… Estou?. Shizuko, a voz a tremer:…

É o Kenta.. Já não consigo aguentar.. O marido percebeu logo que algo estava muito mal:… O que se passa?

A tua voz está estranha.. Shizuko tentou falar, mas a garganta fechou-se:… Ele… ele vem ao meu quarto todas as noites..

E agora… quase todas as noites dorme aqui.. O marido ficou em silêncio por um momento, depois perguntou:… Ainda vem?

Todas as noites?. :… Sim.. Disse ela, a voz a desfazer-se:…

E eu já não sei o que fazer.. O marido suspirou:… Volto este fim de semana.. Vamos levá-lo ao médico.

Isto não é normal.. Ela assentiu:… Sim, por favor.. Desligou o telefone e sentou-se no sofá..

Faltavam três dias para o fim de semana.. Conseguiria aguentar? Nessa tarde, Kenta estava prestes a entrar no quarto dele quando hesitou e se voltou:… Mãe…

nunca entres no meu quarto.. A voz dele era firme, até dura.. Shizuko sobressaltou-se:… Porquê?

O que é que lá está?. :… Não importa. Apenas promete que não entras..

Os olhos dele estavam ansiosos, mas determinados.. Shizuko assentiu:… Está bem.. Não entro..

Kenta pareceu aliviado e entrou no quarto, fechando a porta.. Shizuko ficou a olhar para a porta fechada.. Porque não queria ele que ela entrasse no quarto? O que estaria lá?

A suspeita começou a crescer.. Naquela noite, às dez e meia, o toque na porta soou.. Shizuko abriu a porta.. Kenta entrou e, como sempre, tentou acalmar-se..

Mas havia algo de diferente esta noite.. Shizuko olhava para ele de maneira diferente.. Havia medo no olhar dela.. Será que ele vinha ali apenas porque estava ansioso?

Ou havia outra razão? A mente dela começou a divagar:. e se fosse algo de… sexual?

Abanaou a cabeça.. Não, aquilo não podia ser.. Mas a dúvida não desaparecia.. Às duas da manhã, Kenta continuava a dormir no chão do quarto dela..

Shizuko não conseguia dormir, a olhar para o tecto,. a mente numa espiral.. E se fosse mesmo aquilo? O que havia de fazer?

Chamar a polícia? Ou lidar com aquilo em silêncio? Mas não havia provas.. Kenta não fazia nada..

Apenas vinha ao quarto, acalmava-se e dormia.. Então porque estava ela a suspeitar daquilo? Sentiu nojo de si mesma.. Suspeitar do próprio filho..

Mas não conseguia parar.. Na manhã seguinte, depois de Kenta sair para a universidade, Shizuko parou diante do quarto dele.. Não entres.. Tinha-lhe sido dito..

Mas a ansiedade era mais forte.. Tinha de saber o que ele escondia.. Pegou na maçaneta.. Estava trancada..

Kenta trancara o quarto ao sair.. Shizuko ficou surpreendida.. Desde quando trancava ele o quarto? A suspeita cresceu ainda mais..

Foi à cozinha, abriu a gaveta das chaves,e encontrou a chave do quarto dele.. Voltou para diante da porta.. As mãos tremiam-lhe.. Devia mesmo entrar?

Aquilo era uma invasão de privacidade.. Mas, como mãe, não tinha ela o direito de saber? Enfiou a chave na fechadura.. Rodou..

Um clique.. A porta abriu-se.. Shizuko respirou fundo e entrou.. O quarto estava limpo..

A secretária arrumada, os livros organizados, a cama feita.. Nada de estranho.. Abriu as gavetas da secretária:. cadernos, canetas, material de escrita..

Tudo normal.. Abriu outra gaveta:. roupa.. Finalmente, abriu a última gaveta..

Lá estava uma pequena caixa.. Shizuko pegou nela e abriu-a:. sacos de medicamentos.. Vários tipos de comprimidos..

Shizuko pegou num dos sacos e leu o nome?. Termos médicos que não percebeu.. Debaixo dos sacos, havia um papel dobrado.. Shizuko desdobrou-o:.

Era um registo médico de um hospital.. A data era de um ano atrás.. Shizuko começou a ler:. Paciente:.

Suzuki Kenta.. Diagnóstico:. perturbação de ansiedade, perturbação de pânico, ataques de pânico noturnos.. As mãos dela começaram a tremer..

Continuou a ler:. Sintomas:. impulsos incontroláveis, ansiedade noturna agravada, perda de memória.. Shizuko sentiu que lhe faltava o ar..

Kenta estava doente.. Desde havia um ano.. E nunca lhe tinha dito nada? Continuou a ler:.

Plano de tratamento:. medicação e aconselhamento regular.. É necessária a presença de um responsável.. Presença de um responsável,.

dizia o papel.. Mas Shizuko nunca fora ao hospital com ele.. Kenta tinha ido sozinho.. Shizuko pousou o papel..

O peito doía-lhe.. Kenta tinha sofrido sozinho durante um ano inteiro.. Porque não lhe tinha contado? Porque não tinha pedido ajuda?

As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto.. Sentou-se no chão do quarto dele, a sentir-se a pior mãe do mundo.. O filho a sofrer tanto, e ela sem perceber nada.. E, ao mesmo tempo, sentiu alívio..

Não era nada de sexual.. Kenta estava apenas doente.. As visitas noturnas eram por causa da ansiedade e do pânico.. Shizuko chorou durante muito tempo..

Depois, guardou o registo médico na caixa e devolveu-a à gaveta:. Saiu do quarto, fechou a porta à chave e voltou para a sala.. Sentou-se no sofá, a pensar.. E agora?

Devia confrontar Kenta? Devia fingir que não sabia nada? Devia falar com o marido? A mente dela fervilhava..

Nessa tarde, Kenta chegou a casa, o mesmo sorriso no rosto.. Mas, aos olhos de Shizuko, ele parecia diferente.. Como se estivesse a forçar o sorriso.. Durante o jantar, Shizuko observou-o:.

as mãos dele tremiam ligeiramente ao segurar os pauzinhos.. Como não tinha reparado antes?. :… Kenta..

Shizuko chamou-o, cautelosa:. Kenta levantou o rosto:… Sim?. :…

Ultimamente… tens-te sentido mal? Alguma coisa a preocupar-te?. Kenta hesitou por um segundo, depois abanou a cabeça:…

Não, estou bem.. Era mentira.. Shizuko sabia.. Mas não perguntou mais..

O marido chegaria no fim de semana, e falariam com ele juntos.. À noite, às dez horas, o toque na porta soou.. Shizuko abriu a porta.. Kenta entrou..

Mas, desta vez, o olhar de Shizuko era diferente.. Não de suspeita, mas de compaixão:… Calma.. A mãe está aqui..

Disse, a voz embargada.. E abraçou-o.. Kenta começou a chorar nos braços dela:… Desculpa, mãe..

Shizuko abanou a cabeça:… Não tens nada que pedir desculpa.. Tudo vai ficar bem.. Sussurrou, a acariciar-lhe as costas:…

A mãe vai ajudar-te. Vamos ultrapassar isto juntos.. Kenta chorou ainda mais.. Shizuko também chorou..

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estavam verdadeiramente a comunicar.. No fim de semana, o marido, Minoru, chegou a casa.. Pousou a mala na entrada e olhou para Shizuko, o rosto contraído de preocupação:… Estás muito magra..

Abraçou-a.. Shizuko deixou-se envolver, a sentir a tensão a dissipar-se:. pela primeira vez em muito tempo, sentiu que tinha onde se apoiar:… Encontrei isto no quarto do Kenta..

Disse, entregando-lhe uma cópia do registo médico.. Minoru pegou no papel e leu.. O rosto dele foi-se tornando cada vez mais sombrio:… Perturbação de ansiedade…

perturbação de pânico… Isto é de há um ano?. A voz dele tremia.. Shizuko assentiu:…

Sim.. Kenta tem ido ao hospital sozinho.. Nunca nos contou nada.. Minoru ficou a olhar para o papel por um longo momento, depois sentou-se no sofá, a cabeça entre as mãos:…

Fui eu.. Fui eu que fui demasiado ausente.. As viagens constantes… e nem sabia que o meu filho estava a sofrer assim..

Havia auto-recriminação na voz dele.. Shizuko sentou-se ao lado dele:… Eu também não percebi nada.. Ficaram os dois em silêncio, o ar pesado:…

Temos que falar com ele.. Minoru disse finalmente.. Shizuko hesitou:… E se não estiver pronto?.

:… Adiar não vai ajudar ninguém.. Temos que falar agora.. Minoru levantou-se e foi até ao quarto de Kenta..

Bateu à porta:… Kenta, sou o pai.. Podes sair?. Um momento depois, a porta abriu-se..

Kenta saiu, um sorriso no rosto:… Pai! Quando chegaste?. :…

Agora mesmo.. Kenta, precisamos de falar.. O sorriso de Kenta desapareceu.. Uma tensão tomou conta do ar:…

Sobre o quê?. Vamos para a sala.. Os três sentaram-se no sofá, Kenta ao meio, os pais de cada lado.. As mãos de Kenta começaram a tremer..

Minoru colocou o registo médico diante dele:… Kenta,o que é isto?. Kenta olhou para o papel e empalideceu.. Os lábios tremiam-lhe, mas não saía nenhuma palavra:…

Porque não nos contaste? Se estavas a sofrer, devias ter dito.. Minoru perguntou, a voz a tremer, não de raiva, mas de tristeza.. Kenta baixou a cabeça:…

Desculpa.. Disse, a voz mal se ouvindo.. Shizuko pegou-lhe na mão:… Kenta, não estamos zangados contigo..

Apenas queremos saber porque é que escondeste tudo isto.. A voz dela era suave.. Kenta levantou lentamente o rosto, os olhos cheios de lágrimas:… Não queria preocupar-vos..

Disse, a voz a tremer.. O pai trabalha tanto, e a mãe tem tanto que fazer em casa… se eu vos contasse os meus problemas, vocês teriam ainda mais com que se preocupar.. As lágrimas escorriam-lhe pelas faces:…

No início, não era assim tão mau.. Tomava os comprimidos e sentia-me melhor.. Mas, há cerca de um mês, à noite, comecei a ter muito medo.. Não conseguia respirar,o coração parecia que ia rebentar..

Kenta, a voz a ficar mais alta, continuou:… E então… lembrava-me da mãe.. Queria vê-la..

Sentia que, se ela estivesse ao meu lado, talvez me sentisse melhor.. E por isso… por isso… vinha ter com ela todas as noites..

Kenta não conseguiu continuar e começou a chorar.. Shizuko abraçou-o:… Calma, calma.. Já está tudo bem..

A mãe está aqui.. Shizuko também chorava.. Minoru, os olhos vermelhos, limpou o rosto com a mão:… Kenta, desculpa..

O pai não sabia de nada.. Disse, pousandolhe a mão no ombro:… A partir de agora, vamos fazer isto juntos.. Não voltes a esconder nada de nós..

Estamos aqui para te ajudar.. Kenta assentiu, a chorar.. Os três ficaram sentados assim durante muito tempo,. a sentir, pela primeira vez em muito tempo, que eram uma família..

Passado o momento, Minoru perguntou:… Ainda vais ao médico? Kenta abanou a cabeça:… Não…

parei de ir há dois meses.. Os comprimidos eram caros, e… tornou-se um fardo.. Por isso…

piorou.. Minoru suspirou:… Na segunda-feira, voltamos ao hospital.. O pai vai contigo..

Vais ser tratado como deve ser.. Kenta hesitou:… Mas… será que eu vou ficar bom?.

:… Claro que vais.. Pode demorar algum tempo, mas vais ficar melhor.. Minoru disse, a voz firme e cheia de certeza..

Kenta pareceu aliviado.. Nessa noite, o jantar decorreu em silêncio, mas não num silêncio pesado.. Era um silêncio de compreensão mútua.. Durante o jantar, Minoru falou dos planos para o futuro:.

voltar ao tratamento, talvez ponderar uma pausa nos estudos.. Kenta ouviu, a assentir.. Depois do jantar, Minoru disse, sério:… Kenta, se sentires medo à noite, podes vir ao nosso quarto sempre que precisares..

Não tens que ter vergonha. Somos família.. Os olhos de Kenta encheram-se de lágrimas novamente, mas desta vez eram lágrimas de gratidão:… Obrigado, pai..

À noite, Shizuko e Minoru estavam no quarto, a conversar:… Sabes, tive tanto medo.. Disse Shizuko, a voz a tremer:… No início, não percebia nada..

Pensei… pensei todo o tipo de coisas.. Minoru segurou-lhe na mão:… Eu sei..

Eu também teria pensado o mesmo.. Mas agora já sabemos.. O nosso filho não é mau.. É um miúdo a sofrer..

As palavras dele confortaram Shizuko.. A ansiedade e a culpa que sentira durante tanto tempo começaram a dissipar-se.. Às onze horas, ouviram o toque na porta.. Shizuko e Minoru olharam um para o outro..

Minoru levantou-se e abriu a porta.. Kenta estava ali, o rosto banhado em suor, a respiração ofegante, como sempre.. Mas, desta vez, foi ele que falou primeiro:… Pai, mãe, vim outra vez…

Desculpa.. Shizuko disse:… Não faz mal. Entra..

Kenta entrou e, em vez de se encostar à parede, parou ao pé da cama.. Shizuko disse:… Senta-te na cama.. Kenta sentou-se, hesitante, na beira da cama..

Minoru e Shizuko sentaram-se de cada lado dele, a envolvê-lo:… Estamos aqui contigo.. Não tenhas medo.. Minoru disse..

Kenta foi-se acalmando mais depressa do que era habitual.. Vinte minutos depois, disse:… Já me sinto melhor.. Minoru perguntou:…

Queres voltar para o teu quarto? Kenta hesitou, depois disse:… Sim… mas…

posso dormir aqui esta noite? Shizuko e Minoru olharam um para o outro e sorriram:… Claro que podes.. Esta noite dormimos todos aqui..

Os três passaram a noite no mesmo quarto.. Kenta adormeceu entre os pais, o rosto finalmente tranquilo.. Shizuko, pela primeira vez em muito tempo, dormiu profundamente.. Nem tudo estava resolvido..

Mas, a partir daquele momento, havia esperança,. a certeza de que, juntos, conseguiriam ultrapassar tudo.. Na segunda-feira de manhã, Minoru tirou o dia de folga no trabalho para levar Kenta ao hospital.. Enquanto tomavam o pequeno-almoço, Minoru disse:…

Kenta, não fiques nervoso.. O médico vai ajudar-te.. Kenta assentiu, embora o rosto denunciasse a ansiedade.. Shizuko disse:…

A mãe fica em casa à tua espera.. Liga-me quando acabarem.. Minoru e Kenta saíram.. Shizuko ficou sozinha,.

a lavar a loiça,. a limpar a casa,. mas o pensamento estava no hospital.. Conseguiria Kenta falar com o médico?

O médico conseguiria encontrar o tratamento certo? Por volta das onze da manhã, a campainha tocou.. Shizuko foi abrir a porta.. Eram as vizinhas do lado e de outro andar:.

Boas tardes.. Disse Shizuko, cautelosa.. As duas mulheres trocaram olhares, os sorrisos amarelos:… Olhe…

temos tempo para falar um bocadinho?. Shizuko sentiu um aperto no estômago:. um mau pressentimento:… Claro, entrem..

As três sentaram-se no sofá da sala.. Shizuko serviu chá.. As vizinhas hesitaram, sem saber por onde começar:… Olhe…

andam a correr alguns boatos no prédio.. Disse a vizinha do lado, a voz baixa:… É sobre… o seu filho…

e a sua… visita ao seu quarto todas as noites.. Shizuko sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões:… Boatos..

Sim.. A outra vizinha acrescentou:… Não somos só nós.. Andam outros moradores a reparar..

Alguns dizem que ouviram choros durante a noite.. Shizuko empalideceu:… Isso não é verdade.. É um mal-entendido..

Tentou explicar, mas as palavras não saíam:… O meu filho… ele tem perturbação de ansiedade… ele vem ao meu quarto porque…

Mas como podia explicar aquilo de forma que acreditassem? As vizinhas não pareciam convencidas:… Nós, no início, tentámos não nos meter.. Mas, ultimamente, tem sido tão frequente…

que começámos a pensar se não haveria aí algum problema.. Disse a segunda vizinha, um misto de preocupação e suspeita na voz:… Não há problema nenhum.. Shizuko insistiu:…

O meu filho tem estado stressado por causa da universidade… e, por vezes, vem ao meu quarto… É só isso.. As vizinhas continuavam com o ar cético:…

Se é assim, ainda bem.. Mas… há pessoas que não vêem as coisas com bons olhos.. Tome cuidado..

Disse a vizinha do lado.. Shizuko sentiu o peito apertar-se:. Tome cuidado.. Como?.

:… Sim, eu entendo.. Vou ter cuidado.. Disse, forçando um sorriso..

As vizinhas levantaram-se e foram-se embora rapidamente.. Shizuko fechou a porta e desabou no sofá:. os boatos.. As pessoas andavam a falar dela e do filho..

O que andariam a pensar? Que tinham uma relação anormal? Sentiu o rosto a arder de vergonha.. O telemóvel tocou..

Era Minoru:… Estou?. Já saímos do hospital.. Estamos a caminho de casa..

Shizuko perguntou, a voz a tremer:… Como correu?. :… O médico fez um plano de tratamento..

Receitou novos medicamentos.. Falamos disso em casa.. Shizuko suspirou, aliviada por um lado:. o hospital tinha corrido bem,.

mas o problema dos boatos continuava.. Trinta minutos depois, Minoru e Kenta chegaram a casa.. Kenta parecia cansado e foi directamente para o quarto.. Minoru sentou-se com Shizuko na sala:…

O médico disse que o estado do Kenta é mais grave do que pensávamos.. Por não ter sido tratado devidamente, a doença piorou.. Shizuko sentiu uma pontada no peito:… Então?.

:… Vai ter que tomar medicação durante cerca de três meses e ir ao psicólogo uma vez por semana.. E nós temos que criar um ambiente estável em casa.. Shizuko assentiu:…

Percebo.. Depois, contou a Minoru o que acontecera com as vizinhas:. os boatos, as insinuações.. O rosto de Minoru endureceu:…

Boatos? Que boatos?. :… Sim..

Shizuko, a voz a tremer, continuou:… Andam a dizer que o Kenta vai ter comigo todas as noites… e que isso é estranho.. Minoru cerrou os punhos:…

Isto é um absurdo. O nosso filho está doente, e é por isso que faz isto.. O que é que há de estranho nisso? As pessoas só vêem a superfície..

Shizuko suspirou:… Mas o que é que podemos fazer?. :… Explicar-lhes..

Minoru disse, firme:… Vamos à administração do prédio e afixamos um aviso.. Temos que acabar com estes boatos.. Shizuko hesitou:…

Mas… vamos contar a toda a gente sobre a doença do Kenta?. :… Vamos perguntar-lhe primeiro..

Minoru disse.. Foram ao quarto de Kenta e explicaram-lhe a situação:. os boatos, a necessidade de os desfazer.. Kenta baixou a cabeça, a ouvir:…

A culpa é minha.. Disse, a voz a tremer:… Devia ter tido mais cuidado.. Shizuko disse:…

Não, a culpa não é tua.. Kenta, o pai quer explicar tudo a toda a gente.. O que achas? Vais ter que falar sobre a tua doença..

Kenta ficou em silêncio por um momento, depois assentiu:… Está bem.. De qualquer forma, não o posso esconder para sempre.. É melhor do que ser mal interpretado..

Minoru pousou-lhe a mão no ombro:… Obrigado, filho.. No dia seguinte, Minoru foi à administração do prédio e pediu para afixar um aviso no quadro dos moradores.. O administrador hesitou, mas acabou por permitir..

O aviso dizia:… Olá.. Sou Minoru Suzuki, do apartamento 503.. Recentemente, andaram a circular boatos sobre o meu filho, e gostaria de esclarecer a situação..

O meu filho sofre de perturbação de ansiedade e de pânico.. Os sintomas agravam-se à noite, o que leva a que, por vezes, visite o quarto dos pais.. Isto faz parte do tratamento em casa.. Peço que não haja mal-entendidos..

Peço desculpa por qualquer incómodo causado.. As reacções ao aviso foram mistas.. Alguns moradores mostraram compreensão.. Outros continuavam cépticos..

Houve até quem criticasse o facto de exporem a doença em público.. Shizuko leu os comentários e chorou:… Não faz mal.. Com o tempo, as pessoas esquecem..

Minoru tentou confortá-la.. Mas Shizuko não se sentia confortada.. Os olhares dos vizinhos eram demasiado pesados.. Nos dias que se seguiram, Shizuko sentia-se cada vez mais desconfortável ao sair de casa..

No elevador, encontrava vizinhos e reinava um silêncio constrangedor.. Alguns olhavam-na com compaixão, outros desviavam o olhar.. Kenta também sofria.. Quando voltava da universidade, fechava-se no quarto:.

Mãe, sinto que toda a gente me olha de maneira estranha.. Disse ele um dia.. Shizuko abraçou-o:… Não faz mal..

Com o tempo, esquecem.. Mas, no fundo, nem ela própria acreditava naquilo.. A família foi-se isolando cada vez mais.. Duas semanas se passaram, e a situação não melhorava, antes piorava..

Um dia, Shizuko andava a navegar na internet e encontrou um post anónimo num fórum de moradores da zona:. Apartamento 503.. Que estranho.. Dizem que o filho tem uma doença mental, mas eu não acredito..

Visitar o quarto da mãe todas as noites? Isso não é normal.. Quem tem filhos devia ter cuidado.. Os comentários eram semelhantes:.

suspeita, crítica, por vezes até repulsa aberta.. Shizuko pousou o telemóvel e fechou os olhos:. o ar a faltar-lhe.. Minoru também sofria no trabalho..

Um colega que morava no mesmo prédio espalhara os boatos pelo escritório.. Durante o almoço, Minoru ouvira colegas a sussurrar:. a história do filho do Suzuki.. Numa noite, durante o jantar, os três estavam sentados à mesa, mas ninguém comia..

Apenas mexiam na comida com os pauzinhos:. Vamos ter que nos mudar daqui?. Shizuko perguntou, cautelosa.. Minoru suspirou:…

E mudarmo-nos resolve alguma coisa? Aconteceria o mesmo noutro sítio qualquer.. Kenta pousou os pauzinhos:… A culpa é minha..

Tudo isto é por minha causa, por minha culpa.. A voz dele tremia.. Shizuko apressou-se a dizer:… Não, não digas isso..

Não é culpa tua.. Minoru disse:… Exacto.. A culpa não é tua..

És tu que estás doente, e isso não é culpa tua.. Mas as pessoas olham para mim de maneira estranha.. E vocês estão a sofrer por minha causa.. Kenta começou a chorar..

Shizuko também.. A situação era tão injusta, tão dolorosa.. Naquela noite, Minoru disse:… Temos que fazer alguma coisa..

Nós próprios.. Shizuko perguntou:… O quê?. :…

Explicar a situação pessoalmente, cara a cara com os moradores.. O aviso no quadro não foi suficiente.. Temos que falar com eles olhos nos olhos.. Shizuko sentiu medo:…

Mas… como é que podemos fazer isso? Ficar diante de toda a gente e expor a vida da nossa família?. :…

Temos que o fazer.. Se continuarmos assim, vamos acabar destruídos.. A voz de Minoru estava cheia de determinação. No dia seguinte, Minoru foi à administração do prédio e pediu para falar na assembleia de moradores..

O administrador ficou perplexo, mas acabou por permitir.. Uma semana depois, a assembleia de moradores realizou-se no salão comunitário ao lado da administração.. Shizuko, Minoru e Kenta foram juntos.. Kenta não queria ir, mas Minoru convenceu-o:…

Kenta, tu também tens que ir.. Se não apareceres, eles nunca vão perceber.. Não podes esconder-te.. Kenta, o coração a bater forte, foi com eles..

No salão, havia cerca de trinta moradores sentados.. Quando a família Suzuki entrou, um murmúrio percorreu a sala.. Shizuko sentiu todos os olhares sobre si.. Sentaram-se..

O administrador conduziu a assembleia, tratou de alguns assuntos e, depois, deu a palavra a Minoru.. Minoru levantou-se, as pernas a tremer:… Boa noite.. Sou Minoru Suzuki, do apartamento 503..

A voz dele tremia, mas continuou:… Estou aqui hoje para esclarecer os mal-entendidos que têm circulado sobre a nossa família.. Sei que muitos de vocês se sentem incomodados com o nosso filho.. Os moradores ficaram em silêncio, a ouvir:…

O meu filho, Kenta, sofre de perturbação de ansiedade e de pânico.. Os sintomas começaram há um ano,e agravam-se especialmente à noite.. Minoru olhou para Kenta, que estava de cabeça baixa, e continuou:… Quando a ansiedade se torna insuportável, ele sente um medo extremo..

Não consegue respirar,o coração parece que vai rebentar.. É por isso que ele vem ter connosco,. connosco,. os pais dele.

Não é uma escolha.. Não é um comportamento estranho.. É uma doença.. A voz de Minoru foi ficando mais forte:…

Estamos a tratá-lo.. Ele vai ao hospital e toma medicação.. Vai demorar, mas acreditamos que ele vai melhorar.. Minoru fez uma pausa, respirou fundo e continuou:…

Mas os olhares das pessoas estão a fazer-nos ainda mais mal.. A suspeita e as críticas estão a magoar o nosso filho ainda mais,e estão a esgotar-nos a nós, pais.. Os olhos de Minoru encheram-se de lágrimas:… Por favor..

Não olhem para o nosso filho como se ele fosse uma aberração.. Vejam-no apenas como alguém que está doente.. Pedimos desculpa por qualquer incómodo causado pelos ruídos à noite.. Mas o Kenta não é um mau miúdo..

Minoru curvou-se profundamente:… Peço desculpa.. De cabeça baixa, Shizuko também se curvou:… Peço desculpa..

O salão ficou em silêncio.. Foi então que Kenta se levantou.. Minoru sobressaltou-se e olhou para ele.. Kenta, o corpo a tremer, voltou-se para os moradores:…

Eu sou o Suzuki Kenta.. A voz dele era baixa, mas clara:… É verdade que tenho problemas mentais.. E é verdade que tenho incomodado os meus pais e os vizinhos todas as noites..

As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto:… Eu não quero isto.. Disse, a voz a falhar:… Eu não consigo controlar-me..

À noite, sinto um medo tão grande.. Sinto que vou morrer.. Kenta, a chorar, continuou:… Quando os meus pais estão ao meu lado, sinto-me um pouco melhor..

Por isso é que vou ter com eles.. Não é por nenhuma razão estranha.. É apenas porque preciso deles.. Kenta limpou as lágrimas e curvou-se profundamente:…

Peço desculpa.. Peço desculpa pelo incómodo que causei.. Vou fazer o meu melhor para melhorar rapidamente.. Apenas…

peço que tenham um pouco mais de paciência.. Kenta permaneceu curvado, o corpo a tremer.. O salão ficou em silêncio total.. Foi então que uma mulher se levantou..

Era uma moradora do sexto andar:… Kenta, levanta a cabeça.. Kenta levantou lentamente o rosto.. Os olhos da mulher também estavam cheios de lágrimas:…

Desculpa.. Nós não sabíamos.. Deve ter sido tão difícil para ti.. Disse ela..

Outra pessoa levantou-se:… Eu também peço desculpa.. Eu também tinha mal-entendido.. Um a um, vários moradores levantaram-se e pediram desculpa..

Nem todos, claro.. Alguns continuavam sentados, com expressões de desagrado.. Mas, pelo menos, uma parte das pessoas tinha compreendido.. A assembleia terminou..

Alguns moradores aproximaram-se da família para oferecer palavras de apoio:… Força.. Vais ficar melhor.. Se precisarem de alguma coisa, digam qualquer coisa..

Shizuko, as lágrimas a escorrer, agradeceu e curvou-se repetidamente.. No caminho de casa, no elevador, Kenta disse:… Pai, mãe… obrigado..

Por terem tido coragem de falar.. A voz dele estava calma:… Sinto-me… mais leve..

Já não preciso de me esconder.. Minoru pousou-lhe a mão no ombro:… Muito bem, filho.. Minoru sorriu, os olhos brilhantes de lágrimas contidas..

Shizuko abraçou-o:… Vamos ultrapassar isto juntos.. Naquela noite, houve paz.. Kenta dormiu no quarto dele..

Não houve toques na porta.. Shizuko, pela primeira vez em muito tempo, dormiu tranquilamente.. Três meses se passaram.. O Outono aprofundara-se..

As folhas das árvores estavam a mudar de cor,e a brisa da manhã e da noite estava fresca.. Shizuko estava na varanda, a olhar para o exterior.. Muita coisa mudara.. Kenta continuava o tratamento com regularidade:.

sessões de terapia uma vez por semana e medicação.. O médico dissera que ele melhorara significativamente:. os ataques tinham diminuído drasticamente,e os níveis de ansiedade tinham baixado.. A maior mudança era à noite..

Kenta já dormia no quarto dele quase todas as noites.. Claro que ainda havia dias maus.. Uma ou duas vezes por semana, ainda vinha ter com os pais.. Mas, desta vez, era diferente:.

batia à porta e dizia:… Mãe, hoje estou um bocado mal.. Posso ficar aqui um pouco?.. Agora conseguia expressar o que sentia em palavras..

Shizuko recebia-o sempre de braços abertos:. Claro, entra.. Kenta sentava-se ao lado da cama.. Shizuko segurava-lhe na mão,e ele acalmava-se aos poucos..

Já não demorava uma hora:. vinte minutos eram suficientes:. Já estou melhor.. Vou para o meu quarto..

Shizuko perguntava:… Tens a certeza que consegues?. :… Sim, já estou bem..

Kenta conseguia voltar sozinho para o quarto dele.. Era o maior progresso de todos.. Numa manhã, Shizuko estava na cozinha a preparar o pequeno-almoço.. Kenta saiu do quarto e sentou-se à mesa:…

Bom dia, mãe.. A voz dele estava alegre, como antigamente.. Shizuko sorriu:… Bom dia..

Dormiste bem?. :… Sim.. Kenta sorriu:…

Não sonhei nada esta noite.. Dormi profundamente pela primeira vez em muito tempo.. Shizuko sentiu o coração aquecer-se:. ver o filho sorrir daquela maneira era uma alegria imensa:…

Hoje tens sessão de terapia, não tens?. :… Sim, às três da tarde.. Depois do almoço, posso ir sozinho..

Descansa, mãe.. Shizuko sentiu orgulho no filho:. agora já conseguia ir sozinho ao hospital.. Minoru também mudara:.

reduzira as viagens de trabalho,e tentava estar em casa o máximo possível.. Aos fins de semana, ficavam os três juntos.. Num sábado à tarde, foram dar um passeio ao parque perto de casa.. As folhas de outono estavam lindas,.

e o vento fazia-as dançar.. Kenta apanhou uma folha do chão e segurou-a na mão:… Pai, mãe… ultimamente tenho-me sentido feliz na universidade..

Kenta disse.. Shizuko e Minoru olharam para ele, surpreendidos:… A sério?. :…

Sim.. Kenta sorriu:… Dou-me bem com os meus amigos, e as aulas são interessantes.. Contei a um professor o que se passa comigo, e ele foi muito compreensivo..

Deixou-me até entregar os trabalhos mais tarde.. Minoru pousou-lhe a mão no ombro:… Ainda bem, filho.. Estás a fazer um óptimo trabalho..

Kenta sorriu:… Obrigado, pai.. Os três continuaram a caminhar. a conversar.

a rir. Uma família normal,a dar um passeio num sábado à tarde.. As relações com os vizinhos também melhoraram aos poucos.. No elevador, já se cumprimentavam..

Uma vizinha chegou a perguntar pelo Kenta:… Ele está melhor?. :… Sim, está muito melhor..

Obrigado por perguntar.. Kenta respondeu, sem hesitar.. Já não se escondia.. Claro que nem toda a gente o compreendia..

Alguns ainda o evitavam.. Mas Shizuko aprendera a não ligar a isso:. não se pode agradar a toda a gente.. Numa noite, durante o jantar, a família estava reunida, a ver as notícias na televisão.

Uma cena banal do quotidiano:. Mãe, isto está delicioso.. Kenta disse, a pegar num pedaço de comida.. Shizuko sorriu:…

Então come à vontade.. O apetite de Kenta tinha voltado, o que era um bom sinal.. Depois do jantar, Kenta lavou a loiça.. Ultimamente, ajudava em casa com frequência, para ajudar a mãe:.

Mãe, já lavei a loiça.. Obrigado.. Vou estudar um bocado.. Kenta foi para o quarto dele..

Shizuko e Minoru sentaram-se no sofá da sala:. Sabes, o Kenta melhorou muito.. Shizuko disse.. Minoru assentiu:…

Sim, é verdade.. Foi difícil, mas ultrapassámos.. Foi graças a ti.. Tu estiveste sempre ao lado dele..

Shizuko abanou a cabeça:… Não digas isso.. Tu também fizeste a tua parte.. Foste tu que tiveste coragem de falar na assembleia..

Minoru sorriu e pegou-lhe na mão:… Todos fizemos a nossa parte.. E o Kenta também lutou muito.. Shizuko apertou-lhe a mão de volta:.

a calor a espalhar-se pelo corpo.. À noite, Shizuko estava deitada na cama, Minoru ao lado, a ler um livro. A casa estava em silêncio.. Às onze horas, não houve toque na porta..

Kenta estava a dormir no quarto dele.. Shizuko suspirou, aliviada:… Boa noite, querido.. Minoru desligou o candeeiro e deitou-se:…

Boa noite.. Shizuko fechou os olhos.. A noite estava calma.. Na manhã seguinte, Shizuko levantou-se e foi à sala..

Kenta já estava acordado, sentado no sofá, a ler um livro:. Kenta, já estás acordado?. :… Sim, acordei cedo..

Kenta tirou os olhos do livro e olhou para a mãe:. Mãe… obrigado.. Shizuko ficou confusa:…

Pelo quê?. :… Por não teres desistido de mim.. Kenta disse, o rosto sério:…

Sei que passei por momentos difíceis.. Mas tu ficaste sempre ao meu lado.. Obrigado.. Os olhos de Kenta brilharam com lágrimas..

Shizuko sentiu os olhos a arder também:… Isso é o mínimo.. Tu és o meu filho.. Abraçou-o..

Kenta chorou baixinho nos braços dela.. Shizuko também chorou.. Mas, desta vez, não eram lágrimas de tristeza.. Eram lágrimas de gratidão..

Passado um momento, separaram-se e limparam as lágrimas:. Deves estar com fome.. Vou fazer o pequeno-almoço.. Disse Shizuko:.

Sim.. Kenta sorriu:… Mãe, eu ajudo-te.. Os dois foram juntos para a cozinha:.

fizeram omeletes,. aqueceram sopa de missô.. Minoru também se levantou e juntou-se a eles à mesa:. Bom apetite..

Disseram os três em uníssono,e começaram a comer.. Era uma manhã normal.. A luz do sol entrava pela janela,. quente e suave..

Shizuko olhou para fora:. as folhas de outono a dançar ao vento,. lindas.. Kenta ainda não estava totalmente curado..

Ainda precisava de tomar medicação e ir à terapia.. Ainda havia dias difíceis.. Mas já não estava sozinho.. A família estava com ele,.

a compreender-se,. a apoiar-se,. a amar-se.. E isso era suficiente..

Shizuko olhou para o filho,. que conversava e ria com o pai durante o pequeno-almoço.. O rosto dele estava calmo.. O sorriso natural..

Já está tudo bem,. pensou Shizuko,. Pode demorar, mas o Kenta vai melhorar.. E a família vai continuar a caminhar juntos..

A partir daquele dia, as noites foram tranquilas.. Por vezes, Kenta ainda vinha ter com eles, mas já não era com aquela aflição desesperada.. Era apenas porque queria ver a mãe, porque queria estar com ela.. E Shizuko estava sempre pronta a abrir-lhe a porta..

Porque era a mãe dele.. E o coração dela estava sempre aberto para o filho,. de dia e de noite.. Compreender quem amamos pode demorar tempo..

Mas, se caminharmos juntos sem desistir, um dia, encontraremos as palavras uns dos outros.. A história de Kenta e Shizuko terminou,. mas o quotidiano deles continuou.. E, hoje, em algum lugar, alguém está a lutar contra um sofrimento invisível,.

e alguém está ao seu lado, em silêncio, a protegê-lo.